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Por que Satoru Iwata mudou meu jeito de jogar videogame (e de encarar meu trabalho)

Um exímio “gente como a gente”.

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4 anos atrás

Satoru Iwata

Talvez você não se recorde de ter ouvido este nome, mas Satoru Iwata certamente influenciou sua vida em algum momento — especialmente se você gostar de jogos de videogame. Iwata, cujo corpo faleceu de câncer no último sábado (11), foi a linha de frente da Nintendo durante os últimos 13 anos.

Longe de ser um daqueles casos de pessoas que morrem e viram super-heróis, Satoru Iwata teve de fato uma vida inspiradora não apenas para os “gamers”, mas para qualquer pessoa que gosta do que faz e deseja entreter o mundo a partir disso. Em meados de 1980, o japonês de Kyoto iniciou seu contato com a Nintendo ao entrar na HAL Laboratory, empresa subsidiária da companhia, fazendo freelas de programação. Um exímio “gente como a gente”.

Antes mesmo de sua formatura em Ciência da Computação, foi o responsável pelo lançamento do clássico Pinball, para Nintendinho, em 1983. O sucesso do título somado à genialidade de Iwata garantiu sua ascensão para o posto de CEO da HAL Laboratory em pouco tempo.

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Se você teve um NES, um Super Nintendo ou um 64, certamente esbarrou em alguma produção Iwatística pelo caminho. Depois de ganhar nos créditos o título de programador principal da série Kirby, produzir e lançar Pokemón Stadium (1998) e Super Smash Bros. (1999), Satoru Iwata foi de vez para a “Big N” e se tornou chefe da divisão de planejamento da empresa, e seu sucesso no cargo lhe rendeu a promoção para presidente, em 2002, substituindo Hiroshi Yamauchi.

Apesar de parecer uma progressão de cargo previsível, vale lembrar que a Nintendo teve, por décadas, somente presidentes da família Yamauchi, fazendo com que Iwata se tornasse o quarto CEO e primeiro na posição a não ter vínculos de parentesco com os fundadores da gigante do entretenimento. Foi aí que o novo presidente entrou no bonde (andando) do GameCube, que não tardou a estacionar, e do sucesso GameBoy Advance.

“Visionário” é um título dado para muitos, mas poucos de fato o merecem.

“Visionário” é um título dado para muitos, mas poucos de fato o merecem. Entretanto, Iwata foi uma dessas pessoas que nunca se acomodaram com o clássico e confortável. Apesar de eternamente presa em suas franquias clássicas e de sucesso, como Mario, Zelda e Pokémon, a Nintendo precisava de doses cavalares de frescor, de tempos em tempos, e foi graças a ele que a empresa conseguiu andar para frente e se tornar pioneira em tecnologias que mudaram a forma do mundo jogar videogame.

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Com o dedinho de Iwata na presidência, foi lançado em 2004 no Japão o Nintendo DS, primeiro console portátil a possuir duas telas e conectividade Wi-Fi, que possibilitava disputas locais, e que vendeu mais de 140 milhões de unidades ao redor do mundo. A inovação tecnológica do portátil, que permitia também a retrocompatibilidade com jogos do GameBoy Advance, seu irmão mais velho, explodiu cabeças e deu trabalho para a Sony e seu PSP.

Não suficiente, em 2006 o mundo conheceu o Nintendo Wii, console doméstico que colocou a Nintendo de volta no posto de líder de mercado no segmento, o que não ocorria há mais de dez anos. Veja bem: se hoje você joga videogame sem utilizar as mãos, muito provavelmente essa tecnologia foi inspirada a partir da revolução do mercado após a manobra ousada de Iwata na liderança da Nintendo; com o advento do Wii Mote e do WiiConnect24, as concorrentes diretas da companhia precisaram correr para alcançá-la. E foi a partir dessa revolução que a Nintendo fez um gordo pé de meia ao apresentar, em 2011, sua nova geração de consoles: o Wii U e o Nintendo 3DS.

E os últimos projetos do presidente ainda reverberarão por algum tempo, haja vista que a próxima geração de consoles da Nintendo já foi anunciada sob o codinome de “Nintendo NX”. É de se esperar que, nos próximos anos, as sementes plantadas por Iwata voltem a florescer.

Desde 2002, Iwata foi o “cérebro” da empresa que popularizou os videogames, mas não se pode dizer que ele esteve “por trás” dos grandes projetos. Isso porque demonstrava se orgulhar de suas produções e, principalmente, se divertir com elas, apresentando seus Nintendo Directs e pedindo que por favor, entendêssemos suas novas criações.

Não houve, durante o tempo em que me entendo com os games, profissional tão fantasioso, mas que falasse tanto a língua de seu público quanto Satoru Iwata.

Embora eu mesma, muitas vezes, tenha criticado o posicionamento “cabeça-dura” da Nintendo por insistir sempre nesse bairrismo desenfreado, com seus jogos exclusivos para seus consoles, admito que não houve, durante o tempo em que me entendo com os games, profissional tão fantasioso, mas que falasse tanto a língua de seu público quanto Satoru Iwata. Apesar de muitas empresas terem trabalhado duro para conseguir “profissionalizar” seus serviços, jogos, gráficos e consoles, Iwata dirigiu ao longo dos últimos anos uma empresa que, mesmo enfrentando dificuldades por não acertar tanto em suas apostas, jamais perdeu o quê de infância que gerou e pariu tantos viciados em videogames por aí.

E é exatamente disso que os jogos, os consoles, a tecnologia e o mundo precisam. De profissionais que até pareçam não se levar a sério, mas que façam seus trabalhos da melhor forma possível, entregando qualidade e, principalmente, se divertindo sempre com isso. Descanse em paz, Iwatinha.

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