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Desoneração de e-readers? Só em sonho...

"A imensa maioria dos livreiros insiste em permanecer na época das cavernas. Vejam: época das cavernas não é a era do livro de papel. É a era do livro nenhum."

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kindle-brasil

Depois de muita espera, a presidente Dilma Rousseff assinou o decreto para desoneração dos smartphones. Ótima notícia: depois dos PCs, vieram os tablets e agora os smartphones. Viva a inclusão digital! Mas... e os e-readers? Esses continuam num ostracismo de dar pena.

Primeiro, por causa da eterna implicância dos fetichistas do papel: aqueles malucos que dão mais importância ao cheiro das folhas do que ao conteúdo. Em vez de ficar discutindo se livro digital é melhor que o de papel, que tal discutir as novas oportunidades que a tecnologia trouxe? Por exemplo, o acesso aos livros em lugares carentes de bibliotecas? Ou a melhor distribuição do material didático eletrônico? E claro, as novas modalidades de negócios?

Os donos de livrarias brasileiras vivem em outro mundo. No final do ano passado, quando os leitores digitais começaram a desembarcar no Brasil, a Associação Nacional de Livrarias (ANL) divulgou carta aberta propondo medidas "protecionistas" contra o livro digital. Algumas delas: intervalo de 120 dias entre o lançamento dos livros impressos e os digitais; o mesmo desconto de revenda do livro digital para todas as livrarias; a implantação de um teto de 30% na diferença de preços entre livros físicos e digitais; e a limitação em 5% no desconto dos e-books.

A imensa maioria dos livreiros insiste em permanecer na época das cavernas. Vejam: época das cavernas não é a era do livro de papel. É a era do livro nenhum. É a era em que o Brasil vive: somos um país de neandertais que não gostam de ler! Para que medidas protecionistas se não há do que se proteger? O brasileiro prefere gastar R$ 30 em um boteco a uma livraria!

Os livros digitais são, na verdade, uma oportunidade. Dos livros chegarem onde as livrarias e bibliotecas não chegam. De atingir novos públicos, especialmente o mais jovem e conectado. De baratear e diversificar os títulos. O Brasil tem 3,4 mil pontos de venda de livros espalhados pelo país. Sozinha, a cidade de Buenos Aires tem mais.

Uma meia dúzia de empresários mais visionários, como Sergio Herz, da Livraria Cultura, apostam no universo digital, sim. Fãzaço de tecnologia, há 3 anos nos encontramos pessoalmente, e ele lutava para ter livros digitais em sua rede de lojas. Mas levava uma cabeçada atrás da outra – por causa da cabeça dura dos outros.

O mais recente revés veio semana passada, justamente de quem mais poderia estimular a leitura em nosso país: o governo.

A Livraria Cultura está há tempos tentando livrar os e-readers Kobo dos impostos de importação para comercializá-los localmente a preços mais acessíveis. Semana passada saiu uma decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, ao julgar Agravo de Instrumento ajuizado pela União contra liminar favorável à suspensão da exigibilidade de tributos na importação, pela Livraria Cultura. As procuradoras da Fazenda Nacional Raquel Vieira Mendes e Lígia Scaff Vianna entendem que:

“Não há como se equiparar os e-readers ao papel destinado à impressão de livros, para fins de extensão da imunidade tributária prevista no artigo 150, inciso IV, alínea ‘d’, da Constituição Federal, pois são contemplados pela imunidade exclusivamente livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão.”

A íntegra da decisão está aqui. Em resumo, a União atesta que, mesmo sendo um dispositivo dedicado, exclusivo para a leitura de livros e periódicos, não se pode equipará-los a jornais, revistas e livros convencionais. Porque são “equipamentos para armazenamento e leitura de dados representados por texto.”

Lendo isso, fica a impressão que brasileiro já compra bastante livro. Que temos livrarias e bibliotecas à vontade. Que incentivo à leitura é algo que não precisamos. Na mentalidade tacanha de nossos governantes, o que precisamos na verdade é de… automóveis!

