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Linuxcon: Linus Torvalds, tietagem e o futuro do Software Livre

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4 anos atrás

No primeiro dia da Linuxcon, uma coisa já ficou clara para todos os participantes: eventos precisam urgentemente ser mais organizados. Afinal, não é nada animador ficar meia hora na fila e descobrir só no final que não existe fila única, mas sim filas separadas por nome, e que eu, estando como imprensa, poderia ter pego outra fila. Óbvio, não havia ninguém para comunicar isso.

Alguns efeitos de Avatar foram feitos com Linux. Alguns trechos do roteiro foram escritos por uma ostra

Findo o desentendimento inicial, o evento começou com uma apresentação especial de Jim Zemlin, diretor executivo da Linux Foundation. Entre números e curiosidades sobre o estado atual do Linux, Jim ressaltou um fato importante: o PC comum está morrendo. Saem os gabinetes com teclado, mouse e monitor e entram os mais diversos dispositivos, como smartphones, tablets, netbooks, notebooks e até sistemas intra-veiculares. Ou seja, o acesso à informação se tornou muito mais importante que o sistema operacional. E a missão do Linux para usuários comuns é justamente ser capaz de prover esses diversos dispositivos com um sistema robusto, estável e, principalmente, livre.

Linus e Jim, respectivamente. "Tô nem aí, tô nem aí", cantava Linus

Logo depois, em uma exclusiva rápida com jornalistas, Linus Torvalds e Jim Zemlin responderam a diversas perguntas sobre o Software Livre e Linux em geral. Aqui cabe ressaltar o modo de pensar de Linus: a maioria das respostas dele normalmente começavam com “Eu não sei, sou só um engenheiro (de software)” ou “Eu não me importo, Jim sabe melhor disso do que eu”. Ou seja, Linus não se importa com rixas como Microsoft X Linux ou distro X distro, ou até mesmo números precisos de utilização. Ele é um programador, pragmático, e para ele só importa uma coisa: show me the code.

Além disso, chama atenção a clareza e simplicidade com que Linus pensa. Citar todas as frases dele seria quase impossível, mas algumas merecem destaque por mostrar a sua visão de negócios para o Linux e o Software Livre:

Você não precisa instalar (o Linux), existem live CDs que você pode usar para testar, se acostumar e se gostar da experiência, instalar.

Eu não quero que o Linux domine o mundo, quero que o Linux seja o melhor sistema operacional que existe.

Eu não me importo que as pessoas usem software pago dentro Linux. Quero que elas sejam livres para escolher.

É uma selva lá fora, e o mais rápido e mais forte vai vencer. E eu acho que Linux é o mais rápido e mais forte.

Logo depois, em uma coletiva para todos os presentes, Linus, Jim e Andrew Morton (mantenedor oficial do Kernel Linux) bateram um longo papo sobre Software Livre, desenvolvimento, suas expectativas para o futuro e o mercado brasileiro. Andrew Morton foi claro ao falar sobre seus reais motivos para trabalhar com Linux “Quero que na minha lápide esteja escrito ‘Ele foi útil’. E eu me sinto útil para o mundo todo ajudando a manter o Kernel Linux…“. A partir daí, tiveram início as palestras propriamente ditas.

Show do Restart? Não, Linus causando

Interessante também notar a tietagem em volta do criador do Linux: em vários momentos uma multidão de fãs cercava Linus Torvalds, pedindo fotos, autógrafos, conselhos espirituais e afins. Ao se fechar na sala de imprensa, era visível o cansaço de Linus, mas ainda assim ele tentava responder a todas as perguntas de quem estivesse por perto.

"E se você puxar o cabelo para trás, vai ficar mais profissional, mas aí a calvície fica mais evidente..."

Sobre o resto do evento, percebo que tanto imprensa quanto os usuários e desenvolvedores parecem ter estacionado em 2002. Todos ainda tem as mesmas dúvidas e as mesmas filosofias de uma época diferente, em que o ódio pela Microsoft era o que dava o tom da comunidade. Enquanto palestrantes ressaltavam o uso do Linux e a portabilidade com diversos sistemas operacionais, algumas perguntas e comentários ainda tentavam fomentar alguma rixa. “Não temos nada contra a Microsoft, nós reportamos alguns bugs do SMB para eles e eles de vez em quando também nos ajudam com o Samba“, disse Jeremy Allison, encerrando sua palestra sobre “como fazer um produto com SAMBA”.

