O Google afirmou nesta terça-feira que alguns de seus serviços estão parcialmente bloqueados na China por conta de um “problema técnico”.

De acordo com a gigante da web, desde o último domingo seu serviço de telefonia móvel não pode mais ser acessado pelos usuários do país e algumas agências de notícias afirmam que em algumas regiões os navegantes dão de cara com uma mensagem de erro ao tentar acessar os endereços Google.cn ou Google.com.hk. Apesar da empresa norte-americana afirmar que problema é causado por conta da atuação do Grande Firewall da China (que, vá lá, tem o nome oficial de “Escudo Dourado”, bem menos engraçado), não foi dessa vez que o país bloqueou o grande senhor das buscas na rede em retaliação à sua decisão de parar de censurar o conteúdo exibido aos sensíveis cidadãos chineses.

Na realidade o problema aconteceu por causa da inclusão, aparentemente aleatória, das letras “RFA” nos parâmetros das urls do sistema de busca do Google, o que confundiu o Grande Firewall por fazer referência ao site de notícias Radio Free Asia, bloqueadíssimo por lá, que pode ser encontrado no endereço RFA.org.

Em uma declaração oficial, o Google afirma que seus técnicos estão “trabalhando para resolver o problema”. A página que mostra a disponibilidade de seus serviços na China continua a mostrar que tudo anda normal – ou seja, com o YoutTube, Sites e Blogger bloqueados e Docs, Picasa, Groups e Mobile funcionando parcialmente. [ReadWriteWeb]

O Google esperava que o governo chinês não respondesse à decisão da empresa de desviar todo e qualquer acesso feito por chineses ao site de buscas local para o Google de Hong Kong (Google.com.hk). No entanto, Pequim – como toda boa ditadura – já está a postos para defender a ideologia que há décadas domina o país de 1,5 bilhão de habitantes.

De acordo com o jornal New York Times, dirigentes da China ficaram furiosos ao tomar conhecimento da posição do Google, que claramente desafia as ordens de Pequim. O governo chinês foi obrigado a pensar no que fazer com os milhões de usuários que eram direcionados do Google chinês para o de Hong Kong, onde a censura a sites de consulta populares como a própria busca do Google, o Google Notícias e o Google Imagens não sofre qualquer tipo de restrição. Leia mais

Já que o encerramento das atividades do Google.cn agora parece ser pura questão de tempo, a gigante da web parece estar aproveitando seus momentos finais no país para enfiar o pé na jaca.

De acordo com relato feito ao site Sillicon Alley Insider por Bill Bishop, fundador da empresa MarketWatch e morador de Pequim, por algumas horas o sistema de busca da empresa norte-americana simplesmente parou de filtrar os resultados anteriormente bloqueados pelo infame Grande Firewall da China.

Bishop afirma que pesquisas a respeito do famoso protesto de estudantes de 1989 começaram a retornar resultados com imagens do massacre que aconteceu na Praça da Paz Celestial, por exemplo. Já outras pesquisas termos proibidos continuaram devidamente bloqueadas no período.

O Google, claro, não deu um pio sobre o assunto.

De qualquer maneira, o oba-oba não parece ter durado muito. Enquanto esse post foi escrito, a busca por “1989 China Protest” no Google.cn retornou apenas 28 resultados aleatórios (como um sujeito falando ao telefone, um cara perto de uma árvore e um navio), contra 590 mil na versão internacional do buscador – repleta de imagens pouco agradáveis, mas, pelo menos, verdadeiras.

Envolvido numa briga com o governo chinês desde o começo do ano, quando identificou que algumas contas de e-mail de defensores do direitos humanos haviam sido invadidas, o Google anunciou que retomará as conversas com o governo local para decidir o futuro de seus negócios no país.

Na ocasião o gigante da web anunciou que deixaria de respeitar os bloqueios do Grande Firewall da China e que começaria a exibir páginas censuradas pelo governo em seu sistema de buscas, o que gerou certa comoção entre a população local. Apesar de todo falatório, durante todo esse período a página de buscas continuou respeitando as leis locais e a filtrar os resultados.

As negociações foram interrompidas por conta do recesso do ano novo chinês, que aconteceu na última semana. Em sua volta ao trabalho, o governo local aproveitou a oportunidade e resolveu aumentar ainda mais o controle sobre a rede no país, agora exigindo documentos e um registro especial para qualquer pessoa que queria produzir ou fazer manutenção em um site hospedado por lá. [Register]

Wang Chen, diretor do Departamento de Informação e Propaganda do governo chinês afirmou ao jornal Financial Times que o país não cederá às pressões do Google para acabar com a censura de qualquer material potencialmente “perigoso” ao governo na internet.

Para ele, a companhia norte-americana “deve continuar com sua responsabilidade de zelar pela segurança da web no país”, além de negar qualquer envolvimento governamental com as invasões promovidas a contas de e-mail de ativistas dos direitos humanos dentro e fora da China: “somos uma constante vítima de ataques hackers e condenamos a prática”.

Em um longo texto postado num site governamental Chen afirma que a web 2.0, em que “os usuários são apenas receptores, mas também criadores de conteúdo” gera novos desafios para conseguir regulamentar a internet e reforça o atual formato de “auto-censura” imposto às companhias instalas por lá, afirmando que “todos devem fazer seu melhor para intensificar sua auto-disciplina e garantir a integridade da web”.

