Se eu pudesse escolher um objeto, qualquer um, que representasse o povo brasileiro na sua essência, este seria o aparelho de televisão. Embora TV seja praticamente um commodity mundial, no Brasil ela tem particularidades tão próprias que acabou se tornando objeto de estudo de diversos pesquisadores de tudo quanto é país.

O brasileiro ama TV. Muitas vezes ele não tem nem geladeira, mas a TV está presente. E quase sempre ligada. O IBGE atesta que 98% dos domicílios deste país tropical e ensolarado possuem TV, mas geladeira, são 92%. Eu já vi moradores de rua que montam barracos de lona e papelão sob viadutos, equipando-os com colchão, fogareiro e… TV. Devidamente ligada através de um gato ao poste de luz mais próximo. Ah, o gato. Outro símbolo nacional – mas este fica para outro post.

Nos anos 70 os militares empreenderam uma bem-sucedidada campanha para que a TV estivesse em todos os nossos lares, a fim de “levar o conhecimento e promover a integração nacional”. Intenções escusas à parte, deu certo.

Semana passada completamos 2 anos de TV digital no Brasil. Depois de um grande estardalhaço na estréia, a empolgação foi esfriando, como bem sabemos, devido à demora dos aclamados recursos de interatividade, do equipamento, dos preços, da cobertura tímida. E o povão continua confuso, sem entender do que realmente se trata. Muitos acham que é o mesmo que TV a cabo. Os preços assustadores dos aparelhos contribuem para elitizá-la ainda mais. Talvez o governo não tenha explicado o suficiente que bicho é esse. Ou explicou mal: quantos dos nossos milhões de brasileiros classe C, D e E poderiam assistir sua novela, seu jogo de futebol ou programa de auditório numa TV com resolução full HD, com menus interativos e acesso à internet? Ah, sim, tem a caixinha conversora (onde?) a preços módicos, mas quem a usaria para ligá-la na sua TV de tubo de 20 polegadas?

Menciono a TV de tubo porque, enquanto estava na fila do caixa de um grande varejista há 2 semanas, vi um casal de idosos com a caixa de uma TV dessas, de 20 polegadas, no carrinho. Foi aí que parei para pensar se TV digital faz mesmo falta para o grosso do povão. Puxando papo para aplacar a longa espera, soube que a nova aquisição confortaria a simpática dona de casa, que poderia agora ver sua novela em paz enquanto os membros jovens da família não mais brigariam por esportes ou filmes.

É isso. Reclama-se que o brasileiro não lê, não vai a teatro, museus, cinemas e parques. Falta dinheiro para livros, teatro e cinema, e falta disposição para o lazer barato de qualidade, às vezes longe demais das periferias. Que pai levaria seus filhos a uma biblioteca, parque ou museu do outro lado da cidade, exausto que está de trabalhar incansavelmente e ainda passar horas dentro da condução, todos os dias? A TV, contudo, está sempre ali, dentro de casa. É conforto, companhia, fantasia, diversão, válvula de escape. De graça e sempre presente.

Você vai assistir a Copa do Mundo de 2010 em seu dispositivo móvel?

Na tela grande a TV digital vai devagar por todos os motivos que esboçamos acima. Mas nos dispositivos móveis, tudo deveria ser mais fácil e barato, não? Quem se habilita a ver TV numa diminuta telinha de celular ao invés de um confortável aparelho convencional tem razões bem claras. São os trabalhadores que passam 3 horas por dia no transporte coletivo; guardas, vigilantes, porteiros, plantonistas. Temos uma legião de brasileiros que se enquadram nessas categorias.

Samsung e LG apresentaram seus celulares com TV digital que estão há um tempinho à venda. Há poucas semanas, a Nokia anunciou um módulo bluetooth para conectar vários de seus modelos à TV digital. Não há muitos detalhes do funcionamento desse acessório ainda. A impressão que eu tenho é que ele está tão incompleto quanto a própria TV digital brasileira. Vai dar para gravar programas ou trechos deles? E interatividade, vai rolar? Sim, sabe-se que ele será compatível com o Ginga, o sistema que vai comandar nossa nova TV. Mas cadê o Ginga?