É impossível acompanhar todas as palestras e discussões em um evento como esse, mas é interessante notar como o discurso mudou, amadureceu. Se antes todo evento de Linux tinha uma certa militância ou ênfase em apresentar o Linux para leigos, a Linuxcon mostrou que já é possível fazer um evento sobre Software Livre sem envolvê-lo em ideologias e mantendo um nível técnico avançado.

  • http://melinka.net Francis Rosario

    O futuro do software livre são aplicativos pagos. Grande paradoxo.

    • http://guilhermemac.blogspot.com Guilherme Mac

      O futuro do software livre são os serviços pagos. Aplicativos pagos, ou mesmo hardware pagos, serão coisa do passado =]

  • http://cpddiario.blogportal.com.br BraMax

    O futuro do software livre são aplicativos pagos. Grande paradoxo. [2]

    Mas ainda bem que estamos amadurecendo. Se o Software Livre continuar nessa paranóia doentia de que nenhum software pode ser pago a coisa simplesmente não vai evoluir.

  • http://www.twitter.com/erickmagnus Erick

    Eu não digo nem aplicativos pagos, mas serviços pagos. Sempre foi e sempre será.

    Legal ver que a comunidade internacional está amadurecendo aos poucos. Falta a nossa comunidade aqui também amadurecer mais.

  • http://www.shopbox.com.br Alexandre

    Interessante notar que as pessoas ainda nao despertaram totalmente para a realidade da mobilidade. Outra coisa é que a imprensa (e usuarios e comentaristas do TB :P) fomenta e adora essa rixas de apple vs microsoft vs linus

  • eduardo

    Softwares livres podem ser pagos só para lembrar.

    • http://melinka.net Francis Rosario

      Sim, podem.

      Mas é irônico já que a comunidade costuma justificar o uso do software livre por ele ser gratuito.

    • http://www.terabitcast.com Hernani

      E a ironia da história?

  • http://graveheart.me/ Paulo Graveheart

    livre != gratuito. Livre é ter acesso ao código-fonte do aplicativo, é poder alterar o fonte e reutilizar o código em outros projetos.

    Eu posso cobrar pelo meu software livre. Ou posso cobrar pelos serviços vinculados ao software livre.

    é uma confusão comum, mas ruim para os negócios. Leiam um texto sobre dicas de migração, você verão como isso pode ser ruim. ;)

    • http://twitter.com/rodbzro @rodbzro

      Software livre e software de código aberto são coisas diferentes. Depende da licença, filosofia, etc. O software livre, segundo a Fundação do Software Livre (FSF), é também de código aberto, e usualmente gratuito. O software de código aberto usualmente é, também, livre e gratuito, mas isso não é regra.

      A distinção entre uma coisa e outra foi criada basicamente por desentendimentos entre vários desenvolvedores e o Richard Stallman, mas essa é uma longa, longa história…

  • http://twitter.com/rodbzro @rodbzro

    @Francis

    O futuro do software livre é, e sempre foi, você poder _escolher_ se quer utilizar um software pago ou não.

    @BraMax

    Seu comentário deixa claro que entende pouco sobre software livre. O Linus Torvalds e vários outros membros da comunidade (acredito que sejam a maioria) seguem filosofias diferentes. Não existe militância, paranóia, rixa com Microsoft, Apple, etc, apenas uma intenção: desenvolver um software que seja bom e gratuito, para que todos possam se beneficiar dele e, se desejarem, contribuir futuramente para melhorá-lo ainda mais.

    Muita gente acredita que _todos_ os desenvolvedores de software livre são membros da Fundação do Software Livre, criada por Richard Stallman (que também criou a licença GPL). Ele sim é um grande paranóico pois incentiva as pessoas a boicotarem empresas, etc. No mundo do software livre, usualmente quem segue as filosofias do Stallman é visto como “xiita”, terrorista e, claro, idiota. Se você pesquisar vai descobrir que a licença GPL é uma das mais restritivas para o software livre. Ela basicamente diz que você pode usar o software gratuitamente, mas se modificá-lo e for distribuir/vender é _obrigado_ a liberar _todo_ o código fonte modificado junto. Isso afasta um bocado de empresas que até desejariam contribuir, mas apenas com _partes_ do código que modificaram.

