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Com aproximação dos EUA, nasce uma nova chance para a internet em Cuba

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5 anos atrás
AP Photo/Javier Galeano

AP Photo/Javier Galeano

Ainda na Guerra Fria, os Estados Unidos iniciaram uma política econômica sobre Cuba que duraria pelo menos 50 anos. Apenas agora os yankees resolveram se desapegar dessa relíquia de 1960, reatando relações diplomáticas e flexibilizando o embargo econômico. Os carros soviéticos que hoje circulam em Cuba são reflexos dessa arcaica política norte-americana que também se reflete na tecnologia e em como esse país se relaciona com a internet.

Pesquisas estimam que aproximadamente 25% da população cubana têm acesso à internet. Mas trata-se de uma internet lenta, censurada e limitada. A maior parte dos cubanos conectados navega em uma versão especial aprovada pelo governo, como uma intranet. O conteúdo em geral limita-se a um sistema de e-mail, uma enciclopédia, materiais e revistas educativas, sites cubanos e alguns sites estrangeiros.

“A internet em Cuba está parada nos anos 90.”

Quando visitou Cuba em 2004, o executivo do Google, Eric Schmidt, escreveu que a internet em Cuba estava parada na década de 1990. Sem dúvidas, podemos dizer que a internet começou a engatinhar mesmo em 2007 e está aprendendo a caminhar desde 2011. O gráfico abaixo mostra o crescimento divulgado pelo governo, que não conta as conexões semi-clandestinas por satélite através de celulares com planos contratados em outros países:

O crescimento das conexões em Cuba, segundo o próprio governo

O crescimento das conexões em Cuba, segundo o próprio governo

No mapa dos cabos de fibra óptica, Cuba também é uma ilha

No mapa dos cabos de internet, Cuba estava ilhada até 2012

No mapa dos cabos de internet, Cuba estava ilhada até 2012

No mapa de cabos submarinos, podemos ver um fruto do embargo que ajuda a explicar a situação da internet cubana. De todos os cabos que passam pela região, apenas um não desvia a ilha. O cabo de 1.600 km de comprimento chama-se ALBA-1, está operando desde 2012 e é resultado de uma parceria entre Cuba, Jamaica e Venezuela, numa tentativa de promover a integração da América Latina.

De todos os cabos de fibra óptica que passam por Cuba, apenas um não desvia o país.

É claro que isso não significa que a internet chegou à Cuba apenas em 2012. Em 1996, a empresa estadunidense Sprint passou a oferecer uma conexão sem fio de 64 kb/s ao governo cubano. Mas é inegável que o embargo dos EUA, a falta de investimento e a tentativa do governo de controlar a informação, formaram o tripé que atrasou o desenvolvimento da internet em um país com mais de 11 milhões de habitantes.

O cabo ALBA-1 é fruto da parceria entre Cuba e Venezuela

O cabo ALBA-1 é fruto da parceria entre Cuba e Venezuela

Em 2009, Obama autorizou que a empresa estadunidense TeleCuba Communications instalasse um cabo submarino entre Flórida e Havana. No entanto, o governo cubano rejeitou a oferta e preferiu trabalhar com a Venezuela no projeto do ALBA-1.

A China, parceira econômica de Cuba, se comprometeu a prestar assistência para ajudar no seu desenvolvimento econômico e social, o que despertou certas esperanças na população cubana — todos sabemos que os equipamentos de rede chineses são reconhecidos mundialmente e que a China possui especialização e experiência na construção de infra-estruturas de comunicação, apesar de também manter a grande maioria da sua população sem acesso à internet.

Em junho de 2013, a estatal cubana ETECSA anunciou que ofereceria conexões domésticas até o final de 2014. Mas estamos em dezembro e não encontramos notícias sobre isso.

Novo acordo permite teles norte-americanas em Cuba

Mais do que uma embaixada, os Estados Unidos poderão, em breve, colocar suas empresas para operar na ilha caribenha. E as gigantes das telecomunicações estão de olho no potencial do mercado de internet no país que garante uma vida digna para seus cidadãos, mas em 2014 ainda não possui serviço 3G.

O novo acordo entre EUA e Cuba fortalece as possibilidades, mas não garante uma disposição universal de desburocratização para as conexões. O embargo econômico e o boicote visto no mapa dos cabos submarinos são fundamentais, mas não explicam sozinhos o atraso cubano. As diversas investidas de órgãos como a CIA contra o regime cubano fez com que seus dirigentes tomassem precauções que extrapolaram a censura.

Castro e Obama aumentam as chances da internet em Cuba (Reuters/Kai Pfaffenbach)

Castro e Obama aumentam as chances da internet em Cuba (Reuters/Kai Pfaffenbach)

A atenção do governo cubano dedicada à repressão online é tanta que, em 2010, o WikiLeaks vazou uma mensagem da diplomacia norte-americana em que os agentes comentavam que o regime tinha mais medo dos blogueiros do que dos dissidentes “tradicionais”.

Parceiro cotado para fornecer as conexões: EUA.

A partir de agora, se houver boa vontade dos dirigentes cubanos, o parceiro mais cotado para estabelecer conexões com a ilha são os EUA. Logo depois dos países anunciarem ao mundo que estavam voltando a se falar, a Casa Branca já se manifestou sobre o ingresso dos EUA no mercado de internet cubano:

“Será autorizada a exportação comercial de certos produtos que contribuam com a capacidade dos cubanos se comunicarem com pessoas dos Estados Unidos e do resto do mundo. Isso inclui a comercialização de dispositivos de comunicações, softwares, hardwares e serviços (…) Será permitido que provedores de telecomunicações estabeleçam os mecanismos necessários em Cuba, incluindo infraestrutura para oferecer serviços de internet.”

Os indicativos expostos na reaproximação entre os dois países também abrem caminho para que o Estado cubano execute, mesmo que com atraso, o plano de oferecer conexões domésticas através da estatal ETECSA em parceria com empresas dos Estados Unidos. Esta opção é mais provável pois permite que as empresas norte-americanas prestem serviços diretamente à ETECSA, com acompanhamento mais próximo e rigoroso das autoridades cubanas.

Casos como o de Snowden mostram a contradição dos EUA.

A abertura de espaço para os norte-americanos atuarem na internet cubana levanta suspeitas de muitos que defendem a autonomia de Cuba. Isso porque, embora o presidente Obama afirme que busca aperfeiçoar as relações para dar mais poder ao povo cubano, a contradição é evidente no que diz respeito ao acesso à internet. Nos EUA, casos como o de Edward Snowden mostraram ao mundo que o governo atua incessantemente com controle de informação, espionagem e quebras de privacidade desde a Guerra Fria.

É evidente que a internet está batendo na porta cubana. Com as possibilidades que se apresentam, fica cada vez mais difícil para as autoridades ignorarem o “toc toc” que em breve pode virar um arrombamento. Seja como for, estamos ansiosos para dizer aos cubanos – assim como para todos os cidadãos do mundo: bem vindos à internet!

Com informações: Casa BrancaTeleGeography, Freedom House, The Internet in Cuba, Granmaa, The Miami Herald.

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