Internet móvel 3G e netbooks possuem muitas semelhanças. Nas alegrias e nos desgostos.

Para começar, são as duas tecnologias que brilharam no Brasil em 2009. A aquisição de aparelhos e modems 3G não pára de crescer. Em setembro, a Cisco relatou, em pesquisa, um aumento de 34% nas conexões móveis em relação ao semestre anterior. Ao contrário do que muitos imaginam, hoje 76% das conexões móveis são para uso pessoal, residencial, contra 23% do setor corporativo.

O fenômeno brasileiro é sui generis. Com a banda larga móvel, nem sempre é pura mobilidade o que os brasileiros buscam. O serviço veio a preencher uma lacuna de mercado, compensando as deficiências de território da banda larga fixa convencional. Apesar de terem cumprido suas metas com a Anatel, as operadoras ainda mostram enormes falhas de distribuição, baixa concorrência e preços elevados, dificultando a homogeneidade da inclusão digital por todas as regiões do país. Nesse ínterim, o 3G levou a internet de maneira mais democrática a pessoas até então desplugadas não por opção, mas por falta de disponibilidade.

Nossa adoção é representativa, mas ainda falta muita coisa. Se considerarmos nossos vizinhos da América Latina, então, os números são até vergonhosos. Apanhamos feio de argentinos e chilenos no acesso à informação e educação pelo meio digital.

Os netbooks trilharam um caminho parecido. Esses laptops super pequenos, leves, e de baixo poder de processamento, foram a salvação de grandes empresas de TI em tempos de crise. Crise, aliás, pouco refletida no Brasil em termos de vendas de terminais.

Enquanto em muitos países os netbooks se tornaram uma excelente opção como segunda máquina de profissionais móveis, estudantes e viajantes, no Brasil eles ganharam visibilidade maior na classe C. Foram vistos como opção para o primeiro computador de muita gente. O baixo custo é o principal atrativo, que, por sua vez, puxou para cima também a venda de modems para internet móvel. Pessoas até então restritas ao acesso web no trabalho, escolas ou terminais públicos, passaram a contar com seu próprio dispositivo.

Quando a lua-de-mel acaba…

Não é segredo algum que os serviços 3G estão muito aquém das expectativas em termos de qualidade.

Campeãs de queixas em entidades de defesa do consumidor, as operadoras ainda não nos deram explicações ou compensações pelos serviços ruins prestados. Os preços não caíram (ao contrário, em média aumentaram desde o advento dos primeiros planos de internet móvel do mercado em 2005) e o pós-venda continua ineficiente, mesmo após o vigor da lei do callcenter. Se servir de consolo, as operadoras também amargam altas taxas de insatisfação na Europa e EUA. A diferença é que há competitividade, e nesses lugares, as pessoas não pagam tanto quanto aqui. Temos a internet mais cara do planeta.

Os netbooks, mais uma vez, compartilham semelhanças. Uma pesquisa recente divulgada nos EUA há alguns meses mostrou que apenas 58% das pessoas que compraram esses portáteis mostraram-se satisfeitas com o desempenho dos equipamentos.

O barateamento dos netbooks atrai, muitas vezes, o público errado a esses equipamentos. Não temos números oficiais, mas é bem provável que o mesmo descontentamento esteja ocorrendo no Brasil, já que as limitações técnicas dos aparelhos parece ser simplesmente ignorada pelo comércio. Grandes varejistas vendem netbooks de marcas populares, como os da Positivo, a preços muito atraentes, mas os anunciam simplesmente como “notebooks”.

Tenho tido cada vez mais contato com pessoas que se dizem insatisfeitas e até lesadas com esse tipo de portátil. Mesmo geeks que se empolgaram com a novidade num primeiro momento esfriaram, ainda que esses mini-laptops estejam ganhando hardware mais poderoso.

Não é raro ver consumidores abandonando desktops ao comprar netbooks, um erro terrível. Infelizmente, esses mini-laptops não foram feito para atividades que exijam mais memória e processamento. A maioria sequer possui leitores óticos para CDs ou DVDs, mostrando claramente que seu objetivo é outro. Como o nome diz, “netbook” serve para proporcionar maior liberdade e mobilidade no acesso à web: páginas da internet, emails, serviços online. Em boa parte desses dispositivos, música e vídeo devem passar longe, já que com 4, 8 ou 16 GB de armazenamento quase nada pode ser feito. Os processadores e memória mais exíguos também limitam o uso de vários programas simultâneos.

Netbooks nasceram, como dito anteriormente, como um dispositivo a mais para usuários que demandam muita mobilidade. Cabem em qualquer bolsa, despistam gatunos, são versáteis nas interfaces de acesso à internet e possibilitam mais conforto de tela e teclado para aqueles que querem um pouco além de seus smartphones.

É irônico que os dois ícones digitais do país em 2009 possuam, ao mesmo tempo, percepções semelhantes em termos de adesão ou descontentamento. O que foi responsável por isso? Pouca informação? Publicidade enganosa? Falta de rigor de entidades que deveriam fiscalizar a prestação de serviços? É bem provável que seja um pouco desses três itens, já que, assim como o 3G e o netbook, eles também são fenômenos tipicamente brasileiros.

Se eu pudesse escolher um objeto, qualquer um, que representasse o povo brasileiro na sua essência, este seria o aparelho de televisão. Embora TV seja praticamente um commodity mundial, no Brasil ela tem particularidades tão próprias que acabou se tornando objeto de estudo de diversos pesquisadores de tudo quanto é país.

