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Hackeando o próprio corpo: biohackers inserem placas, ímãs e outros dispositivos em si mesmos

Tudo isso para monitorar a própria temperatura ou "sentir" campos magnéticos

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5 anos atrás

Dentro da medicina, tecnologia e inovação sempre foram vistas como meios para trazer novas formas de salvar vidas. Nos dias de hoje, contudo, novos métodos e práticas prometem não apenas salvar, mas melhorar a sua qualidade de vida. Alguns deles já foram oficializados e são realizados de forma simples – vão desde melhorias diretas, como cirurgias oculares que resolvem miopias, hipermetropias e astigmatismos, até procedimentos um tanto mais estéticos, como rinoplastias e implantes de silicone.

Tim Cannon com o Circadia implantado em seu braço esquerdo, ainda com as suturas aparentes

Tim Cannon com o dispositivo Circadia, para medir a temperatura do corpo, implantado em seu braço esquerdo

Alguns passos antes da aprovação médica estão os biohackers. Parentes próximos dos modificadores corporais, os hackers do corpo estão interessados em não apenas vestir tecnologia, mas inseri-la dentro do próprio organismo para criar novas sensações e permitir o monitoramento de índices como batimentos cardíacos e temperatura. Os projetos desses biohackers ainda chocam bastante a sociedade, em especial porque são feitos de forma independente. Médicos não são autorizados a realizar procedimentos de modificação corporal a não ser que exista uma necessidade médica de fazê-lo, e sempre seguindo diretrizes aprovadas pelos conselhos de medicina de onde clinicam.

Tim Cannon, por exemplo, queria que as medições de temperatura do seu corpo fossem feitas de forma constante, gerando relatórios que permitissem que ele pudesse perceber a baixa do seu sistema imunológico e agir de forma preventiva. Para isso, ele inseriu em seu braço esquerdo uma caixinha com sensores, uma placa lógica e uma bateria que pode ser carregada via wireless. O kit completo se comunica com smartphones ou tablets, oferecendo a ele um relatório sobre a sua saúde, que pode ser inclusive utilizado por um médico para melhor avaliar a situação do paciente.

Como a prática ainda não é aprovada pela FDA – por uma série de motivos, inclusive o fato de que a bateria pode vazar no corpo de Cannon, e a dose de solução alcalina liberada por ela poderia ser fatal! – o biohacker precisou fazer o implante por conta própria, com ajuda de um profissional de Body Modification. As imagens são fortes para os mais sensíveis, pois mostram pontos ainda frescos e o dispositivo bem visível sob a pele, dando a impressão de que pode rasgar.

No vídeo abaixo, Cannon mostra o gadget sendo carregado. Caso não queira ver a pele do rapaz toda esticada, arroxeada e com pontos aparentes, é melhor não assisti-lo:

O kit é conhecido como Circadia 1.0, uma iniciativa de código aberto que promete revolucionar a forma como a tecnologia se integra com a ciência médica, e é implantado entre a pele e os músculos do biohacker. LEDs coloridos servem até para o deleite de Cannon, que se diverte iluminando a tatuagem que fica sobre o implante. A fabricação é feita pela Grindhouse Wetware, um coletivo de programadores, engenheiros e entusiastas do biohack que desenvolvem o equipamento com o objetivo de criar “dispositivos seguros, acessíveis, com tecnologia de código aberto”.

Na ponta dos dedos

Para saber mais sobre a iniciativa, o Tecnoblog conversou com alguns biohackers que também fizeram alguns implantes por conta própria, em uma modalidade mais branda, que se contenta com a inserção de imãs poderosos sob a pele, permitindo que os hackers sintam ondas eletromagnéticas. No geral, esses implantes são feito em algum dos dedos, e os biohackers alegam que passam a ter um “sexto sentido”, pois conseguem, por exemplo, perceber com o corpo quando um dispositivo eletrônico está ligado, devido à vibração.

Peyton e seu dedo com o ímã implantado, ainda com curativos

Peyton e seu dedo com o ímã implantado, ainda com curativos

Peyton Rowlands, de 19 anos, é um deles. Ele documentou em vídeo todo o processo do implante (assista se aguentar ver sangue e cortes, esteja avisado), feito por ele mesmo em casa, sem anestesia, submergindo o dedo em gelo por cerca de 20 minutos antes de realizar a incisão e posicionar o ímã de neodímio por sob a pele.

