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Por que a Dell está disposta a pagar US$ 67 bilhões pela EMC

Se aprovado, esse será o maior negócio da história no setor de TI

Emerson Alecrim Por
4 anos atrás

O mercado de PCs encolheu. Encolheu tanto que brigar para liderá-lo já não faz sentido. É necessário rumar o navio para outros mares. Não é fácil navegar por águas inexploradas, mas é isso ou encalhar na praia. Como um bom capitão, Michael Dell vem tentando transformar a companhia que tem o seu nome em uma gigante de serviços. O que ninguém esperava é que essa mudança de rumos fosse levar ao maior negócio da história no setor de TI: na segunda-feira (12), a Dell anunciou a compra da EMC por US$ 67 bilhões.

A figura de Michael Dell

A Dell foi fundada em 1984, quando Michael Dell ainda estava na faculdade. Seu estilo inovador de fazer negócio, que incluiu principalmente a criação de canais de vendas diretas ao consumidor, transformou a companhia em uma gigante internacional no segmento de PCs. O negócio ia tão bem que Michael Dell se deu ao luxo de abandonar a liderança da empresa em 2004 (apesar de ele nunca ter se afastado totalmente).

Michael Dell reassumiu o posto no início de 2007 com a missão de restaurar o prestígio da companhia. Durante a sua ausência, as ações da Dell chegaram a ter mais de 30% de desvalorização. O retorno trouxe algum resultado, mas a Dell não voltaria a ser a mesma: uma série de obstáculos veio na sequência, inclusive o início da era dos dispositivos móveis, segmento que a Dell até tentou explorar, mas sem obter sucesso.

Após um longo período enfrentando pressão de investidores, diminuição de receita, quedas nas bolsas, investigações de órgãos reguladores, entre outros problemas, Michael Dell tomou uma decisão radical: em fevereiro de 2013 ele fez da Dell uma empresa de capital fechado, ou seja, uma sociedade cujas ações não são negociadas em bolsas de valores.

Michael Dell

Michael Dell

Essa manobra foi possível porque Michael Dell contou com o apoio da Silver Lake, uma empresa de private equity (tipo de fundo que investe prioritariamente em companhias não listadas nas bolsas). Ambas as partes pagaram juntas US$ 13,65 por ação na recompra dos papéis. Cerca de US$ 25 bilhões foram gastos nesse processo.

Ao anunciar a decisão de transformar a Dell em uma companhia de capital privado, Michael Dell salientou que essa medida ajudaria a empresa a se focar em recursos que podem alavancar os negócios de seus clientes. Assim, de cara, a afirmação nada mais é do que aqueles típicos discursos clichês do segmento corporativo, mas lá no fundo a mensagem apontava para a decisão de tornar a Dell uma prestadora de serviços de TI.

Todos esses esforços já eram visíveis, mas se tornaram ainda mais depois do fechamento de capital. Um ano após a decisão, a Dell já tinha um leque mais significativo de negócios envolvendo software, cloud computing e storage, por exemplo.

É provável que a aquisição de algum grande nome do segmento de serviços ou infraestrutura estivesse nos planos de Michael Dell há muito tempo, mas, com as ações da Dell em queda livre, muito dificilmente o conselho da companhia aprovaria um negócio desse porte. Porém, estando longe da pressão dos acionistas, Michael pôde passar os últimos dois anos observando atentamente o que se passava no mercado para decidir se valia a pena fazer uma jogada tão ousada.

Um negócio pra lá de arriscado

Bota ousadia nisso aí! Primeiro porque a Dell não tem US$ 67 bilhões em caixa (a empresa em si não vale nem metade disso). Segundo porque a EMC já teve dias melhores, digamos assim. Terceiro porque, nas circunstâncias atuais, fusões envolvendo grandes empresas de TI são vistas com grande desconfiança pelo mercado, como se essa fosse uma estratégia de negócio ultrapassada.

O pagamento será, como consequência, uma operação complexa. A Dell ofereceu aos acionistas da EMC US$ 33,15 por ação, o que leva ao valor de US$ 67 bilhões. Para suportar essa conta, a Dell pretende usar uma combinação de ações ordinárias de Michael, da Silver Lake e de outros investidores, financiamentos (principalmente), algum dinheiro em caixa, entre outras medidas.

Servidor Dell

Agências especializadas em investimentos e fusões estão um tanto perplexas: como a Dell conseguiu financiamento? A Sanford C. Bernstein, por exemplo, estima que o negócio fará a companhia assumir dívidas na ordem de US$ 45 bilhões. A perplexidade fica maior se levarmos em conta que a Dell já tem dívidas na casa de US$ 12 bilhões.

Parece que os movimentos de Michael Dell são friamente calculados, por outro lado. O executivo explicou que, desde que o capital da Dell foi fechado, a companhia vem conseguindo diminuir a sua dívida expressivamente. Contando com esse ritmo, Michael espera que a maior parte da dívida relacionada à EMC seja paga em até dois anos.