O brasileiro ama TV. Muitas vezes ele não tem nem geladeira, mas a TV está presente. E quase sempre ligada. O IBGE atesta que 98% dos domicílios deste país tropical e ensolarado possuem TV, mas geladeira, são 92%. Eu já vi moradores de rua que montam barracos de lona e papelão sob viadutos, equipando-os com colchão, fogareiro e… TV. Devidamente ligada através de um gato ao poste de luz mais próximo. Ah, o gato. Outro símbolo nacional – mas este fica para outro post.

Nos anos 70 os militares empreenderam uma bem-sucedidada campanha para que a TV estivesse em todos os nossos lares, a fim de “levar o conhecimento e promover a integração nacional”. Intenções escusas à parte, deu certo.

Semana passada completamos 2 anos de TV digital no Brasil. Depois de um grande estardalhaço na estréia, a empolgação foi esfriando, como bem sabemos, devido à demora dos aclamados recursos de interatividade, do equipamento, dos preços, da cobertura tímida. E o povão continua confuso, sem entender do que realmente se trata. Muitos acham que é o mesmo que TV a cabo. Os preços assustadores dos aparelhos contribuem para elitizá-la ainda mais. Talvez o governo não tenha explicado o suficiente que bicho é esse. Ou explicou mal: quantos dos nossos milhões de brasileiros classe C, D e E poderiam assistir sua novela, seu jogo de futebol ou programa de auditório numa TV com resolução full HD, com menus interativos e acesso à internet? Ah, sim, tem a caixinha conversora (onde?) a preços módicos, mas quem a usaria para ligá-la na sua TV de tubo de 20 polegadas?

Menciono a TV de tubo porque, enquanto estava na fila do caixa de um grande varejista há 2 semanas, vi um casal de idosos com a caixa de uma TV dessas, de 20 polegadas, no carrinho. Foi aí que parei para pensar se TV digital faz mesmo falta para o grosso do povão. Puxando papo para aplacar a longa espera, soube que a nova aquisição confortaria a simpática dona de casa, que poderia agora ver sua novela em paz enquanto os membros jovens da família não mais brigariam por esportes ou filmes.

É isso. Reclama-se que o brasileiro não lê, não vai a teatro, museus, cinemas e parques. Falta dinheiro para livros, teatro e cinema, e falta disposição para o lazer barato de qualidade, às vezes longe demais das periferias. Que pai levaria seus filhos a uma biblioteca, parque ou museu do outro lado da cidade, exausto que está de trabalhar incansavelmente e ainda passar horas dentro da condução, todos os dias? A TV, contudo, está sempre ali, dentro de casa. É conforto, companhia, fantasia, diversão, válvula de escape. De graça e sempre presente.

Você vai assistir a Copa do Mundo de 2010 em seu dispositivo móvel?

Na tela grande a TV digital vai devagar por todos os motivos que esboçamos acima. Mas nos dispositivos móveis, tudo deveria ser mais fácil e barato, não? Quem se habilita a ver TV numa diminuta telinha de celular ao invés de um confortável aparelho convencional tem razões bem claras. São os trabalhadores que passam 3 horas por dia no transporte coletivo; guardas, vigilantes, porteiros, plantonistas. Temos uma legião de brasileiros que se enquadram nessas categorias.

Samsung e LG apresentaram seus celulares com TV digital que estão há um tempinho à venda. Há poucas semanas, a Nokia anunciou um módulo bluetooth para conectar vários de seus modelos à TV digital. Não há muitos detalhes do funcionamento desse acessório ainda. A impressão que eu tenho é que ele está tão incompleto quanto a própria TV digital brasileira. Vai dar para gravar programas ou trechos deles? E interatividade, vai rolar? Sim, sabe-se que ele será compatível com o Ginga, o sistema que vai comandar nossa nova TV. Mas cadê o Ginga?

E para o povão, que diferença vai fazer esse Ginga, afinal?

Nesse ínterim, os celulares xing-ling com TV analógica continuam fazendo o maior sucesso nos camelôs e centros comerciais populares. E é aí que TV convencional e TV móvel se cruzam no universo C-D-E. Não importa a qualidade, não importa esse negócio de interatividade. O aparelho só tem que ser barato e funcionar. No Brasil, convergência não tem nada a ver com integração de ferramentas. É, pura e simplesmente, a comodidade de ter um sinal de televisão num aparelho que todo mundo já leva no bolso todo dia: o celular. Pré-pago, lógico.

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Ao planejar a compra de um novo dispostivo móvel, como um celular ou smartphone, o que você considera? Características técnicas? Design? Reputação da marca no mercado? Planos de serviços vinculados com operadoras? Feedback de outros usuários? Ou um pouco de tudo?

Pois é, são os itens acima que 99% das pessoas levam em conta na aquisição de um aparelho. Contudo, se você está nessa situação, trate de colocar mais um item na sua lista: loja de aplicativos.

Quando alguém decide comprar um celular pensando na personalização, pelas ferramentas de trabalho e lazer, antes de avaliar operadoras, design, características técnicas e promoções, deve pesquisar se os aplicativos para o sistema operacional escolhido suprirão as necessidades. E as políticas das lojas onde eles são vendidos.

O sucesso do modelo da Apple abriu os olhos da indústria, que enxergou novo filão. Hoje, especialistas já chamam os aparelhos que permitem a instalação de aplicativos ou widgets de “app-phones”.

As principais lojas de aplicativos que funcionam no próprio aparelho são…

AppStore - A quantidade de aplicativos na loja da Apple já alcançou a casa das centenas de milhares. É verdade que há muita coisa inútil, mesmo assim não há nada que não se encontre atualmente. Há ferramentas de escritório e produtividade, entretenimento, utilitários, jogos e redes sociais. Boa parte é gratuita. Chama a atenção também a quantidade e variedade de aplicativos médicos, atraindo a simpatia dos profissionais de saúde. A preocupação do consumidor deve ser com a forma desses programas funcionarem. Se você não se preocupar com a falta de multitarefa, a ausência de alarmes, o push não convencional e as restrições com VoIP e streaming, é uma ótima opção para iniciantes em tecnologia móvel. Vale lembrar que, de forma legal, não é possível adquirir programas fora da própria loja da Apple. No Brasil não é possível a compra de música.

