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Nenhum final de jogo me irritou tanto quanto o de The Dig

Clássico da Lucasarts decepcionou.

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6 anos atrás
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Eu já sei o que você talvez esteja pensando. “Não, não é possível. Como assim, este maluco se decepcionou com o que é, sem discussão, um dos melhores e mais memoráveis games de ficção científica de sua época? E esse cara se diz nerd…?” Aliás, é curioso como alguns de nós reagimos com animosidade ao ouvir que alguém não gosta daquilo que a gente gosta, né?

Mas é verdade. A intercessão “jogo” e “ficção científica” em que The Dig habita faz com que ele tenha tudo pra ser, em minha perspectiva, um dos melhores jogos de todos os tempos.

Eu realmente concordo com essa afirmação. Entretanto, há algo lá pelo final da história que me deixou extremamente incomodado – eu não resisto à tentação de criticar sempre que zero o jogo novamente.

E como eu tive a sensação de que alguns fãs do jogo nunca pararam pra pensar nisso, decidi tornar esse defeito o assunto da minha coluna de hoje.

Antes, dois breves adendos: estou prestes a discutir o final da história desse game, então fica subententido (mas é melhor deixar explícito, por via das dúvidas) que irei revelar o final da trama. Se por algum motivo inexplicável você se importa o bastante com a história de The Dig pra se incomodar com os spoilers mas simultaneamente se importa tão pouco que em 17 anos ainda não o jogou, pare de ler o texto aqui (e vá jogar essa pérola que custa cinco dólares no Steam).

E o segundo: nos próximos parágrafos você vai ler uma reclamação típica de alguém que obviamente se importou o bastante com a história fictícia do jogo para “levar a sério”, como se diz. Muitas vezes minhas críticas sobre a história de uma série, filme ou jogo são defletidas com o peculiar, embora irritante, “Ahhh, mas é só uma série/filme/jogo, você vai mesmo levar isso a sério?”. Sim, eu levo minha ficção a sério. Parte da experiência de ser fã de obras que se baseiam em tramas fictícias é que, dentro dos limites aceitáveis, levamos as histórias a sério o suficiente pra analisá-las. Escrever de qualquer modo porque é só um jogo que não se deve levar a sério me parece intelectualmente preguiçoso.

Mas voltemos a The Dig. O adventure, lançado em 1995, nasceu de uma ideia que ninguém menos que Steven Spielberg teve para um filme. Nele, astronautas que trabalhavam para repelir um asteróide assassino de sua rota de colisão com nosso pobre planetinha descobrem indícios de vida alienígena. E não apenas isso, mas são transportados cientifico-magicamente para o planeta dos ETs.

No planeta alienígena (cheio de ruínas e completamente deserto), os três astronautas precisam descobrir o que aconteceu e, mais importante, como retornar para a Terra. Lá pela metade do jogo, os personagens descobrem cristais capazes de trazer organismos mortos de volta à vida; o líder do grupo usa um deles para ressuscitar um dos astronautas, que havia morrido no começo da exploração do planeta estranho.

Tal personagem ressuscitado começa a agir de forma estranha e a acumular cristais sem nenhum motivo aparente (além do fato implícito de que isso é um efeito colateral da ressureição).

Na progressão da trama, você compreende que os tais cristais têm um papel no que aconteceu com o planeta, e torna-se perfeitamente claro que trazer o defunto (a essa altura meio agressivo e totalmente hipnotizado pelos cristais) de volta à vida foi um erro. A mensagem nas entrelinhas é que não se deveria interferir com o ciclo natural da vida.

Até aí tudo bem. Acontece que momentos antes do desfecho da trama, o ressurreto e um segundo personagem morrem. Sobra apenas o protagonista; depois de toda a exposição de que usar os cristais é uma furada e que o ressurgido não é realmente ele mesmo, você tem a escolha de trazer um dos personagens mortos de volta à vida.

Não importa sua decisão; o personagem recém-trazido do além, ainda em controle de suas faculdades, revolta-se pelo que você fez e se joga de um penhasco pra reverter o seu vacilo. É um momento bastante sinistro, inclusive. Não consigo lembrar de outro momento gamer em que um personagem se mata assim, na frente do protagonista.

Eis o problema. No desfecho do jogo, os alienígenas caridosos ressurgem, explicam o que faltou da trama, dão um jeito de mandar o herói de volta pra casa e mais: trazem os dois companheiros do personagem principal. Vivinhos da silva!

Não bastasse o combo de deus ex machinas (os ETs meio que resolvem todo o problema do final, e há até uma máquina literal envolvida na conclusão), eu achei que esse final feliz esculhambou toda a premissa ética e emocional que o jogo montou cuidadosamente. Ressuscitar mortos era moralmente errado e, do ponto de vista prático, era falho. Aí o jogo vai e, no finalzinho, traz os mortos de volta à vida sem qualquer consequência?

Esse final deixou um final amarguíssimo em minha boca. Além de ser uma conclusão demasiadamente açucarada/cartunesca  pra um jogo que até então tinha um tom tão sombrio, ela subverte todo o ponto central da história. Acho que nenhum outro final de jogo me irritou tanto quanto o final de The Dig.

Algum jogo já te causou esse efeito?

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