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As jabuticabas da tecnologia móvel

"Somos um país que anseia por iPhones e Galaxies S III ardentemente, mas que se conforma em ser equipado por celulares baratos, multi-SIM, de baixa tecnologia."

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Certamente os leitores do Tecnoblog, amantes de tecnologia, adoram acompanhar as principais novidades do meio também em sites estrangeiros — afinal, tudo acontece primeiro na Ásia, EUA e Europa. Com o início da CES, estamos todos de olho nos lançamentos e tendências. Todavia, perspicazes como são, vocês devem ter notado que em muitos aspectos a realidade vivida no resto do mundo é muito diferente da nossa.

Claro que nessas grandes feiras a enxurrada de novidades inúteis faz a tônica de muitos veículos noticiosos, afinal, geram curiosidade. O problema é que mesmo as novidades “úteis” acabam no decepcionando  pois nem sempre chegam ao nosso país. Ou porque não se encaixam em nossa realidade, ou porque não há interesse de mercado.

O contrário também é válido: quase não vemos o lançamento de produtos voltados às nossas necessidades particulares.

É aí que entram as “jabuticabas” da tecnologia móvel, ou seja, coisas tão características nossas quanto o futebol e o carnaval. E que causam o maior espanto nos interlocutores gringos quando conversamos sobre telefonia móvel.

País multichip

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Segundo a Anatel, fechamos 2012 com cerca de 260 milhões de linhas móveis ativas no Brasil. Isso dá uma densidade 132 para cada 100 habitantes. Então todo brasileiro tem ao menos um celular? Longe, muito longe disso.

Primeiro, esse número não corresponde à realidade. As operadoras adoram inflar números para demonstrar prosperidade. Iniciou-se recentemente, de forma tímida (e apenas por uma delas), uma limpeza na base de dados. Isso significa desconsiderar linhas inativas há mais de 6 meses. É por causa delas que foi necessário adicionar o nono dígito aos números móveis de São Paulo, medida que logo se estenderá ao resto do país. Por enquanto não sabemos quantas linhas ativas realmente existem, mas eu chutaria um decréscimo de uns 20% na contagem oficial.

Segundo, somos um país multichip.

O termo “chip” sozinho já é uma jabuticaba (no resto do mundo, é SIM card), mas surpreendente mesmo é o brasileiro médio precisar de dois, três ou quatro linhas de operadoras diferentes (pré-pagas, lógico) para sobreviver.

O mercado brasileiro demorou para receber aparelhos multi-SIM que não fossem xing-lings. Até fiquei pasma com a demora dos fabricantes tradicionais (Samsung, LG, Nokia, Motorola) em se mexer. A resposta foi o alto custo para se produzir aparelhos que só serviriam para o mercado interno.

Além da demora em perceber esse mercado, outro erro das fabricantes é achar que ter vários chips é um fenômeno das classes sociais C e D. Conheço pessoas de todas as classes sociais, e, entre as que possuem celular, as únicas que utilizam apenas uma linha tem mais de 50 ou menos de 16 anos de idade.

Há demanda por smartphones topo de linha multichips, sim. Com frequência recebo emails perguntando por que não lançam iPhones, Blackberries e Windows Phones multichips. Quando retruco que já há Androids dual-SIM, em troca recebo um “mas por que só 2 chips?”

TV analógica

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Não há como negar que a TV digital foi um verdadeiro fracasso no Brasil. O próprio governo reconhece isso. Há uma urgência em se liberar para a telefonia a frequência de 700 MHz, atualmente usada pelos radiodifusores, mas do jeito que a coisa anda, será preciso acelerar artificialmente a migração.

Esse fracasso é uma surpresa, considerando-se que o brasileiro ama televisão. Mas deixa de surpreender se analisarmos os motivos da baixa adesão à TV digital: poucas opções e preço alto. É um círculo vicioso: há poucas opções porque o nosso padrão é outra jabuticaba, e produzir apenas para o mercado interno é caro. Sendo caro, não dá para oferecer muitas opções, pois as vendas serão pequenas.

Resultado: pouquíssimas TVs digitais móveis e uma multidão de xing-lings com TV analógica. Ah, sim: há fabricantes que notaram isso e optaram por retroceder ao padrão analógico equipando seus produtos. É o único jeito de fazê-los custar 200 ou 300 reais.

Graças às nossas jabuticabas, somos um país que anseia por iPhones e Galaxies S III ardentemente, mas que se conforma em ser equipado por celulares baratos, multi-SIM, de baixa tecnologia. Isso é que dá tristeza. São raras as iniciativas de se produzir tecnologia de ponta por aqui. E mais rara a vontade de sermos geradores de conhecimento, de produzirmos ciência pensando globalmente. Não temos a menor chance de, a curto e médio prazo, produzirmos algo que seja digno de se exibir numa CES.

Seria o conformismo outra jabuticaba?