Ovi Store – É a loja de aplicativos para os donos de Nokia / Symbian S60. No início a variedade de aplicativos era bem pequena, mas aos poucos o catálogo está aumentando. Todavia, a loja não é a única fonte para turbinar seu aparelho com programas. O Symbian é uma plataforma que está no mercado há um bom tempo, portanto, a quantidade de soluções disponíveis é, na verdade, imensa. Pode-se baixá-los de sites de desenvolvedores, de outras lojas, de fórums de usuários, e muito mais. A impossibilidade de se fazer “redownloads” foi recentemente abolida, um alívio para quem comprou aplicativos na loja e teve que resetar o celular. Para quem gosta de música, é possível baixá-las no próprio aparelho, nos moldes na iTunes, pelo Comes With Music – única iniciativa comercial do gênero no Brasil hoje. Porém só funciona em alguns aparelhos pré-selecionados.

Blackberry App World – Até pouco tempo atrás, o ponto fraco do sistema da RIM era a fraca variedade de aplicativos para instalar no aparelho. A grande maioria era de ferramentas de trabalho e corporativas. As opções aumentaram bastante de uns tempos pra cá, mas o foco maior ainda é corporativo. Também era motivo de queixas o alto preço desses programas: às vezes, programas com o mesmo nome e mesmo desenvolvedor custavam até 3x mais que as versões para outros sistemas operacionais. Com a loja online no aparelho, a RIM pretende trazer soluções financeiramente mais acessíveis e promover a inserção de soluções para o usuário final comum, público que a empresa também quer conquistar. Assim, estão surgindo muitos apps de multimídia, como rádios online, e redes sociais. A opção de se comprar fora da loja continua presente.

Windows Marketplace – A loja de aplicativos para Windows Mobile, que ainda está engatinhando, é uma boa opção para desmistificar a idéia de que o sistema operacional é complicado para leigos. Não posso culpar os usuários queixantes: há várias e confusas maneiras de se instalar os programas em Windows Mobile: através de instaladores .exe pelo PC; através de .cab baixados da web (pelo PC ou no próprio aparelho), que, no fundo, também são apenas instaladores: é preciso abrir o .cab dentro do aparelho para proceder à instalação. Não é incomum ver gente confusa tentando rodar .exe dentro dos aparelhos. Para piorar, os aplicativos para touchscreen não funcionam nos não-touchscreen, embora tenham as mesma extensões e nomes. Todavia, quem não tem medo de correr atrás vai achar muita coisa de graça na internet – Windows Mobile é hoje uma plataforma madura, com uma quantidade imensa de aplicativos que fazem de tudo, pois não há restrições técnicas para os desenvolvedores, nem nas funcionalidades dos aparelhos.

Android Market – Em termos de quantidade e qualidade de alicativos, o “caçula” dos sistemas de smartphones é o único que está em ritmo de crescimento comparável ao do iPhone no início. Curiosamente, a essência dos aplicativos é a mesma – utilitários, web e redes sociais. Não é à toa que apps bem sucedidos no iPhone já ganharam versões para Android. A franca expansão deve-se em boa parte à tecnologia e respeitabilidade do Google, criador do sistema, que logo deve lançar um sistema operacional para computadores também. Ainda não há uma versão da loja para o Brasil, podendo-se baixar apenas programas gratuitos e com autorização para funcionar em todo o mundo. Mas pode-se comprá-los direto dos sites dos desenvolvedores, baixando e instalando no dispositivo via PC. Uma coisa que gosto muito: antes de baixar o aplicativo, é mostrado quais funções do aparelho ele acessa – como internet, serviços de localização e telefone. (veja foto no início do post)

O que vem por aí…

Lojas de fabricantes de celular – A Samsung já avisou que vai criar um sistema de compras de aplicativos para suas linhas de celulares. Até já anunciou um novo sistema operacional open-source para embarcar exclusivamente em seus aparelhos. Assim, estende-se a moda dos “app-phones” para além dos smartphones de sistemas operacionais tradicionais. Motorola e outras fabricantes também estudam fazer o mesmo.

Lojas de operadoras de telefonia móvel – As telecoms também já enxergaram o filão. O modelo de compra de ringtones, papel de parede, jogos, músicas e vídeos direto do celular é extremamente lucrativo no país. Por que não trazê-lo também para aplicativos, widgets e redes sociais, em qualquer celular? Os chamados “featurephones” são os celulares comuns com funções de câmera ou MP3, hoje a maioria em uso no Brasil. Além de aproveitar a febre das redes sociais, a compra direta através de créditos dos pré-pagos (80% das linhas ativas) pode se revelar uma mina de ouro, seja na aquisição de programas quanto no uso de internet móvel.

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Recentemente escrevi, na revista Mac+, uma crítica à Apple e ao modelo de comércio praticado na sua loja de aplicativos, a AppStore, indiscutivelmente uma das iniciativas mais bem sucedidas no mundo da tecnologia móvel. Lógico que ganhei uma coleção de críticas (e alguns elogios), as mais comuns dizendo coisas do gênero “se não gosta da Apple não usa, ué!”

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Vocês estão acostumados a ler, aqui no Tecnoblog, artigos em que falo de cybercultura e a convergência de hábitos do passado com os do presente. Gosto tanto disso que vocês são brindados com alguns rabiscos meus, alguns meio borradões, feitos à mão, com papel, lápis e tinta. E depois escaneados, algo bem anos 90, para não perdermos o vínculo cultural com décadas anteriores.

