Você já deve ter ouvido uma daquelas grandes teorias da humanidade, como a que diz que, se o mar é feito de água e sal e a bolacha de água e sal também é, o mar é uma grande bolacha. Essa talvez seja uma dessas, mas Noah Dyer, um ativista anti-privacidade, acredita que o caminho para um mundo melhor está no fim total da privacidade.

Dyer está tentando arrecadar dinheiro no Kickstarter para provar que sua teoria está correta. Ele quer juntar 300 mil dólares em doações para ter sua privacidade sacrificada por um ano. Para isso, ele pretende contratar uma equipe de filmagem, comprar câmeras e servidores que aguentem essa quantidade de dados para que sua vida seja exposta ao mundo 24 horas por dia, durante 365 dias.

Segundo a crença de Dyer, ao expor tudo para o mundo, você passa a não ter mais nada para esconder de verdade e essa é uma grande contribuição para a sociedade. Será possível, por exemplo, prever crimes e fazer com que os políticos parem de brigar por poder e influência e foquem em resolver os problemas, além de terem seus próprios segredos revelados – então podem esquecer de desvio de verbas, entre várias outras coisas.

Se o projeto de Dyer for financiado, ele terá câmeras expondo sua vida de maneira desconfortável até para quem assiste, como quando ele for ao banheiro ou tiver que educar seus filhos. Ou seja, além de expor sua vida, vai também fazer isso com a de seus filhos, familiares, amigos, enfim, de pessoas próximas que não necessariamente estejam de acordo com sua visão.

Acho difícil de concordar que o fim da privacidade seja a solução dos problemas com privacidade que enfrentamos hoje em dia, com governos e empresas armazenando dados sobre nós, traçando nossos perfis, vendendo nossas informações e acompanhando nossos passos. Pouco interessa a maneira que você cria seus filhos ou quanto tempo fica no banheiro. Parece que Dyer mirou no Edward Snowden, mas acertou no Pedro Bial nesse ponto.

Ele mesmo concorda que a ideia é radical, mas está disposto a testá-la, abrindo mão de um direito que está na Declaração dos Direitos Humanos (pode olhar lá, artigo 12) e expondo sua vida à sociedade e seus julgamentos, de modo que ela possa cobrá-lo de absolutamente tudo.

Além de radical, é contraditória. Como ele diz no vídeo da campanha, “as pessoas com essas informações [as suas] são humanas, às vezes tomam decisões com consequências negativas não-intencionais que afetam milhões de pessoas”. Imagine, agora, milhões de pessoas tendo acesso à informação de milhões de pessoas. Todo mundo seria vigia um do outro? Who watches the watchmen?

Enfim, a solução para a questão da privacidade não chegará meses depois da revelação de que há esquemas gigantes de espionagem internacional por parte dos governos, contando com a ajuda de empresas nas quais sempre confiamos. Mas, se você concorda com a ideia de Dyer ou quiser saber mais sobre o que ele considera válido para ter um mundo melhor, dê uma olhada no site da campanha.

Com informações: Engadget

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Lucas Corrêa
Ah sim, entendi :D
MPChock
Sim, cheguei a ler 1984 e, dentro do que imagino, não há espaço para uma ditadura totalitária. A ideia, é dentro de uma instituição democrática e com altíssimo grau de isenção, termos essa inexistência de probabilidade. É por isso que digo que isso é uma ótima saída, mas uma completamente utópica.
Lucas Corrêa
MPChok, chegaste a ler 1984? Um órgão centralizando essas informações teria um poder absurdo de controle.
João Silverado
Leu tudo o que eu disse ou respondeu na ignorância? O povo com ou sem armas não diminui a violência, o povo com ou sem privacidade não vai ajudar em nada tbm, pois se as pessoas podem ver tudo o que acontece no mundo através de câmeras por exemplo, só iam tbm adiantar alguma possível atitude de ira, como no exemplo do marido prestes a ser traído ou do funcionário prestes a perder o emprego. Tirar a privacidade não vai ajudar o mundo no momento atual em que vivemos, isso que eu quis dizer.
João

todo mundo pode ter privacidade, agora armas não, logo... um livro desnecessário o seu