Sobre realizar o procedimento de forma independente, ele conta que fez uma extensa pesquisa sobre assepsia, para garantir que as chances de infecção fossem mínimas, e diz acreditar que não se trata de um procedimento invasivo o suficiente para ser muito perigoso. Em uma foto detalhando a incisão, que aparece um pouco avermelhada, ele explica que aquilo fora resultado de um “erro técnico”, pois ele removera um torniquete segundos antes do devido. Afinal, com conhecimentos teóricos de anatomia e pequenas cirurgias, não era mesmo esperado que tudo ficasse 100%, mas Peyton declara não se importar –  ele acredita que o implante lhe oferecerá uma nova opção sensorial, que permite compreender a tecnologia de uma forma sinestésica, por meio de campos magnéticos.

Caleb Nelson, de 20 anos, já está em um estágio mais avançado do que Peyton. Graduando em ciência cognitiva, ele tem um implante magnético em seu dedo há 10 meses, e diz que, como pesquisador, está muito interessado em entender como o cérebro incorpora novas sensações e informações sensoriais. “De um ponto de vista subjetivo, o que eu consegui melhorar bastante foi o meu entendimento de como o magnetismo funciona. Uma coisa é aprender sobre isso na teoria, e outra completamente diferente é ser capaz de estender a mão e efetivamente sentir campos magnéticos”, conta ele. Outra vantagem é conseguir saber se um dispositivo eletrônico está ligado sem precisar nem mesmo conferir a luzinha do LED – o dedo com o ímã de neodímio dá a dica de quando há ou não eletricidade circulando.

Aplicação na medicina

Pode parecer um experimento maluco, como se fosse uma nova modalidade de modificação corporal, mas o que esses biohackers estão tentando fazer pode ser uma realidade em breve. A doutora Ivone da Silva Duarte, pesquisadora e docente de cirurgia plástica do curso de medicina da Uninove, conta que apesar de não haver ineditismo na prática dos rapazes – afinal, inserir objetos debaixo da pele é algo que os praticantes de body modification já fazem há um bom tempo – existe sim potencial para o desenvolvimento de dispositivos subcutâneos para ajudar no monitoramento de pacientes, na administração de medicamentos de forma constante e controlada e até no armazenamento de informações sobre o perfil do paciente para o caso de ele ficar inconsciente. “Com a robótica e a nanotecnologia evoluindo cada vez mais, diferentes tipos de dispositivo poderão ser produzidos e implantados em curto espaço de tempo”, especula a doutora.

No entanto, vale frisar que os procedimentos executados por Caleb e por Peyton, sejam eles com assistência de um profissional de modificação corporal ou por conta própria, não são recomendados pelos médicos.  No caso de Cannon, ainda há o agravante da possibilidade de vazamento de componentes químicos. “O equipamento é de fabricação caseira, não dá pra ter garantia da qualidade do material, da vedação, durabilidade do produto e nem das baterias em particular. Há necessidade dos materiais serem compatíveis com o uso no corpo humano e atenderem a critérios de segurança”, lembra a médica. A inclusão de um material que não atenda às especificações de segurança dentro da medicina pode levar a infecções, que, se agravadas podem requerer a retirada do material. A cicatriz, no entanto, dificilmente desaparecerá.

Ciborgue oficial

Um paralelo interessante é comparar as iniciativas dos biohackers com o caso de Neil Harbisson, reconhecidamente um ciborgue. Neil implantou, com auxílio médico, um sistema que permite a ele ouvir um som para cada tipo de cor reconhecido pela câmera acoplada à sua cabeça. O tom musical de cada tonalidade é ouvido por Neil através de indução óssea, permitindo que ele, que é daltônico, passe a perceber o mundo em cores, ainda que ele “enxergue” apenas em preto e branco.

Neil Harbisson, reconhecidamente um ciborgue, com o seu Eyeborg

Neil Harbisson, reconhecidamente um ciborgue, com o seu Eyeborg

Neil provavelmente conseguiu enquadrar a sua necessidade de implante com as diretrizes médicas, pois a instalação do equipamento, apelidado de Eyeborg, foi feita em um hospital. Ele explica que não considera mais o equipamento algo “extra” em seu corpo, mas sim uma nova parte dele, pois o software de reconhecimento de cores e o seu cérebro passaram a trabalhar em conjunto, fazendo com que ele até mesmo sonhe em cores (ainda que cores musicais). “Nosso conhecimento vem dos sentidos. Se pudermos estender os sentidos, vamos consequentemente aumentar nosso conhecimento”, acredita o ciborgue.

Esse futuro de novas sensações e extensões tecnológicas do nosso corpo não parece muito distante. Você toparia implantar aí um upgrade na sua “máquina”?

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