Início » Banda larga e telecomunicações » Nossas redes de celular não estão preparadas para a manifestação 2.0

Nossas redes de celular não estão preparadas para a manifestação 2.0

Por
1 ano atrás

Eram cerca de seis horas da tarde de uma segunda-feira. Eu tomava o metrô com o objetivo de descer no Largo da Batata, na Zona Oeste da capital paulista. Eu e outras ~100 mil pessoas, segundo as projeções menos entusiasmadas de veículos de imprensa. Essa gente toda saiu às ruas para protestar contra uma penca de problemas que – você e eu sabemos – o Brasil enfrenta ainda hoje. Era a manifestação 2.0. O levante do povo organizado por meio de uma rede social.

E já que tinha a alcunha de “2.0″, não foi surpresa perceber que, logo ao desembarcar, havia milhares de telinhas de celular ligadas e prontas para disparar caso os agentes de segurança apresentassem algum tipo de truculência. Aquela gente toda estava nas ruas para expor sua opinião, mas também estavam na rede para mostrar que um avatar no Facebook pode muito mais quando toma o espaço público. Ou quase isso.

Essa era a ideia, mas quem disse que a rede de telefonia celular funcionou?

Opa, alguém aí me empresta o sinal com tethering?

Opa, alguém aí me empresta o sinal com tethering?

O coletivo Repórter da Internet, do qual faço parte, tentou de todas as formas levar as informações daquele minuto para os milhares de seguidores no Facebook. A ideia era justamente realizar uma cobertura independente e pluralista, tendo em vista como parcela dos grandes veículos de imprensa vinham se comportando em relação aos protestos.

Não deu certo. Lá, no meio da multidão, o comentário que mais se ouviu, fora os gritos de guerra obviamente, era de que estava impossível estabelecer qualquer tipo de contato por meio da rede de telefonia móvel. Não funcionava por um motivo que todos nós conhecemos: havia muitas pessoas conectadas simultaneamente no mesmo conjunto de antenas que atende a região. Sem estrutura para aquele número brutal de usuários concentrado em um mesmo canto da cidade, as operadoras todas pediram arrego. Fosse cliente do plano mais premium da operadora mais cara, em algum momento o manifestante perdeu contato com o mundo por conta dessa situação inusitada.

Ora, ora, as operadoras não sabiam que as manifestações estavam agendadas? Talvez você esteja se perguntando isso. Eu também estava me perguntando isso. Com essa ferramenta maravilhosa chamada email, fui atrás das quatro grandes teles móveis para saber o que havia acontecido. Era uma pergunta até simples: a operadora X realizou algum esforço no sentido de reforçar a rede onde sabidamente haveria manifestação popular? Nenhuma operadora nos respondeu diretamente a questão. Só podemos crer que não, elas não se prepararam para participar da manifestação 2.0. Não que fossem obrigadas por lei. Mas as feições de frustração dos manifestantes diante do celular com a tela em branco, esperando achar sinal para telefonar, mandar SMS ou ainda postar uma foto no Instagram demonstrava que, de fato, aquele mundaréu de gente queria se expressar e contar ao mundo o que estava acontecendo.

Eu conversei com uma fonte de uma operadora que levantou o seguinte ponto, bastante interessante: existe todo um preparo para que a rede seja reforçada em situações de grandes eventos. Essa fonte citou a Copa das Confederações e alguns shows que atraem milhares ao Jockey Club de São Paulo e a Itu, também no estado de São Paulo. Não era possível dar o mesmo tratamento às manifestações porque elas não fazem parte do calendário oficial da cidade.

É uma informação que procede. Entretanto, a grande mídia noticiou com fartura a agenda das manifestações (falo com base na cidade de São Paulo). Ou seja, era previsível que os grandes atos atraíssem muitos participantes. De toda forma, a posição oficial é que, de modo geral, as operadoras não tinham subsídios para se preparar para os grandes protestos.

Menor distância entre o ponto de encontro, no metrô Faria Lima, e a Avenida Paulista, que dispensa apresentações – porque eu não lembro a trajeto exato que eu fiz

Menor distância entre o ponto de encontro, no metrô Faria Lima, e a Avenida Paulista, que dispensa apresentações – porque eu não lembro a trajeto exato que eu fiz

E o que sobra ao cliente? No meu caso, tive que esperar sair do ponto de encontro estipulado pelo Movimento Passe Livre para ter o sinal de volta. Possivelmente percorri 2 quilômetros sem contato com a humanidade antes de finalmente conseguir fazer ligações (pra checar se o nosso editor-chefe Thiago Mobilon estava vivo; ele está).

Uma sugestão é usar o SMS para falar com os seus amigos quando nada mais parecer funcionar. Ainda que não seja possível fazer ligações ou entrar na internet por meio do HSPA+, o celular continua realizando o tráfego de dados da mensagem curtinha, já que essas informações vêm junto com outros pacotes que circulam constantemente desde o momento em que o aparelho e a linha foram registrados na rede.

É, minha gente, como diz o título deste texto, as nossas redes de telefonia móvel não estão preparadas para a manifestação 2.0. As operadoras falharam num momento primordial de restabelecimento do diálogo – ou da pressão, como preferir – da população com o poder público.

Resposta da Claro

“A Claro informa que não foram identificadas falhas em sua rede durante período de manifestações.”

É mentira. Sou assinante de um plano Sob Medida da operadora com franquia de 5 GB por mês. A rede não funcionava. Simplesmente não funcionava.

Resposta da Oi

A Oi não se manifestou sobre o assunto. Mandamos email e também entramos em contato por telefone com a assessoria de imprensa da operadora, mas não retornaram uma resposta para os questionamentos do TB.

Resposta da TIM

“A TIM informa que alguns clientes podem ter enfrentado dificuldades para efetuar e receber chamadas e trafegar dados durante as manifestações em São Paulo, na noite do dia 17/06. Neste período, os sites (antenas) da operadora apresentaram 100% de ocupação em função do alto volume de trafego de voz e dados ocasionado pela grande concentração de pessoas na região do Largo da Batata, no bairro de Pinheiros.

De toda forma, a operadora reafirma seu compromisso com a melhoria dos serviços e com a transparência do seu negócio. No triênio que se encerra em 2015, investirá R$ 10,7 bilhões no Brasil, sendo mais de 90% desse valor destinado para aprimoramento e ampliação da cobertura. Todo esse trabalho poderá ser acompanhado pelos clientes no site Portas Abertas.”

Resposta da Vivo

“A Telefônica Vivo informa que sua rede 3G funcionou normalmente em áreas onde ocorreram manifestações. É importante destacar que o acesso simultâneo de um grande número de usuários em um mesmo local pode gerar dificuldades momentâneas de conexão para alguns clientes.”

Tecnocast

|

Faça seu login no Tecnoblog

Crie a sua conta

Esqueci minha senha