Créditos: Folha de S.Paulo / Avener Prado

Nessa semana, o país passou a prestar mais atenção em testes feitos em animais, uma prática muito antiga, mas que vem ganhando cada vez mais rejeição ao passar dos anos. Não só cães, mas ratos, coelhos e diversos primatas são utilizados em pesquisas para remédios e cosméticos. Desde o fim dos anos 50, porém, uma dupla de cientistas ingleses já dizia que, no futuro, o uso de animais não aconteceria. Hoje, mais de cinquenta anos depois, a tecnologia já permite essa substituição?

Há quem defenda que sim e há quem diga que ainda não.

Esse assunto ficou em alta nesta sexta-feira por causa da denúncia e libertação dos 178 beagles que estavam no Instituto Royal, um laboratório que fazia testes com esses animais. Ele é credenciado junto ao Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) órgão do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e vale lembrar que, no Brasil, a Lei Nº 6.638, de 8 de maio de 1979, permite a vivissecção (ato de dissecar um animal vivo) em território nacional.

Sendo assim, os locais habilitados, como o Instituto Royal, não estão cometendo crime algum – a não ser, é claro, se estiverem maltratando os animais, um dos pontos comentados pelos ativistas que levaram os cachorros que estavam no laboratório. O Ministério Público de São Roque (SP) abriu uma investigação em 2012, mas ela ainda não foi concluída e, depois de duas visitas, “nenhuma irregularidade foi encontrada”, segundo o promotor Wilson Velasco Júnior contou ao G1. Sílvia Ortiz, gerente geral do laboratório, admite que testes são realizados, mas nega maus tratos e afirma que o local segue as regras e tem certificação da Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Também ao G1, Marcelo Marcos Morales, coordenador do Concea e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que o laboratório era o “mais controlado, o mais ético e mais regular, com conhecimento internacional”. Ele também alerta sobre os cães que foram resgatados, pois foram criados em local livre de germes e o contato com o mundo externo pode levá-los ao óbito.

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Dá para fazer testes sem crueldade?

Em 1959, William Russel e Rex Burch, cientistas ingleses, já se preocupavam com as condições e tratamentos oferecidos aos animais em laboratórios e realizaram um estudo sobre o tema. Dessa forma, eles criaram algumas normas que poderiam ser seguidas para que os animais não sofressem tanto. Assim, foram estabelecidos os “três Rs da experimentação animal”: Redução, Refinamento e Replacement (substituição).

No estudo, eles pediam que os experimentos fossem projetados da melhor forma para que o teste não precisasse ser refeito, poupando, assim, mais animais. O segundo ponto pedia para que os animais recebessem um tratamento adequado, para que a dor e o medo diminuíssem. O terceiro pedia a substituição dos animais sempre que fosse possível.

Naquela época, modelos virtuais não eram possíveis, então eles indicavam testes em plantas, micro-organismos e parasitas. Hoje, porém, a realidade tecnológica permite que cientistas substituam os seres vivos por simulações em computador, ou até por modelos criados in vitro.

Ray Greek, médico norte-americano contrário a testes em animais, disse, numa entrevista à Veja em 2010, que as pesquisas em animais não geram resultados construtivos e que o computador já poderia substitui-los, mesmo três anos atrás.

Não temos informações suficientes para criar 100% do corpo humano e isso não vai acontecer nos próximos 100 anos. Mas não precisamos de toda essa informação. O que precisamos é saber como e do que um receptor celular é constituído — isso já sabemos — e a partir daí podemos desenvolver, no computador, remédios baseados nas leis da química que se encaixem nesses receptores. Depois disso, a droga é testada em tecido humano e depois em seres humanos. Antes disso acontecer, contudo, muitos testes são feitos in vitro e em tecidos humanos até chegar em um voluntário humano.

Quase lá?

No começo de outubro, três cientistas levaram em conjunto o prêmio Nobel de Química por criar sistemas que conseguem simular processos químicos elaborados. O trabalho de Martin Karplus, Michael Levitt e Arieh Warshel permite, entre outras coisas, simular com precisão as reações químicas de drogas em seres vivos. Combinando física clássica e física quântica, o trio conseguiu desenvolver um sistema que mapeia milésimos de segundo de cada reação química. Dentre outras aplicações, é possível, com esses sistemas, que engenheiros farmacêuticos tirem muito mais dados do que outros tipos de pesquisa oferecem.

nobel quimica

Ou seja: sim, a tecnologia existe, mas ela ainda é cara, pois exige um computador excepcional.

A notícia boa é que não é a única alternativa.

Células tronco embrionárias e soluções criadas em laboratório são realidades que garantem resultados próximos dos esperados em pessoas, já que o tecido é humano e não animal. Existem também modelos de tecido humano criado por empresas. Esses materiais são tão parecidos com a pele humana que o próprio governo norte-americano o utiliza em testes. Além, claro, da possibilidade de usar cadáveres doados ou restos de tecido humano, que podem vir de cirurgias. E, mais simples ainda, o microdosing é um teste direto em voluntários, mas com baixíssima dosagem. Dessa forma, as pesquisas podem ser avaliadas diretamente no corpo humano e sem maiores consequências.

Nem todos os especialistas concordam que a tecnologia já possa substituir o uso de animais. Mas o passo dado com a pesquisa vencedora do Nobel é outro grande salto para a ciência e para o fim desse tipo de testes. Quem sabe, em alguns anos, não tenhamos alguma atualização da Lei de 1979 propondo benefícios para laboratórios que substituírem parcial, ou inteiramente o uso de animais por modelos virtuais ou in vitro?