Hoje, contudo, tomarei emprestado alguns desenhos alheios. Na verdade, algumas gravuras feitas na França em 1910 e colocadas em exposição na Bibliotheque Nationale de France. O tema: “visões do ano 2000″. Há alguns acertos, muitos erros, alguns divertidíssimos:

ano-2000-2ano-2000-1O que mais se vê são pessoas voando, mas confesso que minha favorita é a máquina escolar onde se jogam livros que vão direto para as cabecinhas dos alunos (por áudio? osmose?). Muito revolucionário, ainda que a máquina seja… a manivela.

Há muito mais, vocês podem visualizá-los todos aqui.

Onde eu quero chegar com isso? Atualmente, vemos gurus e videntes de TI dando pitacos (alguns pagos a peso de ouro) sobre tecnologias do futuro, os sistemas que vão vingar e os que vão fracassar, e até como nos comunicaremos num futuro próximo.

Por mais sólidos que sejam os argumentos das Mães Dinás digitais, baseando-se em estatísticas, características técnicas e modelos de negócios, não gosto de ler tais colunas. Passo longe. Dos Apple-gurus, então, penduro até uma ferradura atrás da porta. Uma coisa é exercitar a imaginação, outra é fazer previsões – alguns têm tanta certeza que chega a ser claro que o sujeito engana até a si mesmo.

Ninguém se lembra ou procura saber o que na década de 90 se achava como seriam os anos 2000. No fim de cada ano, um pai-qualquer vai à TV fazer previsões, mas no fim de ano seguinte, ninguém mais se lembra do que ele disse, nem checou se os dados se concretizaram. Do mesmo modo que, quando está para sair alguma novidade da Apple, ninguém procura saber o que os gurus do presente palpitaram no passado.

No campo da tecnologia móvel, então, os gurus baseiam-se puramente em seus gostos (ou filosofias) pessoais para dizer qual presta e qual não presta. Isso quando não há algum interesse econômico por trás. Podem notar: sempre há aquela tecnologia ou produto do momento, que é imbatível. Ou aquela novidade, que chega atropelando, que até ontem ninguém sentia falta e, de repente, vira necessidade básica. Ou então, tecnologias sólidas, com seu nicho de mercado, com base de usuários estabelecida, mas que de repente é condenada à morte, simplesmente porque não agrada ao debatedor por princípios individuais.

Eu também embarquei na área da tecnologia móvel tendo minhas preferências, que sempre defendi e enalteci. Em dado momento, senti necessidade de ampliar meus horizontes e me desamarrar de preconceitos. Para tomar um exemplo, fui conhecendo as mais diversas plataformas de dispositivos móveis – Palm, Windows Mobile, Symbian, Blackberry, iPhone, e mais recentemente Android. Antes de elogiar ou criticar cada uma, é preciso conhecê-las a fundo. Não digo abrir a tampa de um aparelho e esmiuçar seus chips, mas conhecer as pessoas que o utilizam, com que finalidade, e de que modo. Porque é para as pessoas que elas são feitas.

Assim, ao invés de declarar que tal plataforma não serve para nada, ou que aquela outra é a mais maravilhosa do mundo, confirmo que cada uma supre as necessidades de grupos específicos. Leva-se em conta os fins e as qualidades dos produtos, mas também a percepção pessoal de cada indivíduo, seu papel na sociedade e até fatores cognitivos ou físicos – como acuidade visual e coordenação motora.

O melhor de aprender mais e mais sobre cada plataforma móvel é que se conhece o quanto as pessoas são diferentes, o quanto uma mesma tecnologia pode trazer resultados tão diversos. E é isso que os gurus de TI não levam em conta ao dar seus palpites: as pessoas. Pessoas mudam, pessoas aprendem, pessoas amadurecem, pessoas envelhecem. Esse ambiente tão mutável nos impede de declarar sobre tecnologias perdedoras e vencedoras. Além disso, concorre a competência de cada empresa e a capacidade dela de levar a novidade adiante – elas também mudam, e muito rápido.

Falar de “tendências em TI” é como ser economista ou meteorogista. Você analisa possibilidades. Ingressar no campo das previsões, enaltecendo o sucesso de certas tecnologias em detrimento de outras, é puro exercício de futurologia. Prefiro que o tempo responda às nossas expectativas, e não um articulista com aura de vidente. Também prefiro ler um bom livro à coluna de horóscopo do jornal. E vocês?

bicho-bro-580x375Minha sala de estar tem uma daquelas enormes estantes com rack que, além de abrigar TV, som, DVD player, etc, tem aqueles espaços para guardar coleção de CDs e DVDs. Esses espaços já estavam lotados faz tempo, mas não é por isso que os deixei de usar. É que comprar CD e DVD tem se tornado coisa cada vez mais rara, salvo um ou outro box de seriado ou sequências de filmes – a maioria, ganhos de presente.

Mas olhar aquele amontoado de coisas estava me incomodando mais a cada dia. Além de juntar poeira, já que eles nunca saíam dos seus nichos, estavam interferindo na decoração da sala. Por mais arrumadinhos que estivessem, iam contra meu senso de “clean”. Um belo dia, numa tarde de domingo, tirei tudo de lá (com direito a máscara, por causa da asma) e no lugar coloquei uns poucos objetos de decoração, porta-retratos, etc. Numa casa onde não há tapetes nem cortinas (apenas persianas), tive a sensação que desalojei de vez os últimos ácaros que coabitavam meu lar.