    Para isso existem licenças de software livre que são muito mais liberais, por exemplo as licenças BSD e MIT, que resumidamente dizem: “faça o que quiser, de verdade”. Então as empresas podem pegar todo o código, usar para o que bem entender, e sequer precisam dizer “obrigado” a quem copiaram. O Stallman não concorda com isso porque vê como “roubo ideológico”, ou seja, ele quer crédito pelo que fez, não apenas “ajudar o próximo”. Aliás, foi isso que o Steve Jobs fez, pegou o código do FreeBSD, sob licença BSD, modificou e transformou no MacOS X, sem contribuir com nada para o projeto FreeBSD em retorno (mas ele contratou um dos criadores do projeto, que hoje deve estar bem confortável financeiramente).

    @Erick

    Algumas empresas (Google?) parecem estar demonstrando há alguns anos que você está errado, pois estão oferecendo serviços bons e gratuitos.

    Quanto ao amadurecimento da comunidade, não há realmente muita diferença entre a internacional e nacional. Existem tantos “trolls” lá quanto aqui, e pessoas interessadas também, claro.

  • http://www.culturadigital.br/ibanez/ Ibanez

    “Mas ainda bem que estamos amadurecendo. Se o Software Livre continuar nessa paranóia doentia de que nenhum software pode ser pago a coisa simplesmente não vai evoluir.”[2]
    O que foi dito, para quem não entendeu e votou negativamente: Ser SOMENTE livre, não que vai deixar de ser livre. Se isso não mudar vai continuar sendo um sistema para alunos estudarem, ou para ser usado em servidores, olhem a história do linux e suas distros.
    Sou a favor de mesclar as coisas também, livre e pago, quem não concorda apresente argumentos, ou então desenvolva sua distro desktop em pés de igualdade a softwares pagos e TOTALMENTE LIVRE/LEGAL!

  • http://guilhermemac.blogspot.com Guilherme Mac

    O futuro não está em software ou em hardware pago, mas sim em serviços pagos.

  • http://www.usuarioblogueiro.com Bruno Gall

    Todo mundo decidiu fazer reunião agora?

  • http://www.henriquepicanco.com Henrique Picanço (@henriquepicanco)

    Adorei ler sobre a Linuxcon, apesar desse nome me remeter a uma empresa muito diferente que tem sofrido com notícias sobre suicidios em suas depedências, mais isso é outra história…

    Sobre o Linux, o Linus está certo: Linux não quer dominar o mundo, quer apenas fazer o melhor SO, e esse está conseguindo, isso que é o melhor…

  • kylefurtado

    Eu acredito que o futuro seja o software livre. Afinal um pouco de amadorismo no profissional sempre faz bem.

  • JoseRenan

    eu nem lembrei q o linuxcon era hoje :(
    estou ajudando o SL usando-o e não me importo de ter que pagar softwares se um dia for assim (provavelmente nunca será)

  • http://www.twitter.com/GuiReisBH Guilherme Reis

    Eu não vou me relacionar aos comentários, porque acho que não é o ponto. Eu gostaria de um link com um resumo mais completo da Linuxcon, pois não pude comparecer. Se alguém tiver, me manda no twitter.

    Eu acho que o Linux vem apontando tendências no mundo, no que se diz a Software Livre. A ideologia de que é mais importante compartilhar o conhecimento está tomando a frente dessa briga besta com a Microsoft. Nunca gostei dessas intrigas entre as produtoras de softwares e sistemas. Todos saem perdendo.

    Achei muito digno que a Linuxcon tenha evoluído para uma conferência mais madura e voltada para a mobilidade que acredito ser a grande chave para o futuro da informática.

  • Smess

    “Eu não quero que o Linux domine o mundo, quero que o Linux seja o melhor sistema operacional que existe.”

    Sem duvidas, sonho realizado!!! O Linux ja é o melhor S.O. que existe.

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