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Assassin’s Creed IV e sua jornada por mares dantes navegados

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6 anos atrás

Há mais ou menos um mês, a Ubisoft me enviou o código para baixar Assassin’s Creed IV: Black Flag no PS3 e me lembro que, depois disso, o dia começou a passar bem devagar. Depois do que pareceu ser umas 30 horas de trabalho, fui correndo para casa para iniciar o download e… mais 10 horas de espera. No dia seguinte, mais uns bons minutos para instalar – arrisco que tenha sido cerca de uma hora.

Estava difícil começar a jogar Assassin’s Creed IV. Quem diria que terminá-lo seria ainda mais demorado.

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AC4 foi lançado no final de outubro para consoles e meados de novembro para PC. Nele, é contada a história do pirata Edward Kenway, que está em busca de fama, dinheiro e mulheres, não necessariamente nessa ordem, no mar do Caribe. Ele também é o avô de Connor Kenway, o protagonista de AC3, e pai de Haytham Kenway, que era um personagem muito mais legal de jogar que Connor.

Capitão Kenway

Com o fim da saga do carismático Ezio Auditore em Revelations, o preenchimento da lacuna de protagonista com Connor não parece ter sido a melhor ideia. Enquanto Ezio era um cara divertido, para dizer o mínimo, Connor era frio, com uma teimosia arrogante que irritava e muito. Lembrava um pouco o comportamento de Altaïr, o primeiro protagonista da franquia, mas Altaïr tinha seus motivos para sê-lo e eles convenciam. Já Connor não convenceu. Haytham, por outro lado, era muito melhor construído e as poucas horas de jogo controlando-o foram infinitamente mais felizes nesse sentido.

Parece que a Ubisoft sabe disso e colocou o pai desse cara, Edward, para comandar o sexto game da franquia. Edward tem seus defeitos, e eles são graves: é egoísta, ganancioso, oportunista, inconsequente e com uma índole altamente duvidável. Mas nenhum deles anula o carisma do personagem, tampouco suas qualidades, que ficam mais evidentes conforme suas prioridades mudam e ele amadurece ao longo do jogo.

O que vemos em Edward, aliás, é o que esperamos de um pirata: um cara que vive sob suas próprias leis e faz de tudo para atingir seus objetivos, seja lá quais eles forem. Por isso, ele, um inglês que largou a mulher para seguir o sonho de ser pirata (e ficar rico e esfregar na cara da família dela que ele deu certo na vida), se envolve na trama entre Assassinos e Templários de forma totalmente acidental e acaba por ajudar os Assassinos no esquema da troca de favores.

Mas isso ainda não faz com que Edward seja um personagem tão envolvente quanto os primeiros protagonistas que passaram pela franquia – pessoalmente, até coadjuvantes como Sofia Sartor ou Yusuf Tazim, de Revelations, me despertaram emoções mais intensas.

Falando neles, os coadjuvantes de AC4 passam praticamente despercebidos. Uma pena; Adé, o braço-direito de Edward no comando do navio Gralha, é um ex-escravo que poderia ter sido muito melhor explorado, por exemplo. Os personagens mais legais, mas ainda pouco explorados, são os históricos, como os piratas Barba Negra, Calico Jack, Mary Read e Charles Vane, entre vários outros. Nos outros jogos, figuras históricas têm papeis importantes, mas acabam sendo mais uma curiosidade que personagens tão envolventes ou intrigantes.

Novidades

Várias vezes, ouvi pessoas falando que AC4 é o Assassin’s Creed definitivo, por unir as melhores partes dos outros jogos em um só. Não sei se compartilho dessa opinião. De fato, AC4 traz os elementos que os outros tinham de melhor. Mas, em outros termos, parece um novo jogo, algo próximo de um spinoff que emprestou o nome da franquia.