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Ewerton J. Gomes
Olá. Estou escrevendo um trabalho de conclusão de curso sobre soluções sustentáveis para reduzir o uso do papel e gostaria de saber se há viabilidade no uso de e-readers, considerando que os recursos naturais demandados para a produção de um e-reader podem superar a os demandados na produção do papel, mesmo que reduza drasticamente o uso deste último. Ou seja, o impacto do e-reader faz valer a pena a sua produção?
Willian de Oliveira
será que a Dilma pelo menos leu em um e-reader pra decidir?
Luiz Tanure
ainda nao terminei de ler, estou no inicio, mas nao tem como nao falar, que tratar os `livreiros`assim é muito achismo e ataque sem conhecimento... eu só nos ultimos 6 meses ja desenvolvi 3 solucoes para grandes livrarias/editoras, para leitura de livros em tablets / celulares
Marcio Neves Machado
“Não há como se equiparar os e-readers ao papel destinado à impressão de livros, para fins de extensão da imunidade tributária prevista no artigo 150, inciso IV, alínea ‘d’, da Constituição Federal, pois são contemplados pela imunidade exclusivamente livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão.”
Imagina se o papel é trocado por algum polímero mais resistente, mais barato, e mais ecológico de se produzir. Só imaginem. Isso significaria que QUALQUER COISA impressa nesse novo material que não é papel deixaria de ter isenção de tributação. A lei às vezes é restritiva demais, ao não contemplar possíveis mudanças de paradigmas. E antes que alguém ache isso irreal, realize para o fato que (muito) antigamente se utilizavam peles de animais na confecção de pergaminhos. É só transpor o argumento trocando "papel" por "pele", que veremos o quão cega é a argumentação da lei :(
wpcortes
Pela primeira vez estou comentando aqui no tecnoblog, apesar de acompanha-lo há muito tempo. E decidi comentar porque o assunto é realmente relevante. Os e-readers são um belo instrumento para o aumento nas vendas das editoras e autores, além de permitir que autores antes sem recursos sejam publicados, se eles escolherem o modelo de negócio adequado. Vejam o exemplo de uma das grandes editoras americanas de livros de TI, a O'Reilly. Além do negócio tradicional de livros em papel, que são distribuídas globalmente (no Brasil sendo publicada pela Novatec), eles vendem ebooks também (mas apenas em seu site). Inclusive, eles tem um programa que, caso você possua um livro da editora, tem a opção de comprar a versão ebook por apenas 4,99 dólares. Como eles fazem isso? Eles pedem que você registre o ISBN do livro no site deles e associe a sua conta. Como vocês podem imaginar, o ISBN de um livro não é único para cada exemplar, então um mesmo ISBN será associado a várias contas. Mas essa não é a questão: a questão é que eles não validam realmente se a pessoa tem o livro físico ou não. Uma pessoal mal intencionada pode digitar o ISBN de vários livros sem possui-los e comprar a versão ebook por apenas 4,99 dólares. Parece um negócio furado onde eles estão perdendo dinheiro, certo? Mas vocês tem idéia do quanto eles têm vendido em ebooks? Pois é, estão vendendo muito... Criando uma base de compradores fiéis, e crescendo.... Então, é apenas uma questão de pensar em um modelo sustentável.
carloshermano
Vez ou outra tenho visto alguns Kobo nas mãos de pessoas durante a viagem de Metro que faço diariamente em São Paulo. Isso tem me surprendido!
Vitor Felipe
P e ois é...um povo sem cultura garante os votos e as artimanhas em baixo dos panos em Brasília. Na verdade eles são muito inteligentes. Porque um povo sem cultura e mergulhada no consumismo burro...é igual ao símbolo da justiça...cega que só. Ótimo post!
Rodrigo Fante
Segundo estudo da Cerlalc, o brasileiro lê em média 4 livros por ano, o argentino 4,6, diferença irrisória que me leva a questionar, qual a fonte sobre o número de pontos de vendas no Brasil inteiro e Buenos Aires? Lemos pouco? sim. Mas é um problema crônico de todo nosso continente, infelizmente.
andycds
"O Brasil tem 3,4 mil pontos de venda de livros espalhados pelo país. Sozinha, a cidade de Buenos Aires tem mais." Você poderia citar as fontes destes números? Duvido muito que estejam certos.
