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Início » Jogos » Quando um jogo de videogame ganha o mundo real

A indústria dos games está atualmente consolidada como uma indústria de poder e influência singular. É curioso pensar que todo esse mercado sequer existia 50 anos atrás (para parâmetros de comparação, a cinematografia é um colosso do entretenimento, mas existe há mais de cem anos), mas já tem o poder de gerar 400 milhões de dólares em 24 horas do lançamento de um game.

Isso é uma cifra absurda para um período tão curto; até mesmo os super mega blockbuster americanos (um bom parâmetro de comparação no critério de arrecadação em massa em curto período de tempo) dificilmente rendem um décimo disso no primeiro fim de semana de exibição. Sim, ingressos de cinema custam bem menos, mas isso não muda a equação: games são uma empreitada extremamente lucrativa.

Um efeito interessante dessa massificação do hobby é que eles tem o potencial de “vazar” pro mundo real de forma curiosa. Um dos melhores exemplos disso é o game Angry Birds.

Angry Birds foi um dos primeiros e mais significativos sucessos da nova safra de joguinhos portáteis casuais. O jogo saiu há quase três anos (sim, acredite) e de lá pra cá o sucesso permitiu que ele estourasse no “mundo real” numa avalanche de merchandising.

É possível encontrar quase qualquer coisa com estampas dos passarinhos titulares: capas para celular, lancheiras, brincos, camisetas, pulseiras, bolsas, bonecos de pelúcia… Há uma miríade de produtos, e uma quantia ainda maior se você considerar as produções chinesas sem licença oficial. Fala-se até de um filme em breve.

Mas o que há de tão especial nisso? Afinal de contas, Angry Birds não é o único jogo a gerar brinquedinhos oficiais. Eu devo saber bem disso, afinal, sou colecionador de tudo quanto é parafernália relacionada ao Mario. Botou a cara do encanador italiano japonês, eu tou comprando.

Mas há uma pequena diferença. O merchandising do Mario (e da nostalgia gamer como um todo) é um fenômeno recente em comparação com o material origem. Mario existe há décadas, mas só nos últimos anos o potencial de merchandising da franquia explodiu.

Angry Birds, por outro lado, começou a produzir receita com produtos além dos games relativamente rápido. E tem outra coisa.

A imagem acima é do jogo de “tabuleiro” de Angry Birds, com subtítulo “Knock On Wood“. Ele vem com todos os elementos do app do seu celular: uma catapulta em formato de estilingue (que reproduz o sonzinho característico do elástico sendo esticado quando ativada), passarinhos raivosos, tábuas de madeira e os porquinhos verde.

Isso vai além de simplesmente estampar a iconografia do game em camisetas ou briquedinhos chineses com qualidade de brinde de McLanche Feliz; o que temos aqui é uma simulação física do joguinho eletrônico. Considerando o fato de que a versão “tátil” (digamos assim) custa quinze vezes o valor do game de verdade, e que é uma representação bem pobre do gameplay que transformou Angry Birds numa franquia multimilionária, devo concluir que os consumidores deste produto o compraram simplesmente pelo apelo à marca.

Essa conversão de versão digital para versão física é extremamente rara. Vemos com mais frequência o caminho oposto: games “físicos” ganhando versões digitais. Games de tabuleiro consagrados como Carcassonne ou Ticket to Ride percorreram a contra-mão desse fenômeno, saindo do mundo tangível pra tela do seu tablet. Eu imagino que seja bem mais fácil, aliás: desenvolver a versão digital de um jogo de tabuleiro me parece um processo mais simples do que implementar no mundo real os mecanismos de gameplay de um jogo que é em essência um puzzler físico.

Talvez por isso o gameplay (se podemos dizer isso) de Angry Birds: Knock On Wood seja bastante simplório. O comprador em potencial não está realmente esperando nada do game além de meramente satisfazer no nível “olha, é um jogo de tabuleiro de Angry Birds!”.

Aliás, o meu venerado Mario produziu algo semelhante. Lembra dos saudosos autoramas? Bem, a Nintendo lembra, porque existe diversas versões de autoramas com tema de Mario Kart.

 

O único motivo pelo qual (ainda) não comprei tal brinquedo é porque sei que meu ímpeto “nossa senhora é um brinquedinho do Mario!” dura só até tira-lo da caixa pela primeira vez. Se for um colecionável, tudo bem: vai pra minha estante e fica lá bonitinho. Um brinquedo mais “funcional” como esse autorama, entretanto, seria ligado uma ou duas vezes e, por não caber na minha vitrine, iria para o armário acumular poeira.

Sabe como sei disso? Porque eu comprei aquele Banco Imobiliário com tema de Mario. Abri a caixa exatamente uma vez, perdi algumas pecinhas quase imediatamente (“olha que bacana uma delas é um controle de Nintendinho opa caiu perdeu”) e nunca mais olhei para o jogo. Lição aprendida: se não for algo colecionável e que fique bonitinho numa prateleira, não compre.

Um outro exemplo aconteceu nesta última semana. No ano passado surgiu na AppStore um trading card game chamado Shadow Era. Já resenhei o game aqui no TB.

