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Canal Nostalgia corre o risco de ser deletado do YouTube por problemas de copyright

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6 anos atrás

A Fox está em vias de tirar do ar um dos canais de maior sucesso do YouTube no Brasil. Na semana passada, o conglomerado de mídia reclamou com o Google por causa de um vídeo do Canal Nostalgia (certamente você já ouviu falar dele) sobre Os Simpsons, uma produção original da Fox. Como em todos casos de disputa de direitos autorais, o YouTube permitiu à Fox aplicar um strike contra o canal. Com este, são três no total. Na terça-feira, dia 21, pode ser que a página deixe de existir se a emissora não voltar atrás.

Por trás do Nostalgia está Felipe Castanhari, de 24 anos. Atualmente ele mora em Balneário Camboriú, mas é de São Paulo. Foi na capital paulista, há dois anos, que ele iniciou um canal para comentar sobre praticamente tudo que lhe dava uma certa sensação de nostalgia: Dragon Ball Z, Sonic e Sai de Baixo, para citar apenas alguns dos conteúdos mais assistidos. Conseguiu 861 mil assinaturas no YouTube. Os vídeos foram vistos mais de 33 milhões pelos internautas. O Canal Nostalgia está recheado de superlativos. Poderia muito começar com aquela vinheta de "E agora mais um campeão de audiência", tão comum em programas da Globo há algumas décadas.

Pelo menos sete pessoas estão envolvidas no canal. Três delas vivem diretamente dos rendimentos gerados por propagandas durante os episódios. Afinal, dá trabalho produzir material tão bem editado e apurado.

Episódio do Nostalgia sobre Power Rangers

Episódio do Nostalgia sobre Power Rangers

Entretanto, tudo isso pode desaparecer da noite para o dia.

Content quê?

Primeiro precisamos entender como funciona o sistema de detecção de direitos autorais do YouTube. O site de vídeos emprega uma tecnologia chamada Content ID. Cada upload (todos!) é verificado em busca de sinais gráficos e também sonoros que repliquem uma enorme base de dados. Sim, o YouTube recebe essas amostras das maiores empresas de mídia do planeta – em especial do cinema e da televisão dos Estados Unidos.

Cada vez que o YouTube pega material de terceiros, ele pode se comportar de diversas maneiras, dependo das diretrizes estabelecidas pela dona do conteúdo. Em alguns casos, o vídeo simplesmente fica inacessível em alguns países. Também existe a possibilidade de exibir comerciais antes do vídeo e na página dele, mas cujos rendimentos vão diretamente para o detentor do conteúdo.

No caso do Nostalgia, as primeiras reclamações foram feitas pelo grupo Time Warner, dono da empresa Turner, que por sua vez está relacionada com o canal Cartoon Network (complicado, eu sei). A companhia reclamou de dois vídeos em que Castenhari fazia montagens com As Meninas Superpoderosas e com Johnny Bravo – ambos são produtos do Cartoon.

Ele respondeu a notificação da Time Warner, mas não obteve retorno algum. Primeiro strike, portanto. Embora fossem dois vídeos, conta como uma coisa só porque as notificações chegaram no mesmo dia.

O segundo strike foi feito pela Fox. O Content ID detectou a exibição de uma abertura de Os Simpsons realizada pelo diretor Guillermo del Toro. Foi uma reclamação automática. O dono do canal fez um contra-argumento, mas como resposta a Fox decidiu manter a reclamação e ainda aplicar o strike.

Tanto no primeiro caso, do Cartoon Network, quanto no segundo, da Fox, os grupos de mídia manualmente fizeram a reclamação ao sistema do YouTube depois que o Content ID detectou o conteúdo de terceiros. É assim que funciona: a remoção automática não resulta em penalização, mas a manual sim.

Novamente Os Simpsons

Notificação da Fox sobre conteúdo de terceiros

Notificação da Fox sobre conteúdo de terceiros

O terceiro strike veio na semana passada. Castanhari me contou que o vídeo do Nostalgia sobre Os Simpsons foi reeditado para retirar a abertura de Guillermo del Toro. De acordo com ele, o vídeo que originalmente tinha 45 minutos passou a ter 33. Só que ele não sabia que aquela reclamação anterior da Fox tinha resultado em strike. A regra do YouTube é clara: três strikes fazem um canal ser encerrado. Com a mais recente reclamação, ele imediatamente ficou impedido de postar novos vídeos e diversos deles desapareceram da página.