Renan Esposte
(faltou o *ba dum tss*) Sim, excelente texto!
Rafael Souza
Difícil dizer que seja por causa desses fatores que os e-reader deixam de ser um "sucesso" por aqui.Quem quer ler mesmo baixa a versão (que geralmente a pessoa tem o livro impresso e escaneia) digital,geralmente em pdf, e lê no seu Smartphone,tablets xing lings ou na tela do seu computador mesmo. É claro que o governo tem culpa por cobrar altos impostos,mas isso serve para tudo,infelizmente.O que realmente falta,e todos já sabem,é a iniciativa partir das próprias pessoas em começarem a ter o hábito da leitura (eu me incluo rs) e fazer do livro seja impresso ou digital o seu melhor amigo. Outra coisa que todos estão carecas de saber é que o governo prefere do jeito que está,com pessoas sem senso critico, analfabeto funcionais, para de certa forma manipula-los muito mais facilmente,é só colocar algo na tv para "todos" acreditarem rs,principalmente a "grobo" rsrs. Mesmo que os livros não sejam assim tão baratos,podemos fazer um esforço para adquiri-los,ou até comprar em sebos,ou seja, só não lê quem realmente não quer e não tem interesse,acha perda de tempo rs.
Bruno Guerreiro
Sobre o Kobo da Cultura tenho que discordar... Até umas 4 semanas atrás, a Livraria Cultura estava com zero de estoque do Kobo Glo... a própria vendedora da Livraria (Marketplace) disse que tinha saído muito rapidamente, e que o tempo de espera estava em 6 semanas! Quando lançaram o Amazon Paperwhite o estoque se normalizou...
Daniel lucena
Se uma pessoa lesse um livro de finanças pessoas antes de optar por um financiamento de um automóvel, teríamos menos carros lotando as ruas, menas pessoas endividadas, isso é FATO! Não tenho carro porquê só tenho dinheiro pra pagar a prestação, e além do mais, isso não resolve meu problema!
Erick Mendonça
Fantástico. Talvez realmente não seja papel do jurídico intervir nesse caso, mas também não é papel deste intervir em vários outros e nem por isso o deixa de fazer. Cabe a nós cobrarmos do executivo para que os atuais projetos de desoneração incluam também os e-readers!
Murdock
Certamente a leitura deles se limita às piadas bobas inseridas em imagens do Chapolin.
Murdock
Em tempo, recentemente saiu uma matéria na Revista do Globo falando do abandono da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro. Abandono de sua conservação e dos usuários também.
Murdock
Não sei se e-readers facilitariam o acesso à leitura por mais baratos que fosse. Como foi dito no texto e nos comentários, muita gente não lê porque não quer, a leitura se limita aos 140 caracteres do Twitter e frases em imagens bobas do Facebook. De certa forma, livros de papel podem alcançar recantos menos favorecidos do país através de doações e bibliotecas comunitárias (um professor meu da faculdade, por exemplo, estava montando uma com doações numa cidade onde ele tinha casa, não lembro agora qual). Não acho que e-books mais baratos e e-readers doados levariam a leitura mais facilmente, ainda mais com as telecomunicações como estão aqui. Do meu lado, adotei e-books no smartphone mesmo por questões de saúde (precisava reduzir o peso da mochila) e me acostumei muito, qualquer lugar é bom pra ler, não existem mais filas ou engarrafamentos, estou sempre lendo. Curiosamente passei a ler menos em casa mas pretendo adotar um de papel em casa e o smartphone na rua.
daniellz
Concordo, vivemos nas cavernas e assim o governo quer que continue, um povo culto é um povo que não vota em ladrão (se houver algum honesto disponível, claro), e isso seria o fim da política brasileira.
Lex Aleksandre
Já está mais que demonstrado que a adoção de tablets em escolas mais atrapalha do que ajuda na aprendizagem dos alunos. O correto seria a utilização de eReaders que, além de ser uma ferramenta específica, não contém as distrações que retiram o foco do usuário para a atividade de leitura, são mais leves, não prejudicam tanto a visão quanto as telas LCD, são mais leves, mais práticos e possuem uma autonomia de bateria gigantescamente superior aos tablets. E o mais importante, o preço, se o governo desejasse seriam muito menor que qualquer tablet.