Olhei o aparelho de som. Ele tem uns 20 anos de uso, mas continua em excelentes condições. Na época em que foi comprado, era um arroubo de ousadia não vir com toca-discos. No lugar, ele orgulhosamente trazia uma enorme gaveta com capacidade para 5 CDs, para ouvir “horas de música ininterrupta sem repetição”. O supra-sumo da modernidade! Intimamente, dei risada. Estava com medo de apertar o botão do carrossel de CDs e uma aranha pular de lá de dentro. Hoje, praticamente só uso a saída auxiliar, devidamente ligada no computador-mediacenter.

Enchi um armário com os DVDs e CDs. Achei algumas coisas que nem lembrava mais que tinha. Filmes velhíssimos da Bette Davis e um do Rodolfo Valentino. (alguém conhece?) Discos do Legião Urbana. Trabalhos audiovisuais da época da faculdade de rádio e TV. Edição de colecionador de “Cantando na Chuva”, com pôster e tudo – presente do marido ainda quando nos conhecíamos. Uma coletânea “10 anos (!) sem Vinícius de Moraes”. DVDs de Cidadão Kane, O Iluminado e Um Estranho no Ninho, que já separei para rever na primeira oportunidade. Um CD do Netinho. (desculpem… é que ô-milaaaaaaa era música tema da minha turma nos tempos da faculdade de odonto).

Aquela faxina se transformou numa viagem no tempo. Boa parte do que eu mais ouvia em MP3 hoje eram coisas que já havia ripado desses CDs há muito tempo. Conversei com o marido, que já pretendia comprar um Time Capsule de 2 TB. Ele também tem uma biblioteca de mídia ótica respeitável. Agora reforçamos os planos e já o colocamos no orçamento para daqui uns meses. Aos poucos, converteremos tudo para digital e, excetuando-se as peças de valor sentimental (tipo o CD do Netinho :) ), vamos nos desfazer de tudo. Talvez doando para alguma instituição ou biblioteca pública…

A idéia do Time Capsule é ter um super-roteador com armazenamento de sobra e, a partir de qualquer computador da casa, acessar todo o conteúdo que estiver lá. Além de servir de backup para nossas máquinas. Mas, muito mais do que isso, poderemos também viajar e acessar nossas coisas de qualquer lugar, via MobileMe.

Olho para o aparelho de som ligado ao mediacenter na sala e reflito o quanto as coisas mudaram em tão pouco tempo. Como tudo ficou mais fácil, instantâneo e também – por que não – descartável. Há 20 anos consumíamos bem menos mídia que hoje, mas selecionávamos melhor.

Atualmente, na minha sala, a única reminiscência visível do passado é o duplo-deck de fitas cassete do aparelho de som. Até isso se transformou num paradigma: esses tudo-em-um vendiam horrores, todo mundo copiava vinis ou duplicava fitas cassete, mas nenhuma gravadora reclamava disso, lembram?

É. Como o mundo mudou…

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A cena descrita a seguir é um flashback do fim dos anos 80, do qual recordo-me com detalhes: numa loja de discos na Av. Mal. Deodoro, no centro de Curitiba, eu me sentia radiante com um disco em mãos: a trilha sonora de Les Girls, filme com meu ídolo Gene Kelly. Era um disco de uma coleção de trilhas de filmes musicais da Metro dos anos 40 e 50, lançado nos EUA anos antes, mas que eu só tinha um exemplar em casa. Os demais jamais vieram para o Brasil, mesmo assim eu estava feliz em ter conseguido o segundo – ainda que pago uma nota preta, pois era importado.

Exatos 5 anos depois, quando fui à Disney, consegui comprar várias outras unidades da coleção que tanto ambicionei, e que estavam uma pechincha, pois já não eram mais novidade nos EUA. Fiz a festa com os duplos de An American In Paris e Singin’ in the Rain, entre outros.

Essas recordações vieram-me à tona em 2 momentos recentes: no season finale da 5a temporada de Lost e quando a Apple lançou mundialmente o sistema operacional Snow Leopard.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Bem, eu assisti o desfecho da 5a temporada de Lost cerca de uma semana depois dele ter chegado na iTunes Store e nos torrents. Até esse dia eu me considerava grande fã da série, daquelas que não agüenta de expectativa para saber o destino dos personagens que tanto gosta. Mas que não teria problemas em esperar alguns meses até que a temporada chegasse às lojas brasileiras, em DVD. Fiz isso na anterior, quando passei 1 ano e meio sem banda larga.

Até que tomei conhecimento de amigos meus que, naquele dia, ficaram de plantão durante a madrugada esperando alguém soltar o primeiro torrent. Nos EUA o seriado vai ao ar às 9 da noite (por volta das 23h ou meia-noite aqui, dependendo da região) mas a galera não dorme enquanto não baixar e assistir ao vídeo. Outros amigos, que não queriam esperar nem o torrent, pediam para que pessoas nos EUA colocassem o computador na frente da TV e transmitissem via webcam, pelo Ustream, o desejado capítulo final. Sim, a qualidade é péssima, mas e daí? Mais tarde se baixa e assiste outra vez, no momento a prioridade era saber como a temporada terminou. Passaram o dia seguinte como zumbis, mas a par da história.

No final do mês passado a Apple liberou o novo e badalado sistema operacional Snow Leopard, e aconteceu algo parecido. No Brasil ele chegaria um mês depois, mas não me preocupei com isso: afinal, muitos softwares para Mac precisariam de updates para funcionar bem no novo SO. Mas não foi o que aconteceu com muitos fãs de Mac, já que um site constatou que boa parte de seus leitores já o acessava a partir do novo sistema antes mesmo dele chegar oficialmente ao Brasil. É verdade que a Apple já melhorou muito em termos de agilidade e tivemos o Snow Leopard menos de um mês antes do lançamento oficial nos EUA, mas creio que isso não é suficiente.