Vamos tentar destrinchar isso melhor. Pensando nas adições mais importantes a cada título, temos tanto melhorias mecânicas quanto de elementos de cenário presentes em AC4. A estrela é o mar aberto com suas batalhas navais, apresentadas em AC3 e que praticamente carregaram o jogo nas costas. Não houve economia na hora de colocar os barcos na água: você passa a maior parte do tempo navegando entre as diversas ilhas do Caribe, de modo que as cidades se tornam pouco importantes diante da imensidão azul que pode ser explorada.

O mapa é o maior da franquia até agora e por isso a viagem rápida não é apenas bem vinda, como necessária. A maior parte do tempo, você encara as bruscas mudanças de clima em alto mar e as brigas com outros barcos e fortes numa boa; faz parte da diversão. Mas, depois de várias horas de jogo, você pode simplesmente querer chegar logo ao próximo ponto da missão principal e cruzar o mapa com a tripulação cantando, apesar de agradável, pode ser entediante.

Há uma infinidade de vilas a serem descobertas e ilhas a serem exploradas, com vários colecionáveis em cada uma e missões paralelas para curar sua saudade de terra firme. Mas nada de muito novo em relação aos outros AC. É no mar que ficam as maiores novidades: dá para perder várias horas entre ataques e roubos de embarcações inimigas, dominações de fortes, mergulhos em meio a destroços de outras embarcações e caças de animais aquáticos. Acertar um arpão numa baleia jubarte (e todas as caçadas do jogo, na verdade) dá um tipo de satisfação que te faz ficar em crise consigo mesmo, mas a a mecânica dessa parte é terrível e a mira não faz muito sentido, então uma sensação de vitória é inevitável. Mas não dá para assistir a baleia ser levada para dentro do barco pingando sangue sem pensar “qual a necessidade disso?”.

Que dentes grandes você tem!

Que dentes grandes você tem!

A necessidade disso é adquirir suprimentos para fazer upgrades no Gralha, seu navio, seja para melhorar o ataque, a defesa ou só o visual. Eles não são necessários para progredir na história, mas é bom seguir a recomendação “você deveria melhorar o Gralha antes de iniciar esta missão”; será bem difícil de concluí-la sem fazer um upgrade no barco.

E essa é a parte mais chata do jogo, na minha opinião. Se a construção da história em AC é o que mais me fascina (demorei meses para superar o final de AC2 e uma parte de mim ainda acha que aquilo tudo é verdade), tê-la travada pela necessidade de fazer melhorias no meu barco é um saco. Ainda mais quando essas melhorias demandam algumas horas a mais de gameplay caçando embarcações e roubando armazéns até conseguir a quantidade de madeira, metal, dinheiro e outros elementos para fazer o maldito do upgrade e seguir em frente.

Provavelmente, a culpa disso me irritar tanto é da própria franquia; até AC4, os upgrades eram bem desnecessários. Dava para fechar o jogo sem fazer uma única melhoria. Ganhar dinheiro, idem, já que não era necessário fazer upgrades. Essa nova mecânica adicionou, obrigatoriamente, várias horas ao jogo e obstáculos à progressão rápida.

História

Se o seu encanto com a série reside, assim como o meu, nos momentos em que a história “afeta” o mundo real, AC4 não irá te impressionar muito.

Edward passa boa parte do jogo em busca de algo (que não darei mais detalhes para poupar spoilers) que tem a ver com todo aquele papo de Aqueles Que Vieram Antes e tal, mas isso é deixado de lado a maior parte do tempo e o que fica na cabeça é que você está matando piratas e soldados o tempo todo porque sim; o objetivo final não é tão nobre quanto vingar a morte da família, por exemplo. Mas dá para entender, já que ele vai atrás dessa coisa pelos seus próprios motivos e, como já falamos, Edward não é motivado pelas coisas exatamente certas, pelo menos a princípio. Se você procura o sentido da vida em AC4, dificilmente irá encontrá-lo.