atnpessoa
De resto, concordo com o texto em tudo. Vivemos, sim, nas cavernas. Livrarias tacanhas com mentalidades ludistas, que não enxergam novos modelos de negócios. E na ânsia de continuar lucrando, tentam se prender à modelos arcaicos. Estão no mesmo patamar de muitos jornais impressos, que não sabem viver no mundo digital e reclamam da tecnologia.
josealonso.neto
“equipamentos para armazenamento e leitura de dados representados por texto.” Ou seja, um livro. :-)
RamonGonz
ótimo artigo e ótimo debate gerou nos comentários da gosto de ver :D
Rodrigo Fante
Concordo plenamente, acho que a motivação do texto é nobre e concordo plenamente com ela, mas cada coisa no seu lugar.
DevlonBR
Tenho que concordar com você em parte. O texto é totalmente baseado num desconhecimento da forma de funcionamento do Estado e no que está sendo tratado no processo em questão. Em primeiro lugar, o que a decisão e o agravo de instrumento estão interpretando é isso aqui: CF/88 Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: VI - instituir impostos sobre d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão. Ou seja, para o que nos interessa não podem existir IMPOSTOS sobre LIVROS e o seu PAPEL. Isso se chama imunidade. Existem uma regrinha bem básicas em Direito Tributário: Imunidades se interpretam restritivamente. A interpretação corrente é a de que livro é livro e papel de livro é papel de livro. Outros insumos não estariam alcançados pela imunidade em questão (tinta, cola etc). Existe algumas divergências quanto aos e-books, na medida em que eles exerceriam em relação ao livro a mesma função do papel (seriam um suporte). O problema é que o insumo imune é o PAPEL, segundo nossa constituição. O negócio é que parte da jurisprudência entende que EBOOK é LIVRO e estaria alcançado pela imunidade. E, por isso, existiriam posições conflitantes nos tribunais. O que as Procuradoras da Fazenda Nacional, que tem a obrigação de defender a arrecadação (por assim dizer), disseram é que não dá pra interpretar extensivamente o conceito de papel para abranger os e-books. Elas estão certíssimas! Se a decisão original foi dada nesses moldes, ela está errada. Isso é completamente diferente de achar que o Governo não quer dar isenções aos e-books e assemelhados e que isso não é uma política pública a ser aceita. Em primeiro lugar, quem deu a decisão final sobre a questão foi um magistrado que não tem nada a ver com Dilma Vana Roussef. Em segundo lugar, no contencioso, a Fazenda Nacional tem que se defender obrigatoriamente.
DevlonBR
Só tem um problema: Se o argumento da Fazenda Nacional no Agravo é no sentido de que a imunidade dos materiais de suporte aos livros deve ser interpretada restritivamente (assim como qualquer imunidade), o que precisaria ser modificado é a CF/88 e não o conceito de livro.
Rogério Santos
Sou obrigado a me retificar, pois é o que dá escrever com raiva. Aqueles que pretendem perpetuar-se no poder preferem a ignorância do povo, é fato. Também é um fato que nossos magistrados são despreparados quando o assunto é tecnologia e internet. Contudo, o que chamei de aberração jurídica, em verdade, parece ser um equívoco na minha maneira de interpretar o fato. O comentarista acima, atnpessoa, foi muito feliz em suas colocações. O problema não está na decisão em si, mas nos dispositivos legais que lhes serviram de base; anacrônicos e, portanto, incapazes de lidar com muitas questões atuais. O Projeto de Lei 4534/2012 visa preencher essas lacunas. Assim, se desejamos ver alguma mudança, devemos pressionar por sua votação.
Adriano Francisco Dos Santos
Concordo que o os e-readers são excelentes opções para leitura (eu mesmo quero comprar um, mas não mencionarei marcas), mas enquanto o valor de um livros digital seja o mesmo que um livro físico, ou mesmo apenas alguns reais ou centavos mais barato, eu continuarei comprando os livros de papel por que eu gosto do "do cheiro das folhas". E antes de defensores dos e- readers atacarem eu sei e entendo os custo de disponibilidades, acessos e manutenção para esse livros digitais serem vendidos. Mas pelo mesmo preço, minha opinião pessoal é que um livro é melhor :)