Joaomanoel
todo mundo pode ter privacidade, agora armas não, logo... um livro desnecessário o seu
MPChock
Eu concordo em partes com ele. A ideia pode parecer assustadora em princípio, mas seria uma das maneiras de se prevenir e controlar crimes de forma extremamente eficiente. Discordo que compartilhássemos isso com outras pessoas, mas imagino que um órgão centralizado (e quiça, com o tempo, automatizado) e que fosse fosse vistoriado constantemente (sem que as vistorias tivessem acesso as gravações) seria uma ótima forma. O problema é que um banco de dados assim, com informações sobre tudo e sobre todos, seria INCRIVELMENTE cobiçado. Meu problema com essa ideia é que ela é, de certa forma, uma grande utopia. O grau de desapego e de isenção exigidos das pessoas e empresas que tocariam uma tarefa dessas é inimaginável pra mim.
Keaton
"Todo mundo seria vigia um do outro? Who watches the watchmen?" Legal, ele quer criar um mundo de pessoas sem vida própria que tem de cuidar da vida dos outros... bem interessante para a turma do Facebook.
Josiel Hen
"...pouco interessa a maneira que você cria seus filhos ou quanto tempo fica no banheiro. Parece que Dyer mirou no Edward Snowden, mas acertou no Pedro Bial nesse ponto..." há toda uma pauta a ser tratada caso ele ponha em ação esse projeto(?), e esse é o ponto usado para uma potencial critica? forçado. Não sei até que ponto a falta de privacidade sera benéfica para a humanidade, mas que existe um beneficio nisso eu não posso negar... hoje em dia não podemos confiar em ninguém, seja familiares ou mesma nas empresas que se dizem "confiáveis", a ideia de quebra de privacidade é uma boa, mas esta sendo visionada de forma não tanto pratica e pouco complexa (não é como 2+2) por ele, mas não de todo errado.
João Silverado
Uns diziam que o povo sem armas iria diminuir a violência. Agora vem esse cara com essa. Eu tbm acredito que se todas as pessoas no mundo pudessem saber o que as outras estão fazendo, caso queiram saber, poderia ajudar a evitar alguns problemas de violência por exemplo. Mas só alguns, pois iriam criar outros problemas. Um marido desconfiado poderia ver a mulher dando bola pra outro cara no ato, e não meses ou anos depois de estar sendo chifrado. Um funcionário poderia saber que o chefe está entrevistando um candidato para substituí-lo, sabendo de antemão que será demitido. E muitos outros problemas que é só pensar e saber que esta falta de privacidade vai acabar trazendo outros tipos de problemas. Fora os fanáticos por reality shows. Nunca mais sairiam de casa pra ficar acompanhando a vida de outras pessoas. Sem contar que tal proposta afetaria os cidadãos comuns. Chefes de estado nunca aceitariam tal coisa, ou mostrariam apenas o que poderia ser filmado e visto pelas pessoas, mais ou menos igual qdo mostra o caso de um político que teve emails vazados (de propósito claro) e no conteúdo destes vazamentos vemos uma pessoa amável, preocupado com a família, com a avó do amigo que não vê a tempos, entre outras cenas de novela pra entreter a plateia. Resumindo, ter ou não privacidade é uma questão muito mais séria do que apenas ter um leve pensamento sobre o assunto e já dar o veredito. Esta mudança deve vir acompanhada de muitas outras que, baseado na bagunça que é o nosso mundo atual, não trará benefício nenhum para o cidadão.
3-6-9

Pelo visto idiotice é igual zoeira: não tem limites.

Sam86
Pelo visto idiotice é igual zoeira: não tem limites.
Juan Lourenço
Se nem o voto secreto no Congresso é concenso de ser positivo*, imagina acomapnhar 24h da vida dos políticos (focando só neles no momento, nem vou me ater a bizarrice de fazer isso com uma pessoa comum) * http://www.oene.com.br/os-limites-da-transparencia/
Caleb Enyawbruce

sem noção... nem preciso entrar em detalhes, mas sou contra

RamonGonz
sem noção... nem preciso entrar em detalhes, mas sou contra
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