Quanto aos momentos no presente, a troca de subject – agora, o “voluntário” é você mesmo, em primeira pessoa – não trouxe muita empolgação, mas o ambiente, que é a Abstergo Entertainment, é mais divertido: você pode passear por toda a empresa, procurando por easter eggs, vendo action figures, apresentações institucionais e encontrando personagens dos outros jogos, como Shaun e Rebecca. Nesse “arco”, a sensação não é de estar encaixando peças e fazendo tudo ter sentido, mas de “vamos terminar isso logo para eu voltar para o Caribe”.

Fiquei com a sensação de que o terreno foi semeado em AC4 para que as revelações realmente grandes do universo venham nos próximos títulos. Particularmente, sinto falta daquela sensação de mind blown que outros jogos da série me deram.

Jogabilidade

Nos controles, nenhuma grande novidade em relação aos anteriores. As batalhas me pareceram mais difíceis e, ainda que dê vontade de arremessar o controle longe toda vez que Edward leva um golpe por trás por não ter se defendido a tempo, isso dá um realismo que faltava antes: às vezes, é preciso interromper uma sequência para não morrer em combate.

As batalhas navais ganharam novidades: além dos upgrades, há mais opções de personalização de navio e armas. Me parece que também está mais fácil de controlar o navio, mas talvez isso seja do hábito: navega-se pouco em AC3 em comparação com AC4.

O protagonista também continua agindo mais ou menos como quer quando você corre pela cidade, isto é, subindo em lugares que não deveria, deixando de pular quando você precisa que ele o faça e se recusando a largar a borda do muro em levar uma espadada às vezes. É um problema clássico da franquia e que, pelo visto, não deve ser corrigido tão cedo, assim como os bugs e glitches frequentes. Quando você morrer por ter ficado inexplicavelmente preso na borda do navio inimigo e ter sido golpeado até a morte, ou um soldado que só anda sem sair do lugar te avistar e causar a dessincronização, lembre-se disso. Esses erros são bem frequentes e acabam atrapalhando a experiência do jogo e torrando a paciência.

Gráficos

O que o mundo de AC4 tem de grande, tem de bonito. Esteja avisado de que você pode se pegar admirando a paisagem virtual enquanto o sol se põe e o céu fica num degradê bonito no mar, ou pensando em como as formações rochosas formam uma bela moldura de Kingston, ou os diversos tons de verde das diversas plantas e musgos que crescem nas árvores, ou as formações de corais subaquáticas e a luz do sol brilhando como cristal quando entre pela superfície, ou as nuances na roupa de Edward molhada e como a luz reflete de uma maneira bonita quando ele sai da água, ou, se der sorte, uma lua alaranjada refletindo na água do mar.

Os gráficos ultra realistas são tão lindos quanto o Caribe parece ser nas suas fotos de férias. E não só na paisagem, apesar dela ser mais evidente: a riqueza da textura da pele dos personagens é perceptível até in-game, se você ajeitar a câmera para focar nisso.

Mas, nesse ponto, não são totalmente perfeitos. Por exemplo, os cabelos de Edward não balançam com a naturalidade dos da Lara Croft em Tomb Raider com o TressFX ativado. As animações também não são tão polidas, especialmente nas falas, apesar dos movimentos dos corpos serem bem naturais.

Em outras palavras, enquanto os gráficos são estonteantes no cenário, nos personagens eles são “apenas” muito bonitos. Mas acredito que esse seja mais um detalhe cosmético que algo que realmente interfira na experiência.

Vale lembrar que joguei o de PS3; o vídeo abaixo mostra algumas das diferenças entre as diversas versões de consoles:

Trilha sonora

O áudio é tão impecável quanto nos jogos anteriores, ajudando a criar todo tipo de clima: tanto os momentos tranquilos na praia, com o barulho da água e dos pássaros, como as épicas fugas de Edward e uma tensão imobilizadora mesmo quando não há o que temer. Outro destaque fica por conta dos efeitos sonoros, já que os barulhos de perfurações, seja a lâmina oculta em soltados ou o arpão acertando um tubarão-martelo, são – não há outra palavra para dizer – suculentos.

