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Como os videogames contemporâneos serão vistos daqui a cem anos?

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7 anos atrás

Eu sou um grande apologista da ideia de que videogames podem (à essa altura, devem) ser considerados uma obra de arte e eu suspeito que a você acham o mesmo. Também, pudera: mais do que nosso hobby favorito, videogames são praticamente parte da nossa identidade pessoal. Aliás, acho que seria difícil encontrar um entusiasta de games que não categorize o entretenimento eletrônico como meio artístico.

Entretanto, saia um pouco do círculo nerd gamer e você verá que essa opinião não é compartilhada pelo mundo em geral.  Se você tentar argumentar pra alguém que não tem a mesma inclinação que a gente, o resultado às vezes é uma rejeição imediata dessa noção. “Como assim arte, cara? Esses joguinhos aí que ensinam as crianças a fuzilar escolas? Não força.” Talvez essa seja uma das repostas que você vai receber.

Este sujeito nunca deve ter visto Okami, Shadow of the Colossus ou Flow. É natural que ele não entenda como o meio evoluiu como uma forma de expressão; não é surpreendente que este interlocutor hipotético adote as noções sensacionalistas a respeito dos games.

Para a população em geral, eu acho que existem três empecilhos para a aceitação de games como um meio artístico.

Parafraseando o capitão Nascimento, este herói folclórico nacional: quem financia isso aí são vocês, a turma mais velha.

Parafraseando o Cap. Nascimento, este herói folclórico nacional: quem financia isso aí são vocês, a turma mais velha

Primeiro, a perene impressão de que videogame é “coisa de criança” e que, se chega a ocupar algum espaço na taxonomia artística, é ali do lado de livros ilustrados pré-escolares ou CDs com canções de ninar. Não importa que o público gamer tenha idade média de 30 anos (e que apesar de carregar o hobby há mais de uma década, já não eram mais crianças); não importa que os consoles custem três dígitos e evidentemente não sejam o tipo de indústria que crianças tenham o poder de custear (e há um certo limite para o poder de persuasão infantil em relação aos pais).

O outro empecilho é a impressão que a mídia sensacionalista de que videogames são sistemas de treinamento para psicopatas, desensitivizando nossos jovens ao ponto de que eles se tornem capazes de cometer massacres. Choque jornalístico vende e, na falta de maiores informações durante os primeiros momentos de alguma tragédia envolvendo gente jovem e armas, a mídia rapidamente tece a narrativa de que o suspeito era um nerd recluso que passava mais tempo jogando FPS do que fazendo qualquer outra coisa.

Pior ainda é quando os próprios psicopatas “admitem” que usaram games com o propósito de se preparar para um massacre, como foi o caso recente do atirador da Noruega. O cara acredita que seu hábito de jogar um game de tiro por horas a fio se traduziu como uma habilidade marcial no mundo real. Como se eu pudesse me tornar um atleta jogando FIFA várias horas por dia.

É interessante como em geral todos desmerecemos a plataforma ideológica xenofóbica que ele tentava pregar, mas no momento em que ele diz que jogou Modern Warfare por 16 meses para se condicionar ao uso das armas, há quem dê validade à opinião dele.

Modern Warfare: treinamento suficiente para manusear armamentos?

Modern Warfare: treinamento suficiente para manusear armamentos?

Finalmente, há a questão da (relativa) breve vida dos consoles. Na maioria das pessoas, um senso crítico mal calibrado pode torná-las extremamente reacionárias a tudo. Rejeitam novidades. Sendo videogame possivelmente um dos mais recentes métodos artísticos, talvez ainda demore pra que a maioria da população passe a ve-los da mesma forma como filmes, por exemplo.

Isso me faz pensar. Cinematografia tem pouco mais de 100 anos de existência. É provável que em sua concepção, a coisa era vista como uma tecnologia interessante e só. Os primeiros filmes, aliás, eram nada senão cenas disconexas; a experiência visual era tão impressionante que dispensava história. Hoje, um século e alguns Coppolas/Hitchcocks/Kubricks depois, cinema é uma categoria artística – a “sétima” arte.

Será que daqui cem anos haverá a mesma apreciação por um jogo de NES, por exemplo? Tudo bem que já existem exibições de museu mostrando games (e não é qualquer museu de esquina, caso você more numa cidade com museus em esquinas), mas me refiro a algo mais do que um evento isolado. Eu imagino um futuro em que, quem sabe, os jogos com os quais nos entretemos quando mais novos serão exibidos numa galeria do Louvre, com guias especializados na história da indústria dando palestras, gente tirando foto na frente de um Duck Hunt emoldurado, esse tipo de coisa.

Eu particularmente acredito que videogames terão a longevidade suficiente para que se tornem uma parte intrínseca do que a nossa consciência coletiva aceita como arte, tal qual uma sinfonia ou uma escultura romana. Estamos vendo o comecinho disso (orquestras tocando trilha sonora de Sonic, ou o exemplo acima do Smithsonian), mas por enquanto isso ainda é mais voltado para os fanboys mesmo.

Quem sabe daqui a cem anos?

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