Rogério Santos
Que artigo excelente. Como bem disseram, concordo com tudo, inclusive as vírgulas. :-) Recentemente considerei a compra daquele Kindle mais barato, o de R$ 299. Fiquei seduzido pela ideia de ter livros à mão, num dispositivo leve e ainda marcar trechos de maneira rápida. Tudo parecia perfeito. Aí fui verificar o preço dos e-books, estabelecendo uma comparação com seus equivalentes físicos. Revolta, raiva e indignação, são as palavras que posso elencar. Como é possível que os livros digitais custem o mesmo que os físicos? Inclusive, em alguns casos, achei livros físicos mais baratos que os digitais. E o custo para imprimir, transportar, distribuir, armazenar e vender? É como se essas condicionantes afetassem o preço dos livros digitais, exatamente como influenciam o preço dos livros físicos. E aí me vêem com uma decisão estapafúrdia como essa. Um absurdo! Uma aberração jurídica que ignora qualquer razoabilidade e bom senso. Me questiono se tal entendimento nasceu da ignorância, ou por nos querer ignorantes. Provavelmente as duas respostas estão corretas. A primeira, porque nossos magistrados são despreparados para lidar com novas tecnologias e internet; a segunda, por razões óbvias que dispensam maiores comentários.
pryderi
Coloque uma novela num canal e um documentário da BBC no outro, qual programa terá mais audiência? Os políticos não precisam fazer esforço, basta prometer um emprego pro primo/cunha/nora e uns sacos de cimento.
pryderi
Sua análise é pueril. Fruto de um ardor por coisas tecnológicas que a impede de entender o mundo. As grandes livrarias não estão no tempo das cavernas, não são luditas nem tacanhas. É uma questão de lucro. Apernas lucro. Se os livros digitais chegassem sem essas medidas, eles teriam preços absurdamente competitivos. As livrarias como a Saraiva deixariam de fazer sentido. Milhões de reais sairiam das mãos deles.Por exemplo, quando saiu o primeiro filme do Sr. dos Anéis, a Saraiva comprou TODA a tiragem da Martins Fontes (editora que tem os direitos). No Rio de Janeiro, apenas a Saraiva e a Martins Fontes tinham o livro. Nem mesmo online se encontrava, e nenhuma das duas deu 2 centavos de desconto. Ok, que isso é dumping, mas vivemos no Brasil, onde tudo é possível. Livros digitais não têm motivo para ter o preço abusivo, já que alegam a respeito dos custos de impressão e, volta e meia, direitos autorais. Mas clássicos de domínio público, como Machado de Assis, Rousseau etc não pagam direitos autorais a ninguém (espertamente, a Martin Claret só trabalha com estes livros). Um código penal sem ser comentado pode ser baixado de graça, mas vai na Saraiva ou na Lumen Juris para ver o preço. Não, Bia, não é questão de serem luditas, é a ganância do empresariado brasileiro mesmo. A livraria cultura está indo pelo lado oposto porque é muito, mas muito difícil competir com a Saraiva, ainda mais depois que anexou-se à Siciliano. Ademais, quais livros digitais? De medicina? Didáticos? Ou os 50 tons de sacan... digo, 50 tons de cinza? E podemos ter livrarias e bibliotecas o quanto quiserem, não teremos mais e melhores leitores por isso. O que não falta é comentarista de blog que entra só para dizer "first", sem sequer ler o conteúdo, e nem vou tocar no assunto que mais de 50% dos alunos das universidades são analfabetos funcionais. Tudo isso é muito mais complicado que "A imensa maioria dos livreiros insiste em permanecer na época das cavernas."
atnpessoa