Lição número 1: nos dias atuais, não se cogita menos que lançamento mundial simultâneo para software ou audiovisual. As empresas ainda escolhem datas de lançamento de produtos (ou não lançamento) por critérios territoriais. Não acordaram para se dar conta que não há fronteiras na internet. Os problemas são mais profundos que mera pirataria, como julgam.

Lição número 2: não sabemos mais esperar. Lógico que eu não gostaria de voltar aos anos 80 para aguardar uma viagem ao exterior (ou a boa vontade de um importador) para comprar um álbum ou filme. Mas a mesa virou: caminhamos ao outro extremo, e quando somos obrigados a ficar 3 minutos numa fila para comprar sorvete, sofremos à angústia.

O tema da coluna dessa semana seria outro, mas senti a necessidade de fazer esse desabafo ao saber de amigos e colegas que estão diagnosticando sequelas do primeiro grande mal moderno: a ansiedade. Gente que mal fez 30 anos e já esta tomando remédio para hipertensão! Gente magra, que não fuma e vai à academia. O que está havendo com a “geração saúde”?

Resposta: excesso de trabalho, de compromissos, de cobranças. Tudo tem que ser rápido, de fácil digestão, para ontem, afinal, há mil outras coisas esperando para serem feitas. A luta é contra o relógio e a meta é produtividade. Não se vai mais em casa almoçar, como meus pais faziam quando eu era criança. Almoçávamos todos juntos em casa, todos os dias! Hoje não dá mais. Comida, tem que ser fast food. Relacionamentos amorosos, tem que ser ficar. Ler um livro para fazer um trabalho é absurdo: resumos são passados de mão em mão. Ou melhor, de caixa de entrada em caixa de entrada…

Minha geração (faço parte da X) sofreu muito com essa transição para o mundo online. Na época da escola, tínhamos uma semana para escrever uma redação. Íamos na biblioteca e ficávamos horas fazendo trabalhos. Hoje, nas pós-graduações, temos que pesquisar no Google e mandar o trabalho por email no dia seguinte! Tudo acontecendo tão rápido que não aprendemos a lidar com o excesso de informação. Temos que fazer cursos de administração do tempo e gestão do conhecimento.

E essa meninada, a geração Z, que já nesceu na correria? (ou como diz um amigo meu, não nasce, vem por download) Que tem agendas lotadas, como executivos? Chegam em casa, depois de fazer mil coisas durante o dia, e ainda sentam no computador e assistem vídeos, navegam em redes sociais, papeiam no MSN. Crianças de 12 anos passam em vestibulares (de faculdades meia-boca, é verdade) não porque são geniozinhos, mas porque são bem informadas!

Se meus contemporâneos, na casa dos 30, já vão ao cardiologista, a geração Z já vai a psiquiatras e ginecologistas. Sim, há cada vez mais crianças com depressão e meninas menstruando com 8 anos.

Se você tem filhos, faça um teste com eles: passar uma tarde inteira com caderno de cartografia, lápis de cor, papel de seda e atlas geográfico, desenhando e pintando o mapa do Brasil. Coisa que eu fazia como lição de casa na minha infância. Será que eles tem paciência para passar 15 minutos na frente dos cadernos, sem correr para o computador e imprimir o mapa via Google Earth para “ganhar tempo”?

A culpa não é da internet. A internet não é problema, é solução. Problema somos nós. Somos abelhas morrendo afogadas em potes de mel.

papai-amigo-betão
Sei que o título desse post parece engraçado e até meio absurdo, mas hoje em dia, além de ser bom profissional, estudar e atualizar-se sempre, ser um pai ou mãe exemplar, manter a casa um brinco, ser magro, elegante e saudável, ainda temos que domar com maestria nosso correio eletrônico. É muita pressão, não é mesmo?

Mas falando sério: segundo pesquisas, o tempo que os profissionais têm gasto gerenciando email tem chegado a absurdas 3 horas diárias. Minha observação, através de método empírico, não difere muito disso. É enorme o número de pessoas que passam o dia penduradas nos emails, estressadas, lutando para serem produtivas enquanto mensagens não param de chegar. E pior, quando vão pra casa, depois de se matar o dia todo na rua ou no escritório, o que é que elas vão fazer? É, acertou. Vida própria, cadê?

No último post falei do cara que eliminou o email de sua vida e enumerei inúmeras pragas modernas que alimentam nosso ódio ao correio eletrônico. Se você não pode se dar ao luxo de dar adeus à essa forma de comunicação, não adianta sentar, chorar e colecionar cabelos brancos. Basta um pouco de atitude e a criação de novos hábitos. Alguns um tanto doloridos. Mas se sua situação se tornou desesperadora, não tem jeito: ou você vence os emails ou você será vencido e escravizado! O que você prefere?

Selecionei algumas dicas para domar os emails e ter tempo para ser livre e fazer o que quiser, baseadas em minhas palestras dadas a empreendedores e executivos. A seguir:

1. Desligue a porcaria do notificador. Você trabalha com o programa de emails aberto o dia todo? É hora de mudar isso. A adrenalina que você descarrega ao longo do dia, ansioso, acompanhando as mensagens que chegam, mais o som do notificador que interrompe suas atividades e tiram sua concentração enlouquecem qualquer um. Lógico que o dia acaba e você vai para casa frustrado porque todas suas tarefas estão pendentes ou incompletas.

2. Determine períodos para checagem de emails. Não importa se serão 1, 2 ou 5 vezes ao dia. Devem ser pré-determinados.

3. Crie uma rotina de trabalho com emails. Seguindo a filosofia do inbox zero, tudo deve chegar diretamente na sua caixa de entrada. Primeiro, apague o spam e as bobagens. Segundo, responda imediatamente emails que demandam até 2 minutos. Terceiro, coloque numa pasta chamada “ação” coisas que demorarão mais tempo para ser resolvidas. Quarto, guarde em pastas específicas itens que você pode precisar no futuro. Limpou o inbox, feche tudo e vá fazer outra coisa.