Todo mundo sabe que a Dell precisa se reinventar para continuar tendo nome forte no mercado, mas ninguém tem certeza sobre o caminho a ser seguido. Por isso, passada a surpresa do anúncio, a fusão traz expectativas positivas, mas também uma dose cavalar de desconfiança: a máxima que diz que a "união faz a força" pode não funcionar muito bem se ambas as partes estiverem em situação desfavorável.

A EMC

Para quem pouco ouviu falar da EMC, eis um rápido esclarecimento: a companhia é uma das maiores fornecedoras de soluções de hardware e software para armazenamento de dados. Além disso, a EMC detém 81% da VMware, uma das mais renomadas desenvolvedoras de software para virtualização, e é dona da firma de segurança digital RSA.

Se considerarmos a quantidade de sites que temos na internet e a crescente quantidade de serviços nas nuvens, por exemplo, podemos presumir que a procura pelos serviços da EMC é grande. De fato, é, até porque, tendo sido fundada em 1979, a companhia acumula tradição no mercado.

Só que a época das vacas gordas já passou para a EMC. Os custos de armazenamento baixaram consideravelmente nos últimos anos, cenário que tem corroído as receitas da companhia. Como consequência, a EMC vem enfrentando forte pressão dos investidores, principalmente da Elliott Management, que detém 2% de suas ações e é conhecida por cutucar sem dó as companhias que receberam aportes substanciais, mas estão com desempenho abaixo do esperado.

EMC

A EMC está sendo vítima de um monstro no mercado que ela mesma ajudou a criar, ainda que sem querer. Os custos de armazenamento sempre foram altos, inclusive para empresas de grande porte, o que as levou a desenvolverem alternativas com custos reduzidos.

Tomemos como exemplo o Google: os data centers da companhia sempre foram baseados em dispositivos de armazenamento de baixo custo. A parte mais sofisticada fica com o software, que otimiza o acesso aos (gigantescos) volumes de dados, dá espaço para escalabilidade (suportar um aumento repentino de carga de processamento quando a demanda aumenta de uma hora para outra, por exemplo) e assim por diante.

Outro exemplo notável é o da Amazon. Para evitar problemas em suas operações, a companhia montou uma estrutura computacional sofisticadíssima, mas também focada na redução de custos. Com efeito, além de ser uma gigante do comércio eletrônico, a Amazon se tornou referência em serviços de processamento e armazenamento de dados nas nuvens, atendendo de pequenas a grandes empresas.

É uma lógica simples de entender. Para muitas empresas, tem sido melhor apostar em serviços do tipo "pague pelo o que o usar" do que depender de infraestruturas fornecidas por companhias como EMC, que exigem contratos mais caros, maior tempo de implementação e, consequentemente, menor escalabilidade.

As expectativas

Apesar de toda a desconfiança que esse cenário causa, de modo geral, a fusão não é vista como uma jogada ruim. A Dell é muito forte no segmento de servidores para empresas de todos os portes, mas, no que diz respeito a serviços de armazenamento de dados, a companhia é relevante apenas para firmas pequenas e médias. Como a EMC tem uma carteira muito maior de clientes de grande porte, a aquisição deve ajudar a Dell a fincar de vez a sua marca no segmento de storage.

Por sua vez, a EMC se livra do mau humor dos investidores, afinal, ao ser incorporada pela Dell, a companhia também terá capital fechado (a VMware deve continuar com capital aberto, no entanto). Além disso, o negócio joga para o novo dono a missão de encontrar uma saída para enfrentar as soluções de armazenamento que Amazon, Google, Microsoft e outras companhias estão oferecendo ou desenvolvendo, embora a turma de Michael Dell não pareça estar preocupada com isso no momento.

EMC - data center

O interesse da Dell, pelo menos por ora, é pegar um atalho para tornar-se maior, muito maior. Para manter a segurança de suas operações, muitas companhias estão seguindo o caminho contrário: o eBay se separou do PayPal e a HP pretende concluir em breve a separação de sua divisão de serviços, só para exemplificar. Mas a Dell acredita que a velha fórmula de adquirir empresas para ampliar a oferta de soluções ainda é o melhor caminho.

A companhia segue a lógica do provedor único: ao contratar algum serviço da EMC, um cliente pode se interessar por servidores da Dell, por exemplo, ainda mais se a oferta em pacote resultar em vantagens como descontos ou contratos de suporte mais extensos.

Essa é a chance que Michael Dell tem de mostrar que continua tão visionário quanto era nos seus tempos de faculdade. Só teremos certeza dentro de alguns meses, porém: como qualquer negócio que envolve duas empresas gigantes, a aquisição da EMC pela Dell deve passar pelo crivo de órgãos reguladores de mercado.

Também é necessário que a fusão seja aprovada pelos acionistas da EMC, mas, com a situação desconfortável da companhia no mercado e o valor oferecido por ação, essa deverá ser a parte mais fácil do negócio.

Com informações: WSJ.com, VentureBeat, New York Times, Wired

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