Pelo nossa legislação de hoje, isso realmente não é possivel, pois ela designa de forma clara o que pode ser considerado livro e não se pode fugir ou dar outra interpretação para texto tão claro. Consultar artigo 2º da Lei 10.753 [1]. O que se pode fazer é alterar o texto da lei para se incluir lá os leitores eletrõnicos e é o se propões a PL 4534/2012 (projeto de lei). Ele tem por objetivo a alteração da descrição do que pode ser considerado livro, incluindo os chamados ereaders: Artigo 2º, inciso 2º: São também equiparados a livro: III - equipamentos cuja função exclusiva ou primordial seja a leitura de textos em formato digital ou a audição de textos em formato magnético ou ótico, estes apenas para o acesso de deficientes visuais. Consultar a integra da alteração no portal da Câmara dos Deputados [2]. Apenas esclarecendo que, no texto alterado, a referência que se faz para àqueles que sejam apenas para o acesso de deficientes, ele está tomando os equipamentos destinados à audição de textos. O endereço para consultar a tramitação da PL: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=556891 [1] http://www.receita.fazenda.gov.br/legislacao/leis/2003/lei10753.htm [2] http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=1938E2836D2604F588D5C341ECD4FAE7.node1?codteor=1030378&filename=PL+4534/2012
Thanara Corrêa
Adorei o que você falou sobre o povo em geral, muitos gastam 30 reais em um boteco, famoso happy hour qualquer e se recusam a gastar isso a um livro, e lê-lo porque o desafio pode as vezes não ser comprá-lo e sim lê-lo. Só deixaremos de ter pessoas "comuns" quando aceitarem a importância da leitura periódica, nem que seja de um blog favorito, matéria interessante de um jornal e etc..
Igor Tibes Ghisi
Desculpem-me a crítica, mas o texto, longe de ser perfeito, chega a ser sensacionalista. Tomo como argumento texto da própria decisão, onde se lê que "...a extensão da imunidade sobre os leitores de livros eletrônicos... ...equivale a ampliar o alcance das disposições constitucionais vigentes... ...o que é vedado ao interprete" É bastante razoável dizer que "não há como se equiparar os e-readers ao papel destinado à impressão". Sou totalmente a favor da isenção total de imposto para e-readers, mas isso caberia ao executivo/legislativo. A referida decisão pouco tem a ver com a intenção da União em suspender estes tributos, como tenta induzir a autora.
Paulo Costa
Triste situação... Enquanto isso a Amazon registra resultados pífios bem aquém do esperado para suas operações no Brasil (com e-reader caro, quem vai comprar os e-books?). Não me surpreenderia se a Cultura divulgar resultado ruim para o Kobo aqui, vejo na loja física o balcão bem vazio, um ou outro curioso que foge do preço... Mas para quê e-reader né? Se o povo quer é "tábletchi" para entrar no "Feice" e jogar Angry Birds... vamos é conceder isenção para os "fabricados" no Brasil-sil... :(
Renan Oliveira Andrade
Apesar de bem colocadas, creio que as considerações do texto são um tanto unilaterais e parecem desconsiderar pontos de vista importantes... Vale a pena refletir sobre essa questão do conhecimento como instrumento de perpetuação do poder colocada pelo Gustavo Ventura. Evidenciado pelo viés do analfabetismo tecnológico da grande massa e pelo desinteresse político por uma educação e cultura com consistência e qualidade. Muitos autores se esquivam de disponibilizar suas publicações no formato digital. Creio que um dos principais temores em relação à popularização dos livros digitais seja que aconteça o mesmo que acontece atualmente com as músicas, vídeos, filmes, etc (exemplificado pelo PirateBay - http://thepiratebay.se/). Vale lembrar que estamos às vésperas de um ano eleitoral, ou seja, não veremos medidas que ao serem tomadas possam ser consideradas como impopulares. Mas falando em século XXI, é fato que a mudança já ocorre de forma maciça e em nível mundial... vale a pena ler o artigo (http://dowbor.org/2009/11/da-propriedade-intelectual-a-economia-do-conhecimento-outubro.html/)
Bruno Rodrigues
é a velha Historia: Se O Brasileiro se Tornar Culto e Inteligente a farra dos Políticos estará comprometida,aqui em SP as livrarias sempre estão vazias com 2 a 12 pessoas no máximo,enquanto os Cinemas ou qualquer outro lugar esta Cheio,o Brasileiro não gosta de ler no Geral,muitos não sabem mexer no Computador direito por preguiça de ler o que esta na Tela,imagina em um Livro,o que Brasileiro gosta de Ler é revista de Pornográfica e Fofoca de famosos e Novelas!
Mauricio F. Mateus