4. Use um timer. Marque 15 minutos para se dedicar à checagem de emails nos períodos do dia que você escolheu. Você aprenderá a se disciplinar e evitará se dispersar com bobagens. Em pouco tempo você verá que 15 minutos é muito, e poderá usar 10 ou até 5 minutos para essa tarefa.

5. Dedique um período de até meia hora, no máximo, para cuidar da pasta “ação”. Nessas ocasiões, desligue a internet para que a entrada de itens novos não o distraia.

6. Apague o que for resolvido ou inútil. Sempre. Só guarde, nas devidas pastas, itens que podem ser necessários para referência futura. Sei que aplicativos como Gmail incentivam que não se apague nada, pois eles dão espaço de sobra. Houve um tempo em que nem o botão “delete” existia. Mas não é para facilitar sua vida. É para vasculhar os assuntos que permeiam sua vida e mandar propaganda com alta chance de ser clicada nos links patrocinados. Se você acha irrelevante ficar deletando coisas, pense comigo: você deixaria uma pilha enorme de papéis e lixo num canto da sua mesa, só porque seu escritório tem espaço sobrando?

7. Use um smartphone. Gerenciar emails num dispositivo móvel é bem diferente de um computador. Você não se sentirá tentado a abrir links bobos ou anexos inúteis – ou porque tela e interface são limitadores ou porque você não quer gastar seu valioso pacote de dados. Limpe seu inbox: apague as bobagens, responda imediatamente as urgências, arquive itens que achar necessários e guarde na pasta “ação” o que você tiver que resolver mais tarde, no seu computador. O bom do smartphone é que, ao invés dos 15 minutos do timer, você só gastará 5.

8. Não verifique emails antes das 10h da manhã. Primeiro, resolva a lista de tarefas que você preparou no dia anterior, depois faça a primeira checagem do dia. Quando a primeira coisa que se faz de manhã é ver emails, surgirão coisas novas que o dispersarão da lista de pendências importantes.

9. Tenha 3 contas de email: uma pessoal, uma de trabalho e uma terceira para usar em cadastros online e sites diversos. A maior parte do spam chegará nessa conta, que você só checará eventualmente.

10. Evite levar laptop nas viagens para descanso ou passeios com sua família. Mas se for realmente indispensável que você leve seu computador para algum trabalho, eis uma dica que aprendi com um grande empreendedor: deixe a fonte em casa. Com apenas a carga da bateria disponível, você aprenderá a trabalhar de forma racional e focada.

correio-desesperadoNão tem dias que você se odeia até à medula por ter que abrir seus emails? Em especial nessa segunda-feira modorrenta e cinza, parece o fim do mundo ser obrigado a sentar-se diante de um computador e encarar a caixa de entrada com itens acumulados desde sexta.

Não bastasse o volume de trabalho, pendências e cobranças que o seu inbox escancara, ainda há a difícil missão de separar o joio do trigo: selecionar o que realmente é importante no meio daquele amontoado de correntes, piadas, conversas sem sentido, links “imperdíveis” e PowerPoints “edificantes”. Uma vez que você ceda à tentação e abra um deles, sua manhã está condenada: quase na hora do almoço, tudo o que você fez foi ler 8 piadas, abrir 3 PowerPoints (um deles era de mulher pelada, ainda bem que a dona Neide ali do lado não viu), encaminhar um alerta da gripe suína para toda sua lista de contatos, procurar na web uma charge zoando o time do Nestor da contabilidade, em resposta à ofensa dele ao seu, e clicar num link do YouTube… onde você viu outro vídeo legal… e outro… e outro… Dali a pouco, o chefe surge na sua frente com cara de poucos amigos: “cadê o prospecto daquele cliente megaimportante que te pedi por email hoje cedo?”

Desse jeito, até o Dalai Lama odiaria ter que lidar com emails. Junte-se a disponibilidade das pessoas à sua imaturidade com a tecnologia e pronto, temos essa sopa de improdutividade servida diariamente, sempre quentinha, nos escritórios. O sucesso de livros de administração pessoal e sites de produtividade é um termômetro do nosso estado de baderna profissional!

Um desses sites de produtividade, o Zen Habits, publicou recentemente o post de seu fundador, Leo Babuta, falando exatamente sobre o que se transformou nossa vida administrando emails. Radical, porém, o autor declarou: “aboli email da minha vida!

Foi engraçado ver a reação das pessoas. Muitos compartilharam o arroubo de desprendimento, apoiando-o. Outros se mostraram céticos: será que isso vai dar certo? E teve alguns gatos pingados que, acreditem se quiser, tomaram aquilo quase como ofensa pessoal e disseram que o infeliz blogueiro vai arder nas chamas do inferno.

Minha opinião? Nem 8 nem 80. Como Leo Babuta ganha sua vida online, exclusivamente, talvez até seja bem sucedido no empreendimento. Leo preferiu manter canais alternativos de comunicação com seus leitores, clientes e colegas. Como instant messengers, VoIP e… Twitter.

Eu não consigo me imaginar pedindo para meus pacientes e clientes (mesmo na consultoria com tecnologia móvel) me contatarem pelo Twitter. Creio que 99% dos usuários de email mundo afora também não teriam como abolir o correio eletrônico de suas vidas. O caminho é: adotar uma política rigorosa de comunicação, eleger um sistema de gerenciamento e comprometer-se à ele, dedicando períodos pré-determinados para administrá-lo.

