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A tragicomédia das selfies

Acredite: tem gente perdendo a vida ou deixando de curtir o momento em busca da selfie perfeita.

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3 anos e meio atrás

Selfie - tourada

“Atenção: risco de afogamento”. “Não ultrapasse a faixa amarela”. “Perigo: alta tensão”. Alertas como esses existem unicamente para evitar mortes estúpidas. Se a intenção é essa, não estranhe, portanto, se outro tipo de aviso começar a aparecer por aí: “Proibido tirar selfies neste local”.

Sim, selfies podem matar

Pode parecer uma piada sem graça ou um exagero midiático, mas acredite, autoridades de várias partes do mundo estão começando a se preocupar: no ímpeto de fazer aquela selfie incrível, tem gente se arriscando demais e, consequentemente, morrendo.

Em junho, uma universitária de 21 anos morreu ao tentar fazer uma selfie pendurada em uma ponte de Moscou. Nos Montes Urais, dois homens perderam a vida tentando tirar uma foto com uma granada — se intencional ou não, um deles puxou o pino do artefato. Na região de Vologda, um rapaz de 17 anos habituado a fazer selfies em paisagens teve um acidente fatal ao tentar tirar uma foto em cima de um telhado.

Essas ocorrências fizeram o governo russo lançar uma campanha para prevenir acidentes relacionados às selfies. Há, por exemplo, cartazes listando lugares perigosos para se fazer fotografias com frases como “Autorretratos podem custar-lhe a vida” ou “Selfies com uma arma matam”. Bizarro, não?

Alerta russo sobre os perigos das Selfie

Mas, apesar da inclinação da Rússia para coisas estranhas, mortes envolvendo selfies não acontecem só por lá. Nos Estados Unidos, por exemplo, pelo menos 12 pessoas morreram neste ano tentando tirar fotos de si mesmas. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Deleon Alonso Smith, um texano de 19 anos que tentou registrar uma selfie com uma arma e acabou fazendo-a disparar. Foi fatal: a bala perfurou o pescoço do rapaz.

Teve também o caso da romena Anna Ursu, de 18 anos, que morreu eletrocutada ao tentar fazer uma selfie no topo de uma estação de trem. Mais recentemente, uma jovem de 12 anos faleceu na Bélgica ao ser atropelada por um trem que avançava a 150 km/h. Ela tentou fazer uma selfie nos trilhos. Além da perda da filha, os pais receberam uma conta relacionada aos prejuízos que a companhia ferroviária teve ao suspender o tráfego de trens por seis horas e meia para perícia e retirada do corpo. Ao menos a família conseguirá cobrir esses gastos com um seguro.

Anna Ursu

Anna Ursu

Não faz muito tempo que eu quase presenciei uma cena parecida. Vi duas garotas numa estação do Metrô de São Paulo tentando fazer uma selfie que, aparentemente, deveria incluir o trem na foto. Na tentativa de achar o melhor ângulo, elas se aproximaram demais da beirada da plataforma. No final, quem quase morreu fui eu, de infarto. A buzinada que o operador do trem deu me pareceu proporcional ao tamanho da composição. Funcionou, de todo modo: as garotas pularam para bem longe da beirada.

O que se passa?

Essa coisa toda das selfies ganhou tanta popularidade que, vale relembrar, “selfie” acabou sendo considerada a palavra do ano pelo Dicionário Oxford em 2013. A justificativa? Segundo os editores, o termo evoluiu do uso restrito em redes sociais para uma palavra corriqueira no mundo todo.

A definição inserida no dicionário não poderia ser mais precisa, pelo menos naquela ocasião: “uma fotografia que a pessoa tira dela mesma, tipicamente com um smartphone ou webcam, carregada em um site de mídia social”.

Selfie mortalAs selfies caíram no gosto popular de tal forma que, nos últimos meses, fabricantes têm lançado smartphones com câmeras frontais melhoradas justamente para satisfazer aos anseios dos adeptos de autorretratos. Há até aparelhos criados especialmente para atrair essas pessoas, como é o caso do Zenfone Selfie.

Vários estudos foram iniciados para entender o fenômeno das selfies. Um deles, conduzido pela Universidade Estadual de Ohio, até já identificou traços mais expressivos de narcisismo e psicopatia em pessoas que postam muitas selfies (o que não quer dizer que é o caso de todo mundo que faz isso, veja bem).

Autorretratos já existiam. Mas o avanço tecnológico, especialmente com a chegada dos smartphones, tornou essa prática muito mais acessível, não só pelos megapixels e demais atributos oferecidos por sensores de câmeras mais modernos, mas também porque o autor sabe que a foto será vista rapidamente — você consegue publicar uma fotografia recém-tirada em questão de segundos nas redes sociais.

Isso é válido para qualquer tipo de imagem, mas as selfies se destacam porque elas obrigatoriamente colocam o autor da foto como protagonista da cena: será sempre você na praia, você na Disney, você no avião, você com aquele amigo que está fazendo aniversário, você no show, você com seu artista favorito.