Comprei meu Kindle no quiosque da Amazon, no shopping Morumbi (SP). Como sabem, não é o melhor preço do mundo, mas é acessível (R$ 300,00, parcelado em 12x). Adoro ler, e o aparelho aumentou muito meu consumo de livros - inclusive por tirar a barreira do preço extorsivo dos livros (sem mimimi, gente: livro no Brasil é caro. Quando compro, ou é em sebo, ou no exterior). Hoje à noite, no trem e metro vi no mesmo vagão que eu 2 pessoas também lendo no Kindle. Um colega meu de trabalho comprou um Kindle Fire nos EUA e tá adorando. Governo e livreiros podem tentar, mas só vão conseguir atrasar a adoção pelas pessoas, mas inevitavelmente todos vão ter um.
Gustavo Ventura
Caramba, vou chover no molhado aqui dizendo que o texto é perfeito. Aliás, os textos da Bia Kunze são ótimos, dá prazer de ler. Quanto ao governo, o que comentar? Talvez a tristeza por acompanhar propagandas e mais propagandas eleitorais citando a "educação como prioridade", ao mesmo tempo em que jornais noticiam o completo abandono de escolas e a quase inexistência de bibliotecas. Já fui impedido de entrar em uma sob o argumento de que seria apenas para alunos que se identificassem como sendo da universidade. Dificultar o acesso à leitura é uma das "melhores" ações que governantes tomam para se perpetuarem no poder. Seja através da queima de livros durante a inquisição, ou pela queima promovida por nazistas, o objetivo é o mesmo: manter a população na ignorância é a melhor saída para que as coisas continuem do jeito que estão. Olha só, me veio à memória uma colaboração nesse sentido que ocorreu recentemente (http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2012/12/diretora-de-escola-de-ribeirao-preto-e-afastada-apos-queima-de-livros-novos.html). Livros? Pfff... coisa de nerd, o legal mesmo é ter seu carro!
Marcus Pessoa
Assim como o David, concordei até com as vírgulas.
Rafael Mariottini Tomazela
Eu mesmo quase nunca li. Na real, eu lia até, antigamente, mas o preço dos livros que eu queria, além da dificuldade de ficar carregando na minha mochila de escola, que já era apertada, era um ponto negativo. O resultado é que fiquei uns 3 anos sem ler nada. Agora peguei um Kindle e já li vários livros, não só pela facilidade de acesso à muitos livros de domínio público, mas porque ele é menor do que qualquer tipo de livro convencional, e é muito prático levar ele pra qualquer lugar. Acho que incentivar o uso de e-readers pode aumentar o consumo de livros aqui, o que é uma boa.
Eduardo Ferreira
Texto perfeito. Me impressiono como o STF consegue ter uma decisão dessas. É ridículo. Parecemos um país de velhos, que ainda estão conhecendo a tecnologia e que ao invés de usá-la para tornar a qualidade de vida da população melhor, preferem tomar medidas protecionistas, com medo do que as facilidades do meio digital podem acarretar aos negócios antigos e já antiquados. Estamos em 2013, mas o governo brasileiro agora que começa a entrar no século XXI, e com muita hesitação.
Igor Oliveira Antonio
Bia Kunze Garota sem fio =) Você não tem fio, mas eu me amarro em você rsrsrs S2 Otimo texto
Danilo Jorge
Certa vez fiz um comentario no post do Facebook de uma moça que cuidava da minha vó, nesse post ela dizia que estava com muito tédio sem fazer nada. Foi ai que comentei, falei para ela ler um bom livro. Sabe o que aconteceu em seguida? uns 25 amigos delas comentaram em seguida tirando sarro da minha sugestão. Tinha comentario falando que era ridículo eu dar uma sugestão dessas, que ler não presta, que era melhor ela fazer qualquer outra coisa fora ler, entre outras falácia. Todo mundo zoando... Vou falar o que? Definitivamente somos um país de neandertais
David M.
Não coloco meia vírgula no seu texto, perfeita a colocação, ao meu ver.
Kessler
Bom, são duas coisas bem diferentes, a imunidade constitucional garantida a livros e periódicos e uma desoneração. Mas não deixa de ser verdade: deveria ser uma prioridade do governo facilitar o acesso a tais dispositivos.
Uberdam Walker
Perfeitas as suas colocações, Bia Kunze. O grande problema do nosso país é a falta de cultura, e sendo assim, temos uma população alienada que mal sabe votar. Sem a popularização de livros, pelo meio que for, jamais teremos uma população suficientemente consciente para escolher melhor os que vão representá-los. Parabéns pelo texto.