Eu leio meus emails diariamente via smartphone – exceto nos dias de descanso – e procuro resolver o que é importante ou urgente na hora. Não uso push, faço checagem manual mesmo, 2 ou 3 vezes ao dia. Cada checagem não dura mais que 1 minuto. E, no máximo, 2 minutos para cada mensagem que exige ação imediata. Ali mesmo, no smartphone. Fora isso, defini para mim mesma períodos de 30 minutos, 3 vezes na semana, para sentar na frente do computador e cuidar do restante. Semanalmente é assim: cerca de 200 emails exigindo algum tipo de ação por minha parte, isso depois de separar o spam, as newsletters e afins. Felizmente cheguei a um ponto em que estou domando meu inbox. Depois de muito tempo, tenho um sistema eficiente de antispam e tenho normas rígidas no manejo de mensagens, remetentes e anexos. Tudo no servidor. Mas assim que o meu site novo estiver no ar, a página de contato explicará direitinho às pessoas qual minha política no que concerne responder emails. O meu problema não é lê-los. Emails de leitores leio todos, sempre, e adoro. O problema é responder todo mundo. Adotei sistema parecido com minha conta no Twitter, para não me micro-afogar.

Se você tem o costume de atolar a caixa de entrada alheia com correntes, piadas, PowerPoints, coloque a mão na consciência e veja se você não é um dos culpados pela atitude extrema do colega Leo Babuta. Se você está cansado de receber emails inúteis de parentes e amigos, talvez esteja na hora de rever essa postura. Recomende esse texto a eles. Mas não em forma de corrente, faz favor. Muitos insistirão no envio de e-lixo, achando que suas correntes de “utilidade pública” são do bem. Bloqueie-os. Eles jamais entenderão que o mero fato de ser uma corrente já implica ser do mal. Quanto ao receio de colocar parentes na sua lista negra eletrônica, lembre-se: se a casa estiver pegando fogo, eles tem seu número de telefone.

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Cloud computing tem futuro?

Eu sou do tempo em que “nuvem” era apenas um lugar onde anjinhos dormiam e tocavam harpa. Hoje, “nuvem” é o lugar favorito da geração digital para guardar sua vida online. Quem dera essa “nuvem” de hoje fosse povoada por anjos. O que mais parece é que ela é habitada por diabinhos. Àquilo que as novas gerações estão abraçando com entusiasmo, os veteranos torcem o nariz, céticos. A nuvem está cinza e carregada, e a tempestade está só começando.

Trocando em miúdos: cloud computing, ou “computação na nuvem”, nada mais é que toda a sua vida online: dados, informações pessoais, documentos e até multimídia morando na internet. Basta uma conexão web e tudo está à mão, a partir de qualquer computador – ou dispositivo móvel. O ícone maior da computação em nuvem é o Google, sem dúvida, com seus aplicativos populares em todo o mundo – desde email até calendário e editor de textos. A iniciativa mais ousada foi o anúncio recente do seu próprio sistema operacional, o Chrome OS – todo baseado na web.

A caracterísitca de “nuvem” da internet atual só é possível graças à adesão de todo o planeta na rede mundial de computadores. De um lado, “cloud computing” trazendo a promessa da verdadeira internet ubíqua. Pessoas acessando seus dados a qualquer hora, de qualquer lugar, em qualquer dispositivo. Do outro, operadoras e servidores instáveis, além de aplicações com selos “beta” que não inspiram lá muita confiança.

“Computação em nuvem” e mobilidade tem tudo a ver. É por isso que os profissionais itinerantes foram os primeiros a abraçar, entusiasmados, essa nova forma digital de trabalhar e interagir. O Google está mais popular do que nunca e o serviço de armazenamento virtual da Amazon cresce a cada dia. O mercado de serviços na nuvem ainda está em estágio bem inicial de adoção, é verdade, mas provando ser tendência.

Os mais conservadores dizem não gostar de correr risco quando se trata de informações pessoais. E com razão. Você confiaria em sua operadora o suficiente para abrir na rua, às 8 da manhã, a caminho do trabalho, sua “agenda na nuvem” para checar os compromissos do dia? E confiaria no servidor de um serviço beta e gratuito para guardar os preciosos telefones, endereços e emails de todos os seus contatos?

No mundo mobile, a Apple tentou convencer usuários e desenvolvedores, ao lançar o iPhone em 2007, que os “web apps” eram o futuro e que os softwares, da forma como conhecemos hoje, estavam condenados à morte. Não colou: um ano depois surgiu a AppStore, cujo sucesso dispensa apresentações. São esses mesmos usuários e desenvolvedores que hoje torcem o nariz para o Google Chrome OS.

Por mais que a computação em nuvem seja inovadora, mudando desde já nossos costumes digitais, a verdade é que em termos de infraestrutura não estamos amadurecidos o suficiente para adotá-la em massa. E o que dizer das previsões apocalípticas de redes saturadas, crise de armazenamento e sobrecarga de sistemas?

Contudo, os “coroas da internet” não decidem mais nada. O poder está nas mãos dos mais jovens. São seus hábitos e exigências que ditam novos padrões de consumo. Sempre foi assim: caiu no gosto da molecada, não há mais volta. Basta ver no que estão se transformando as redes sociais – fenômeno de audiência que ninguém sabe direito como transformar em algo economicamente viável.

O CD player e o atual modelo da indústria fonográfica já poderia se considerar obsoleto no instante em que o primeiro adolescente do Napster fez o seu primeiro download, lá nos anos 90. Com a nova computação móvel, ubíqua e na nuvem, não será diferente. Cabe aos nerds rabugentos parar de questionar a nova tecnologia e trabalhar para melhorá-la, antes que fiquem obsoletos também.