A dublagem original também é muito boa, com sotaques bem colocados e interpretações satisfatórias. Nenhuma excepcional, com exceção do Barba Negra (Mark Bonnar), mas dão o tom certo na história. Em português, é uma tristeza. As vozes não casam muito bem com os personagens, as interpretações são risíveis e a tradução, digna de Sessão da Tarde.

O maior trunfo no áudio do jogo, no entanto, fica com a cantoria da tripulação no barco. É difícil de entender as letras perfeitamente por causa do inglês arcaico carregado de sotaque (ponto para a ambientação perfeita), mas é bem divertido ouvi-las e, eventualmente, você vai acabar entoando os refrões junto, mesmo que no embromation, enquanto ruma a seus objetivos.

Novas músicas são desbloqueadas quando você captura as páginas que voam pelas cidades, mas todas podem ser ouvidas no aplicativo do jogo ou no vídeo abaixo:

Segunda tela

Seguindo a tendência de uso de segunda tela nos games, vale comentar que AC4 tem um aplicativo para iOS e Android. Ele tem uma série de recursos que não o tornam indispensável, mas dá para aproveitar em alguns momentos, como para ver melhor o mapa e administrar sua frota. Em todo caso, é tão necessário utilizá-lo quanto evoluir e administrar sua frota, isto é, nem um pouco.

WorldMap-copie

Conclusão

Confesso: eu quase desisti de AC4. O jogo é meio enrolado, demora para mostrar a que veio e os tropeços na mecânica, sempre presentes na série, chegam a atrapalhar tanto a experiência que se tornaram intoleráveis para mim. Não é o jogo que eu esperava e foi difícil superar a frustração e seguir em frente, esperando que me revelasse o que eu buscava mais para o fim.

Apesar do que eu possa ter deixado parecer, é importante frisar: o jogo não é ruim. Pelo contrário; é extremamente divertido, com missões envolventes (e outras nem tanto), pouco repetitivas e infinitas paralelas, caso a história principal não lhe seja o bastante – e ainda há os online, criados pela própria Ubisoft, que funcionam para toda a comunidade como um evento.

AC4 traz momentos de uma complexidade que a série não tinha e foram muito bem vindos, mas, de modo geral, a evolução fez com que não parecesse o Assassin’s Creed que estamos acostumados a maior parte do tempo, especialmente pelos percalços na história principal. Para quem é fã da série, esse pode ser um ponto negativo, mas não insuperável ou fatal. Para quem não é, a boa notícia é que não é necessário ter jogado os anteriores para se inteirar dela.

Aliás, o fato de juntar todos os principais pontos positivos dos anteriores com elementos tão novos é o que faz dele uma experiência única, mas, ainda assim, familiar, mesmo que sem o encanto que Altaïr e Ezio providenciavam. Mas, convenhamos, é hora de desapegar desses personagens e seus ambientes. O veredicto, portanto, é que AC4 vale as suas dezenas de horas de jogo, mesmo depois de concluída a missão principal.

Ficha técnica

  • Plataforma: Xbox 360, Xbox One, PS3, PS4, Wii U, PC

  • Lançamento mundial: 29 de outubro de 2013 (consoles), 19 de novembro de 2013 (PC)

  • Preço sugerido: R$ 199,99

  • Desenvolvedor: Ubisoft Montreal

  • Distribuidor: Ubisoft

  • Requisitos mínimos: Windows Vista SP2, 7 SP1 ou Windows 8, processador Intel Core2 Quad Q8400 de 2,6 GHz ou AMD Athlon II X4 620 de 2,6 GHz , 2 GB de RAM, placa de vídeo Nvidia Geforce GTX 260 ou AMD Radeon HD 4870, 30 GB de espaço livre

  • Requisitos recomendados: Windows Vista SP2, 7 SP1 ou Windows 8, processador Intel Core i5 2400S de 2,5 GHz ou AMD Phenom II x4 940 de 3,0 GHz, 4GB de RAM, placa de vídeo Nvidia GeForce GTX 470 ou AMD Radeon HD 5850,=

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