Com informações: G1, io9

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Nicole Puzzi
Hoje, dia 21 de janeiro de 2014, posso afirmar que os beagles resgatados estão vivos, não colocou a vida de ninguém em risco e, principalmente, estão felizes e aprenderam a se alimentar sozinhos, coisa que não conseguiam.
Jennifer Biscarra Bellio
Cara Suélen Castilhos, duas sugestões: mais gentileza ao responder, por favor e pesquise você também e me mande dados de laboratórios onde esses métodos sejam realmente utilizados. Sugiro que pesquise em base de dados de publicações científicas!
Daniel Cauduro
Ellen Monteiro A cadeia ta cheia de assassinos...
Linka de Hyrule
Meu Deus... esse povão que se diz ser a favor dos animais estão dizendo nada com nada, apenas pela minoria dizer tua opinião, já acham que são a favor de maus-tratos com os animais. Pera lá, tenham calma! E concordo com o Clube de Ciências.
Claudete Pauletti Cotrim
PODEMOS DEIXAR DE FAZER PESQUISAS CLÍNICAS? “Não devemos perguntar se é certo ou não o uso de animais (e de seres humanos) nas pesquisas clínicas e científicas. A pergunta deve ser: podemos prescindir dessas pesquisas? Qual o ônus dessa decisão? Em que outras condições devemos realizá-las? As pesquisas foram responsáveis pela mudança de curso da civilização, trazendo curas e inovações nas ciências. As descobertas de vacinas, antibióticos, soros e medicamentos para HIV, câncer, doenças raras e outros, certamente não seriam possíveis sem os ensaios clínicos. É muito improvável que avanços nas áreas de biomedicina, biotecnociência, cosmetologia , farmacocinética, engenharia genética, farmacogênese etc. fossem feitos, sem os estudos clínicos e científicos”, explicou Dra. Conceição Accetturi é médica Infectologista Presidente da SBPPC – Sociedade Brasileira de Profissionais de Pesquisa Clínica . Estamos vivendo um momento que merece respeito, reflexão, mas, acima de tudo, informação e esclarecimentos. Não existe ciência se não houver divulgação. Será que as pessoas “resgatadoras” dos animais ou que aplaudem tal atitude, pensaram nas consequências maléficas que poderão (ou não) acontecer com eles, sem o devido acompanhamento e tratamento pós-testes necessários e obrigatórios por lei? A Lei Arouca é a mesma lei que pune e proíbe os abusos contra os animais e atos que possam submetê-los ao sofrimento.
Claudete Pauletti Cotrim
Mayara Almeida de Macedo não abaixe o nível da conversa senhora!! Seja polida, educada isto é um painel de troca de informações,não de ofensas pessoais.
Alex de Figueiredo
Lenara Prata Que legal hein... vai matar uma pessoa... que bonito.. e em nome de deus? rsrs Mas não vamos ficar nas críticas Lenara... veja este vídeo, ele explica muito bem a questão dos testes com animais, o por que não há alternativas (pelo menos atualmente). http://www.youtube.com/watch?v=vWy_hziZYL8
Alex de Figueiredo
Carlos Ferreira Amigo, foque no conteúdo e não nos detalhes gramaticais, pois ele não fez mais que uma referência a um meme que é muito popular na internet. O "ta serto" é uma ironia!
@
Não sou pesquisador, mas pensem: Quando o pesquisador se aproxima do cão, por exemplo, esse animal vai lamber a mão e balançar o rabo de contentamento pela sua atenção. Nessa hora o pesquisador deve pensar: "isso, vem comigo, vou envenená-lo e ficar observando seu sofrimento". Isso se chama inocência. Vocês acham que os cães não sofrem. Quem não acredita, assista o filme "sempre ao seu lado". Assisti e fiquei muito emocionado ao descobrir que foi fato real.
Karina Possa Abrahão
Ainda não acho que é possível substituir totalmente, mas quem sabe um dia.... http://prismacientifico.wordpress.com/2013/10/30/por-que-modelos-computacionais-nao-podem-substituir-os-modelos-animais/
Max Junior
Ou faria como uma empresa de cosméticos inglesa que estava usando em pessoas miseráveis em troca de um pagamento substancial é a mesma coisa de pessoas que vendem órgãos, não fazem isto para salvar a vida de outrem mas sim pelo pagamento. É a exploração da miséria
Julia Ribeiro
Mayara Almeida de Macedo concordo com vc mais pq não testar nestes marginais espalhados por ai??
Julia Ribeiro
Muito dó dos pobres animais se eu fosse vereadora tentaria aplicar está lei bjos amados e me sigam no instagram Julya Ribeiro.
Daniel Cauduro
Jairo Thiago a cadeia está cheia de humanos que estupram ou assassinam, então não é necessário ser feito testes em pessoas de bem... entendes? E seria uma pena mais dura do que o lixo das leis Brasileiras....
Valmir Junior
Pra um modelo de computador calcular com precisão os efeitos químicos de certas substâncias no organismo, teria q se ter mapeado todo o processo de funcionamento do corpo humano e suas reações com o ambiente, fato que com a tecnologia e conhecimento humano atual é impossível! E mesmo após mapeado o funcionamento minucioso de todo o corpo humano e como ele interage com os componentes do ambiente ao seu redor, ainda há um outro porém: nenhum organismo vivo, por mais semelhante que seja ao outro, é igual. Logo haveriam q ser considerados milhares de modelos de desvio padrão e ser criados percentuais de erro nesse modelo, sendo este último outro fato que tornaria impossível ou talvez até inviável, com a tecnologia e conhecimentos atuais, o uso de modelos computacionais. Juntando todo o poder de processamento de dados existente hoje no planeta, ainda representaria apenas cerca de 1% do processamento necessário para rodar tal modelo, o inviabilizando novamente!
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