“A importância que cada governo dá à segurança na internet é diferente. Sob o ângulo da segurança nacional, segurança da informação e segurança cultural, devemos responder ativamente aos desafios da segurança na internet e encontrar um caminho para desenvolver uma web com as características chinesas, e para isso precisamos de cooperação internacional”, escreveu, numa frase com cinco palavras “segurança”.

Flores. Pois é.

O Wall Street Journal reporta que diversos moradores de Pequim têm mostrado sua gratidão ao Google por ter furado o “Grande Firewall da China” depositando flores em frente à sua sede no país. Alguns internautas chegaram à criar o termo “Googlebye” por conta da iminente saída da empresa do país. [Foto]

O Google iniciou uma crise política entre EUA e China na noite da última terça-feira depois que anunciar em seu blog oficial que está cogitando a abandonar suas operações no país oriental por conta de possíveis ataques cibernéticos “sofisticados e coordenados” feitos contra contas do Gmail de ativistas dos direitos humanos no país.

Sem mencionar o governo local, a gigante da web afirma que iniciou suas investigações em dezembro, depois que duas contas tiveram seus dados acessados por um “grupo hacker chinês”, e identificou que “dezenas” de outros defensores dos direitos humanos na China, EUA e Europa estavam tendo seus dados monitorados por terceiros: “essas contas não estavam sendo acessadas por brechas de segurança, mas sim por causa de malwares instalados nas máquinas dos usuários”, completa o texto.

“Esses ataques, combinados com as tentativas ao longo do ano passado em limitar a liberdade de expressão na web, nos levam a concluir que devemos refletir a respeito da viabilidade de nossas operações e negócios na China. Decidimos que não estamos mais dispostos a continuar a censurar nossos resultados no Google.cn e assim, ao longo das próximas semanas, discutiremos com o governo local quais são as possibilidades de oferecermos resultados não-filtrados e dentro da lei. Nós reconhecemos que isso potencialmente pode significar o final das operações do Google.cn e de nossos escritórios no país”, afirma o post, escrito por David Drummond, chefe jurídico da gigante da web.

Diante da tradicional intransigência do governo em relação ao assunto, analistas políticos apontam que a saída do Google do mercado local seja “iminente”, o que fez suas ações caírem 2% no mercado internacional.

Em atividade no país desde 2006, por muitas vezes o Google foi criticado por defensores da liberdade na web por sua convivência pacífica com a censura imposta a qualquer conteúdo potencialmente negativo ao governo local, em que qualquer resultado indexado por sites de buscas precisa ser aprovado pelo Departamento de Informação e Propaganda antes de ser disponibilizado ao público.

A agência de notícias Reuters reporta que logo depois do comunicado o Google.cn começou a exibir resultados anteriormente bloqueados, como, por exemplo, as fotos do massacre na Praça da Paz Celestial em 1989. De Honolulu, Hillary Clinton, secretária de Estado do governo norte-americano afirmou que o caso “levanta preocupação e perguntas” e diz esperar que líderes do governo chinês se pronunciem sobre o caso.

Reação chinesa

A rede de notícias BBC diz que em seu blog oficial o chefe de desenvolvimento do Baidu, sistema que atualmente detém cerca de 60% das buscas chinesas (e que chegou a ficar fora do ar por algumas horas no começo dessa semana por conta de um ataque) afirma que a decisão do Google foi estimulada sobretudo por seu fracasso em dominar o mercado no país: “O que o Google diz me deixa doente. Se eles querem desistir por interesses econômicos, então que o digam”, escreveu.

Com 340 milhões de navegantes, o mercado de buscas na China movimentou US$ 1 bilhão (R$ 1,75 bilhões) em 2009, sendo que deste montante US$ 600 milhões (R$ 1 bilhão) foram diretamente para os bolsos da companhia norte-americana, que tem apenas 31% do mercado por lá.

As "melhorias" da versão chinesa são um presente de grego

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No último final de semana os usuários chineses do navegador Opera Mini – usado em dispositivos móveis como celulares e smartphones – foram notificados a fazerem uma atualização para uma versão do programa desenvolvida especificamente para o país. Mas no lugar de melhorias na navegação ou interface, deram de cara com o bloqueio de diversos sites proibidos por lá.

De acordo com a BBC News, por alguma razão o Opera Mini conseguia furar o bloqueio do Grande Firewall da China e acessar páginas consideradas ilegais – como o perigosíssimo Facebook, por exemplo – mas o “defeito” foi “corrigido” na atualização.

Não demorou para que o caso começasse a ser comentado pela web, com usuários condenando a empresa norueguesa, que por sua vez nega tudo. Em um comunicado a Opera Software apenas diz que “a diferença entre a versão chinesa e a internacional é a maneira que ela conecta aos servidores e lida com a compressão de dados, oferecendo maior velocidade por um menor custo”.

De qualquer maneira, bom lembrar que o imenso poderio econômico da China já foi capaz de mudar o discurso de muitas empresas que se apresentam como amigas da liberdade no resto do mundo. Um exemplo é o Google, que informalmente adota o slogan “não seja mau” e que não teve pudores ao aceitar a determinação do governo local para bloquear o acesso a algumas páginas.