É neste limbo que o Nostalgia está desde o dia 14 de janeiro. Ninguém sabe dizer se a página continuará no ar ou deixará de existir.

Sem resposta da Fox

Eu conversei com o Felipe Castanhari, o criador do canal, por mais de uma hora na noite de quinta-feira para tratar desse assunto. São muitas questões e a discussão a respeito do conteúdo na Era Digital é deveras importante.

Primeiro de tudo, ele ressaltou que não obteve nenhuma resposta da Fox sobre o terceiro strike. Não se sabe se a empresa vai retirar a reclamação. Enquanto isso, ele montou um segundo canal no YouTube como backup caso tudo dê errado. O /oficialnostalgia já tem mais de 250 mil inscritos. É bastante, ainda mais considerando-se que essa marca foi conseguida em menos de uma semana. Ainda assim, não chega a um terço do que tem o canal oficial.

Também está em curso uma campanha entre os youtubers brasileiros para tentar salvar o canal. Entre os envolvidos está Rafinha Bastos, que tem um programa de humor no canal Fox brasileiro. Izzy Nobre, ex-colunista do TB fez seus comentários sobre o uso de conteúdo de terceiros. Até o canal Away se manifestou sobre o assunto.

Um dos representantes do YouTube no país, Federico Goldenberg postou no Twitter que está atuando para manter o canal no ar.

Fair use

O cerne da questão está no tal do fair use (uso justo) de conteúdo de terceiros. Trata-se de uma lei dos Estados Unidos que permite usar o material criado por outras pessoas ou empresas para tecer comentários, como críticas ou resenhas. Durante a nossa conversa, Castanhari sustentou em diversos momentos que Nostalgia faz uma homenagem a todos os filmes, séries etc. que são citados no canal. São sempre comentários positivos, de acordo com ele. "Acho que hoje em dia o YouTube é uma ferramenta de divulgação absurda. A partir do momento que eu estou expondo algo, estou influenciado de maneira direta as pessoas a consumirem aquilo", conta Castanhari.

E tem mais: ele acredita que o Nostalgia faz reviver certas marcas que estavam esquecidas. "Eu tenho amigos que vieram me falar: não assistia tanto Os Simpsons, mas depois do seu vídeo, passei a assistir mais ou comprei o DVD".

"Mas a Fox não pediu essa divulgação". Essa foi a minha resposta quando Castanhari apresentou seus argumentos. O youtuber disse que é justamente aí que entra o bom senso. Ele questiona se a Fox pode pegar um conteúdo que está ajudando uma de suas marcas e deletar. "Você está provocando uma base de fãs [do canal]. Muitas pessoas estão extremamente putas com a Fox. A galera está se revoltando. Por mais que não tenham pedido, posicionar-se contra isso é dar um tiro no próprio pé", complementa.

Ele também lembrou que não existe um conceito certinho sobre o tal fair use do conteúdo de terceiros, no que eu lembrei que em algumas situações, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, as empresas de mídia devem seguir restrições dos donos dos eventos. Na veiculação de conteúdos jornalísticos, a regra pode ser tão restritiva quanto exibir um pequeno porcentual do evento ou alguns poucos minutos. Nada mais, já que algumas emissoras pagam verdadeiras fortunas pela exclusividade desses eventos.

Perguntei se seria mais prudente pedir autorização às detentoras dos conteúdos antes de fazer os vídeos. Afinal, é assim que agem algumas emissoras de TV para evitar problemas depois. "Não acho que eu tenha que pedir autorização porque não uso o conteúdo por completo", disse Castanhari. É bem verdade que não usa um episódio inteiro de Os Simpsons, mas usa pequenos clipes de diversos episódios para ilustrar os vídeos. De acordo com ele, não seria possível fazer o Nostalgia sem esses trechos. E mais: eles não têm o contato da Fox para pedir a tal autorização. O youtuber ainda explicou que o Nostalgia optou recentemente por usar no máximo 15 segundos de cada clipe, para evitar problemas depois.