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Marlene Santana
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Leonardo Caldas
Excelente, a sua análise.
Leonardo Caldas
Era justamente o que eu ia escrever. Ainda que o padrão possa, sim, ser considerado uma "jabuticaba", ele é superior a praticamente todos os existentes atualmente.
Ibraim
Não sou fã dos posts da Bia, mas aplaudo de pé cada palavra deste. Ficou ótimo e disse tudo!
ricardo
Concordo. A baixa adesão ao padrão digital se deve ao fato de que o mesmo não adiciona nenhuma melhoria além de acabar com os chuviscos na imagem. Ainda, onde o sinal é fraco ocorrem travamentos que incomodam muito mais que os chuviscos de antes.
othon
Se a galera passou por esse comentário e pensou "too long; didn't read", pare e releia por favor. Possui muito mais conteúdo e discussão que o post da Bia, com todo o respeito à blogueira.
Michael Felipe
Eu sempre me perguntava por que só celulares xing-lings eram dual chip.
YanGM
Só vende no Brasil? Are you fuckin' kidding with me? A China consome mais multi-sim que o Brasil se duvidar. Dois grandes mercados que consomem o mesmo produto, hmmm acho que não seria lucrativo vender para eles.
YanGM
Claro, e o Brasil é o único país do mundo a ter montanhas, precisando desenvolver um novo padrão. Opa peraí, outros países já tinham um padrão que funciona bem em péssimas condições.
Moisés Ferreira
Utilizo um chip corporativo e um pessoal em meu cel Motorola Atrix tv XT687 que custou R$790,00. Acho ótimo... http://www.girafa.com.br/Celulares/Motorola/xt687-atrix-tv-cinza-android-4.0-dual-chip-8mp-wi-fi-3g-xt687.htm
TatoGomes
Minha situação é essa, basicamente. Hoje eu tenho um smartphone low-end (era um mid-end quando comprei e virará um high-end assim que possível) para as tarefas básicas, um dumbphone com TV Digital e uma segunda operadora, duas coisas que não abro mão devido a minha rotina atual, e ainda um Tablet para jogos, digitação e até as tarefas básicas. É uma realidade da qual eu já me acostumei. Já acho normal andar com esses três gadgets, ainda mais que muito dificilmente eu não esteja carregando um mochila por onde vou (caderno, roupa da academia...). Minha única vontade agora é atualizar meu aparelhos. Estou com um Galaxy 551 (GB 2.3.6) e um Galaxy Tab (JB 4.2.1) que devem ser substituídos pelo Nexus 4/Lumia 920 e Nexus 7/Mini iPad. Ah, e o dumbphone é o Samsung Star, eu acho. =D
bpomponio
Conformismo ou potencial de consumo?? Ching-Ling só tem espaço aqui por causa das altas cargas tributárias que elevam exponencial e ridiculamente os preços!! "Jabuticabas" ou peculiaridades há em qualquer mercado do mundo... mas sofremos é com a ganância do capitalismo selvagem, pois não há como alegar que num aparelho de 2 a 3 mil reais não tenha orçamento para incluir um recurso de TV Digital, presente em celulares mais comuns e baratos. Não há demanda substancial deste recurso nos smarts topo de linha porque não é seguro por aqui!! Ou por acaso podemos nos dar ao luxo de comprar o melhor aparelho do mercado e ficar assistindo uma TVzinha tranquila na rua ou no transporte público??? Mas dentre essas nossas peculiaridades, o lado "positivo" é que isso cria novas oportunidades para a entrada de novos concorrentes menos ganasciosos, como as empresas chinesas que ganham no volume. Para quem pensa que a China não tem jeito e só produz porcaria, estão redondamente enganados. Eles produzem de TUDO! E cada vez mais "aprendem" as tecnologias das multinacionais que investem fortunas em Pesquisa&Desenvolvimento. Para quem não sabe, antes de se tornar uma potência tecnológica, quem tinha essa fama de "produtos descartáveis" era o todo poderoso Japão!
ricardo
joaoma, às vezes a solução pode ser, sim, criar um novo padrão. Quanto à tevê digital, ela não decolou porque a era da tevê já se foi, e ninguém quer pagar caro somente para deixar de ter chuviscos (e passar a ter problemas de travamento da imagem). Se mais recursos interativos fossem adicionados teríamos maior adesão, mas com a programação ridícula que temos na tevê, sinceramente, não vale a pena investir nela.
Eric Viana
Minha situação é essa. Tenho Nextel para empresa (que não é meu mas devo portar) Tenho uma linha pessoal e outra com pacote exclusivo para atendimento a clientes e empresas. Ando com 3 aparelhos... Como não acho uma alternativa dual chip bacana (Samsung, 1049 reais em um S3 mini retalhado não é preço bacana, fica a dica) sobram os Motorolas de tela pequena e sistema defasado e os xing-lings... Estou cogitando fortemente em adotar um Genesis GP-501 com dual chip, dual 3G, cpu de 1GHz, Android 4 e tela de 5 polegadas e preço próximo aos 550 reais. Mato ai mais um peso na bolsa, o tablet. No final das contas se o smart-ling durar 1 ano (como a maioria deles) ele se paga e você troca por outro smart-ling com sistema mais atual e 50% do valor de um com selo Anatel... É triste? É.
TaylerPadilha
Uma andorinha só não faz verão. ;)
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