No auge da empolgação com o novo jogo, boa parte da comunidade de jogadores começou a fantasiar: “e se fizessem a versão real do jogo, com cartas de verdade?!”. O pessoal mais pé no chão jogou um balde de água fria nos mais empolgados, raciocinando que os custos de produzir, lançar e distribuir um card game físico excendem em muito a cifra necessária pra desenvolver o game digital equivalente. O ônus de produzir um TCG com cartas de verdade ultrapassa e muito a capacidade de uma softhouse independente e desconhecida.

Nos quarenta e quatro minutos do segundo tempo do ano passado, entretanto, a comunidade de fãs do jogo foi surpreendida com a notícia de que o game eletrônico estaria em breve se transformando num card game “de verdade”.


(Vídeo do YouTube)

Sendo o estúdio que produziu o game uma organização pequena e independente, o método utilizado pra levantar verba pra produção do game foi o crowdsourcing: os fãs do jogo podem fazer a pré-compra das cartas, e o dinheiro arrecadado deste modo vai para a produção delas.

O apoio dos fãs foi surpreendente; dentro de poucos dias, o alvo de 20 mil dólares foi ultrapassado. E o card game que nasceu nas telinhas de celulares, assim como Angry Birds, ganhará uma versão física.

Eu gostaria de ver isso acontecendo mais frequentemente. Evidentemente, nem todo game pode ser traduzido pra versões com tabuleiro, dados e cartas (Modern Warfare no estilo de Jogo da Vida, no entanto, é uma ideia intrigante…). Por outro lado, o fanboy em mim abriria a carteira sem pensar duas vezes pra adquirir uma adaptação desse tipo.

Que jogo você gostaria que produzisse versão “físicas”?

25 Comentários (Deixe o seu!)

  • @mos_axz
    1069c

    Eu não sabia disso de Shadow Era. Vou querer um Deck do Zaladar, depois vejo como será a compra…

  • Yangm
    1c

    Grand Theft Auto na vida real. :D

    • Rodrigo Soncin
      423c

      Isso já existe, e normalmente não queremos jogar…

      • eltiene
        35c

        KKKKKKKKKKKKKKK, todos os dias vejo noticia na televisão dos cara brincando de simular GTA tragico kk

        • Yangm
          1c

          Televisão? Too mainstream. As únicas notícias que eu vejo são do tecnoblog e Netflix na TV. (=

          • eltiene
            35c

            rsrs, Boa, agente ta igual aos pedestres indefesos do GTA(tirando as velhinhas armadas ate os dentes KKK)

  • eltiene
    35c

    fico imaginando esse joguinho do angry bird fisico KKKK

  • Darox

    Muito bom texto,quem passa os jogos pro mundo real, acho que devem nadar no dinheiro.Minecraft versão física tem uns por aí.

  • Diones Reis

    Hey Izzy, deixa de ser desatualizado!
    “Modern Warfare” teve versão na vida real, lá no Rio de Janeiro, no ano passado.
    :-D

  • Eu gostaria de um GTA =’)

    • Esse tem todo dia, só ligar no Datena.

  • MPCOLLA

    Gears of War, Senhor dos aneis (q é filme e depois jogo) tb tem versoes de tabuleiro muito legais…. com os bonequinhos em miniaturas perfeitas..

    • Que é livro, depois filme, depois jogo… Mas deve ser bem interessante. Já ouvi falar, mas ainda não vi.

  • Não concordo com a opinião sobre o Angry Birds. Por ser o primeiro, quase um protótipo, é um jogo mto bacana, bem construido e com uma idéia legal. Ponto para Mattel.

  • Ótimo texto izzy, falando de um jogo que poderia ir para a versão “física” eu acho que God of War em um tabuleiro 3D (parecido com aqueles livros), seria bacana. Imagina, uma blades of chaos deliberadamente encravada no meio do tabuleiro, que foda.

  • Skyrim versão física ia ser massa demais!

  • Pierre

    Eu tinha deixado seu post sobre o shadow era marcado como favorito no greader, pra poder ver quando tivesse tempo, lá ele ficou por muito tempo, até semana passada, quando experimentei o jogo e me viciei.
    Adoraria comprar as cartas físicas agora, mas não teria com quem jogar ):

  • TatoGomes
    448c

    Como moro em um sobrado com quintal, acho que vou improvisar um Fruit Ninja lá.

    Eu fico no quintal com aquele facão de cortar carne e alguém vai jogando as frutas lá de cima.

    Por questões de segurança, a versão adaptada não terá bombas. =D

    • Murdock
      188c

      Outro dia vi um vídeo Adam Savage, do Mithbusters, fazendo isso.

  • Tem esse autorama de levitação quântica (!) inspirado em Wipe Out http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Zqmdv5iyIOY

    • Muito show esse projeto aí. Só falta fazer maior, com velocidades enormes, etc =P

  • Quando sair Pokémon pra vida real, vocês me avisem. O resto é gimmick.

  • Murdock
    188c

    Existem versões de tabuleiro para Civilization, é um monstro: http://redomanet.blogspot.com/2011/09/analise-civilization-v-boardgame.html

  • Esse cara jogou GTA na vida real.
    http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2012/01/justica-decreta-prisao-de-empresario-suspeito-de-causar-acidentes-em-sp.html

  • Adorei seu post ! Os jogos são de mais….bjo !

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