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O dono da Amazon comprou um jornal por US$ 250 milhões

Não é qualquer jornal: estamos falando do "Washington Post"

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51 semanas atrás

Jeff Bezos é um sujeito que ajudou a inventar essa parada bacana que te permite fazer compras com um simples clique¹: o comércio eletrônico, e-commerce. Ele é tido como um exemplo de empreendedorismo e inovação, como um visionário a frente do tempo dele. Um homem cuja biografia se escreve lado a lado com a história com a internet. E… o mais recente proprietário do Washington Post, um dos mais tradicionais jornais dos Estados Unidos. WTF? Exatamente.

O anúncio da aquisição foi feito no início da noite desta segunda-feira (5). Em resumo, Bezos decidiu arcar com o nada pequeno custo de 250 milhões de dólares, quantia superior a meio bilhão de reais, para comprar o Post. Detalhe: em dinheiro vivo. Nada de troca de ações ou qualquer coisa do tipo. É grana mesmo que ele vai pagar à família que controlou o jornal por mais de um século.

E detalhe nº 2: a transação ocorre sem envolver um centavo da Amazon. Trata-se de uma compra particular de um homem rico, muito rico. Precisamente, o 19º mais rico do mundo, segundo alguns dos rankings que me fazem pensar que nem em dez encarnações eu terei visto tanto dinheiro como o dos caras que encabeçam a lista.

E o que isso quer dizer para todos nós? Eu não tenho a resposta exata, mas tenho algumas pistas que gostaria de compartilhar.

Quando o jornal vira notícia

Quando o jornal vira notícia

Primeiro de tudo, os jornais no mundo sangram dinheiro. Essa é uma realidade incontestável, com mais ou menos agravantes, dependendo do mercado. Reza a lenda que ainda há algum crescimento em países de economia emergente, como o Brasil. Não é o caso dos Estados Unidos, que já é rico há muito tempo e tem uma economia consolidada. Nesse cenário, aparecem figuras públicas interessadas em tirar uma pequena parte de sua fortuna para financiar o jornalismo². Os motivos para essa decisão são vários. Desde serem bem aceitos na sociedade por meio da filantropia, até mesmo utilizar o jornal para direcionar a agenda da opinião pública.

Lá na América, os bilionários irmãos Koch, donos da segunda maior empresa privada dos EUA, estão há tempos pensando em comprar algum veículo de imprensa. Porque podem e porque são superconservadores. Eles querem que essa vertente de pensamento tenha destaque na cobertura jornalística. Não que os repórteres terão que reproduzir o discurso fielmente, mas é de se esperar que ao menos esse discurso ganhem algum destaque, que seja ouvido.

Bezos poderia comprar o Post simplesmente porque quer. Porque pode. Ele disse num comunicado nesta segunda mesmo que nada mudará, que a publisher do jornal continuará a mesma, e que os princípios do veículo responsável pelo episódio do Watergate continuarão inabalados. Ele foi além: disse que já tem um emprego — em referência ao cargo de CEO que exerce na Amazon, a maior empresa de e-commerce do mundo (com a sua licença: eu amo a Amazon).

Outro motivo que faz perfeitamente sentido é aquilo que o Washington Post faz: jornalismo de qualidade. Digamos que Jeff Bezos não esteja comprando a plataforma em si, o suporte jornal que é distribuído diariamente. É plausível dizer que ele decidiu comprar uma redação para ter conteúdo próprio. Meio caminho andado, já que ele é dono de um dos melhores dispositivos para consumir conteúdo atualmente. Sim, eu estou falando do Kindle. Bezos tem uma clientela potencial gigantesca, caso decida estreitar a relação entre a divisão de Kindle da Amazon e a divisão de novas mídias do Washington Post.

Imagine, por exemplo, que os novos compradores do Kindle recebam gratuitamente uma assinatura das notícias do jornal recém-comprado. As possibilidades são inúmeras.

Recado para os funcionários do Post: relaxem, eu já tenho um bom emprego

Recado para os funcionários do “Post”: relaxem, eu já tenho um bom emprego

Não menos importantes, temos que lembrar o perfil “visionário” de Bezos. Ele é descrito dessa forma por notáveis jornalistas que acompanham os rumos do mercado de tecnologia. Não duvide que ele tenha tido uma epifania para salvar o jornalismo. Em seguida, tratou de comprar logo uma maneira de garantir a execução dessa ideia. Só saberemos nos próximos meses, talvez anos. E por anos, lembre-se que ele próprio disse certa vez que os jornais terão desaparecido em vinte anos. A declaração foi feita em 2012. Ele ainda tem um bom tempo antes que a própria profecia se torne realidade.

Encaro a notícia de hoje com bons olhos porque mexe diretamente com um mercado no qual estou inserido. Eu espero que Bezos traga boas novidades ao jornalismo. Faz tempo que os estudiosos procuram uma maneira de salvar a imprensa (como se ela precisasse ser salva, mas deixemos essa discussão para outro momento). Não duvide que a resolução para este problema venha de fora.

E, se nada mais der certo, vale lembrar ainda que o Washington Post custaria alguns poucos milhões de dólares para ser mantido. No primeiro semestre deste ano, o prejuízo foi de aproximadamente 50 milhões de dólares. Caso queira, ele poderia arcar com este custo. Não estou aqui sugerindo que Bezos é louco a ponto de rasgar dinheiro… Mas, novamente, até essa opção ele tem.

Confesso: estou curioso para ver o que está por vir.

¹Quando eu citei a compra com um clique, era literalmente. A Amazon de Bezos possui a patente relacionada com esta funcionalidade capaz de nos pregar peças. Quando você vê, pum, a compra foi feita. Seu cartão de crédito sofre.

²Tivemos um episódio similar neste fim de semana. A empresa por trás do New York Times decidiu vender o Boston Globe por 70 milhões de dólares a um bilionário que possui também o time de futebol inglês Liverpool e o time de baseball Red Sox, nos EUA.

Atualizado | 06.08.2013 às 12h30

  • http://twitter.com/marcuspessoa Marcus Pessoa

    Se os irmãos Koch comprarem algum jornal, vai acontecer a mesma coisa que aconteceu com o Wall Street Journal, que era um respeitado jornal econômico, e depois que foi comprado por Robert Murdoch (dono da Fox News) se tornou um veículo de cobertura política histérico, nos moldes da Fox.

    Eu achei irritante nessa matéria do Tecnoblog toda essa baba-ovice pra cima do Jeff Bezos. Por que o autor precisa dizer que “ama” a Amazon? Isso é realmente necessário?

    O Washington Post está aí há mais de um século porque é um veículo respeitado, no qual a gente pode confiar, onde existem critérios elevados de imparcialidade. Acho que blogs de conteúdo jornalístico como esse, se quiserem ser respeitados também, deveriam se pautar por esses mesmos critérios imparciais.

    Faltou, na matéria, falar sobre as prefereências políticas do Bezos — já que citaram as dos irmãos Koch. Falar o que ele pensa sobre liberdade de expressão e sobre a ofensiva do governo americano contra a privacidade, por exemplo. Isso é bem mais relevante do que os sentimentos do autor a respeito do sistema de compras da Amazon.

    • Ivanildo Terceiro

      Podia explicar que os Koch Brothers são mais histéricos com liberdade de expressão e os Drones do Obama que o Jeff Bezos. ^~^

  • http://about.me/marcos_5000 marcos_5000

    Me loguei só pra falar… Gente chata u.u
    Deixa o cara falar que gosta da Amazon… :P

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