Veja, não há nada de errado com isso. Se você faz selfies, muito provavelmente aprecia fotos do tipo registradas por outras pessoas e até use isso como um mecanismo de interação social. Sob essa óptica, não dá para considerar as selfies uma expressão de egocentrismo puro ou qualquer coisa assim. Talvez selfies demais, sim, configurem um problema, mas essa é uma questão muito relativa: o que caracteriza o excesso?

Ok, isso sim é excesso

Ok, isso é um excesso

O ponto mais relevante dessa história é que, via de regra, esperamos algo em troca quando publicamos selfies: curtidas, comentários, compartilhamentos. Gostamos muito dessas ações porque elas nos trazem pequenas sensações de recompensa.

É aí que mora o perigo. A busca incessante por essas doses de prazer tem feito muita gente se arriscar para fazer selfies que impressionam e, por consequência, tragam mais curtidas, compartilhamentos e assim por diante.

De fato, se uma pessoa consegue fazer uma foto em um ponto turístico bem conhecido, mas a partir de um ângulo pouco explorado, o efeito “wow” tente a ser mais intenso. O problema é o preço dessa ousadia.

Está certo que o perigo não é exclusividade das selfies. Fotógrafos, especialmente profissionais — como aqueles que alimentam o acervo da National Geographic —, vivem se aventurando por aí na busca pela melhor imagem. Mas o contexto das selfies é diferente porque o observador também precisa sair na foto. Ao tentar fazer com que essa condição seja devidamente respeitada, a atenção ao que ocorre ao redor diminui.

Selfie - Waterton Canyon

Eis o resultado: autoridades, administradores de parques, gestores de pontos turísticos e afins estão tendo mais uma preocupação. O Waterton Canyon, nos Estados Unidos, é um exemplo. O parque está fechado desde agosto, aparentemente porque os funcionários perceberam que muitos visitantes estavam chegando perto demais dos animais — especialmente dos ursos — com o intuito de fazer selfies.

Outro exemplo, este bem lamentável: em setembro, um grupo de turistas compareceu à praia de Ostional, na Costa Rica, para acompanhar desovas de tartarugas que acontecem ali todo ano. O problema é que, no impulso de acompanhar o processo de perto e fazer fotos — inclusive selfies — eles acabaram atrapalhando as tartarugas. Uma guia turística chamada Yamileth Baltodano resumiu tudo: “foi um desastre”.

Turismo desastre

Turismo desastre

Se a coisa continuar nesse ritmo, daqui a pouco os fabricantes terão que distribuir alertas nas embalagens dos smartphones sobre os perigos e inconveniências das selfies. Mas não precisamos chegar nesse ponto. Uma boa dose de bom senso ajuda bastante, certo?

Fazer aquilo que praticamente todo mundo fazia bem quando não havia smartphones, redes sociais online e coisas do tipo também serve: aproveitar a experiência.

Olhar e não ver

As câmeras digitais tornaram ilimitada a nossa capacidade de tirar fotos. Antes, tínhamos que contar com filmes fotográficos de 12, 24 ou 36 poses e mandar revelar as fotografias. Não dava para saber com antecedência se o registro ficou bom ou ruim. Hoje, um único cartão de memória pode armazenar milhares de imagens de alta resolução. Será que ficou legal? Confere na tela. Se não, é só apagar e fazer outra.

O problema é que tamanha conveniência também trouxe efeitos colaterais: não é insignificante o número de pessoas que estão mais preocupadas em fazer fotos (de qualquer tipo) do que em apreciar o evento ou o lugar em si.

Novamente, não há nada de errado em fazer fotos ou vídeos em viagens, eventos esportivos, shows, exposições de artes, entre outros, pelo contrário. Mas se você só ficar preocupado com isso, estará se sabotando, mesmo que sem perceber. Ou sabotando outra pessoa: na minha última vez em Foz do Iguaçu, por exemplo, o que eu mais ouvi foram pedidos de “licença” de pessoas querendo fazer selfies e afins; eu só queria ficar cinco minutos naquele ponto curtindo a paisagem, oras.

Monalisa - câmeras

Repare que o cérebro é ávido por novidades que quebram a rotina. É por isso que, quando você vai a uma viagem ou a um evento diferente do habitual, frequentemente você volta para casa com sensação de bem-estar. Mas a experiência não será tão enriquecedora se você ficar a maior parte do tempo vendo tudo pela tela do smartphone ou da câmera.

Quando falo de aproveitar a experiência, não estou tentando empurrar uma frase clichê. Falo de contemplar o lugar com calma, interagir com pessoas que vivem ali, prestar atenção no que o guia está falando, curtir a música, trocar informações com outros visitantes, sentir a “atmosfera” dali, enfim.

Tirar fotos continua valendo, é claro, mas, levando o “enjoy” a sério, arriscar o pescoço para fazer selfies mirabolantes com a única intenção de impressionar provavelmente não será mais interessante do que, por exemplo, relatar uma experiência bem vivida em um blog ou numa mesa de bar com os amigos.

Definitivamente, imagem não é tudo.

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