YouTube e as grandes empresas de mídia

Castanhari também faz uma crítica à forma como o YouTube se relaciona com as empresas de mídia. O Content ID deixa todo o poder para essas companhias. O Google não entra em disputas com elas, no objetivo de proteger os youtubers quando necessário. A gente já sabe que uma parcela da indústria de mídia ainda está presa no século XX, portanto esse poder todo, na opinião de Castanhari, cria um desequilíbrio – e o lado mais fraco é justamente o dono do canal.

Vale lembrar que a chegada dos novos consoles traz ferramentas nativas para gravar os gameplays, tornando muito mais fácil o compartilhamento desse conteúdo na internet. Só que o Content ID começou a pegar esse material. Acabou que diversos youtubers especializados em jogos perderam vídeos com milhões de visualizações. Alguns canais foram tirados do ar. Tudo isso porque o YouTube não estava preparado para lidar com essa nova forma de as pessoas se apropriarem de um conteúdo (sim, jogo de videogame é conteúdo) que está presente em um produto final.

Os covers do Nick Ellis desapareceram do YouTube e a conta dele foi encerrada

Os covers do Nick Ellis desapareceram do YouTube e a conta dele foi encerrada

Aqui no Brasil, outro caso célebre é do blogueiro Nick Ellis. O projeto 366 Músicas mantido por ele consistia em gravar uma canção por dia, não importando onde estivesse, para postar no YouTube. Em algumas viagens que fiz a trabalho, lembro de ver o Nick preocupado em transportar o ukulele dele para os hotéis, determinado a cumprir o projeto em 2012. No fim de 2013, o YouTube percebeu que havia uma série de covers na conta dele e decidiu encerrar a conta.

Nick já alegou diversas vezes por meio do Twitter que eram homenagens – e mais que isso, eram covers distantes das músicas originais. Ainda assim, não teve conversa. O Google achou mais prático tirar o conteúdo do ar. No entendimento do YouTube, é como se os covers fizessem concorrência ao material original.

Como você pode ver, a discussão vai se ramificando em diversas frontes. De minha parte, confesso que não tenho uma opinião formada. Ambos os lados (os produtores e os detentores de conteúdo citado) têm bons argumentos.

Nunca mais citar a Fox

De toda a forma, Castanhari me garantiu que o ideal seria a Fox permitir a exibição de trechos de materiais dela no Nostalgia.

Se não for possível, tudo bem, ele não se importa em nunca mais citar títulos da companhia. O fundamental mesmo é salvar o canal. Num dos cenários vislumbrados por ele, a Fox retiraria o strike, ele apagaria os vídeos relacionados a produções da empresa e fica por isso mesmo. Uma pena, já que a Fox produz tanta coisa legal, mas faz parte do jogo.

A Warner pode virar esse jogo

Neste domingo, alguns dias depois da nossa conversa, o criador do Nostalgia postou no Twitter que está negociando com a Warner. Pode ser que a empresa retire o primeiro strike. Mesmo que a Fox não se pronuncie sobre o assunto, esse gesto permitiria salvar o canal – pelo menos até outra empresa decidir fazer alguma notificação.

 

No fim da noite de domingo, o Felipe confirmou por email que tem uma reunião na segunda-feira com representantes da Fox e da Warner para conversar sobre o Nostalgia. Ele disse que vão negociar a retirada dos strikes e que as duas empresas "estão demonstrando boa vontade".

Eu entrei em contato com os escritórios brasileiros da Fox e do Google/YouTube, mas eles não indicaram porta-vozes para conversar sobre o assunto. Seria interessantíssimo entender melhor qual é o ponto de vista da Fox, a detentora do conteúdo, e do Google, o dono da plataforma que permite ao Nostalgia existir. Caso as empresas mudem ideia, as portas do Tecnoblog estão abertas para conversar sobre o assunto.

Enquanto o conteúdo continua no ar, dê play abaixo para assistir a um dos meus episódios favoritos: Cavaleiros do Zodíaco! Bom demais.

Começa a tocar "Façaaaaaaaa elevar... Vlapt, vlum! O cosmo do seu coração... Plef, pa, pshoin!" e eu já fico arrepiado. Sdds Rede Manchete.

Atualizado em 20/01 00h33.