E para o povão, que diferença vai fazer esse Ginga, afinal?

Nesse ínterim, os celulares xing-ling com TV analógica continuam fazendo o maior sucesso nos camelôs e centros comerciais populares. E é aí que TV convencional e TV móvel se cruzam no universo C-D-E. Não importa a qualidade, não importa esse negócio de interatividade. O aparelho só tem que ser barato e funcionar. No Brasil, convergência não tem nada a ver com integração de ferramentas. É, pura e simplesmente, a comodidade de ter um sinal de televisão num aparelho que todo mundo já leva no bolso todo dia: o celular. Pré-pago, lógico.

O último grande problema que a indústria da TV 3D vai ter que enfrentar é com relação ao posicionamento dos menus e guias de programação. Parece ser uma questão trivial, mas há muita matemática e ciência por trás dessa decisão.

As empresas 3ality Digital e Nagravision já estudam formas de ter um menu que seja também em terceira dimensão. Uma vez que o espectador está usando os óculos especiais, por exemplo, não deverá tirá-los toda vez que decidir acessar o menu.

Normalmente um menu tem seu posicionamento definido pelos eixos X e Y. No caso da televisão em três dimensões isso duplica: são dois eixos X e dois eixos Y, uma vez que a imagem 3D que o olho humano reconhece é resultado da combinação de duas imagens capturadas simultaneamente.

Frank Dreyer, responsável pela equipe de eletrônicos de consumo da Nagravision, disse à Wired que atualmente são usadas transparências e sombras, entre outros recursos, para exibição dos menus e guias de programação. Na televisão 3D isso não será possível, porque “o vídeo não é um pedaço de vidro atrás do menu”. A profundidade do que é apresentado passa a ser uma preocupação constante, e o mau uso desses efeitos pode causar cansaço visual e náusea.

Menu para televisão 3D desenvoldivo pela 3ality Digital e a Nagravision. Clique para ampliar. (Wired)

Menu para televisão 3D desenvoldivo pela 3ality Digital e a Nagravision. Clique para ampliar. (Wired)

Para tentar evitar o problema, a 3ality Digital pretende incluir metadados sobre a configuração espacial das imagens já na transmissão, em cada quadro do vídeo. Assim, esse processamento complexo não ficará a cargo do receptor de TV 3D. De qualquer forma, set-top boxes com tal funcionalidade custarão entre US$ 200 e US$ 250 (entre R$ 350 e R$ 450) para serem feitas.

Ah, os pesquisadores da TV em três dimensões também ainda não descobriram uma forma cem por cento eficaz de exibir legendas. Por enquanto, teremos filmes ou vídeos em 3D somente dublados. [Wired]

Pelo menos na opinião de Richard Doherty um especialista da área, que trabalha para a Microsoft. Segundo ele, em 5 anos todo o tipo de conteúdo estará acessível através de streaming ou discos rígidos locais.

Colocando os pés no chão devo admitir que ele foi bem otimista quanto ao prazo, mas a idéia segue realmente o rumo que estamos tomando. Com a popularização da HDTV e da internet, é bem provável que em breve surjam sites ao estilo “locadoras online”, oferecendo streaming de filmes em alta definição. Com o controle remoto bastaria acessar o acervo de filmes disponíveis, onde você pode selecionar os que quer assistir, e paga um certo valor por uma quantidade de exibições.

Neste dia seus filhos estarão rindo do seu tempo jurássico, provavelmente não se conformarão com o fato de termos que esperar semanas para alugar uma “fita de vídeo” (dublada ou legendada), só porque era um “super-lançamento” e todas as unidades já estavam locadas. :lol:

Via: Slash Gear