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Sobre estatísticas e por que achamos que podemos ganhar na loteria

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powerball

Esses dias eu estava indo até a lotérica mais próxima da minha casa para reforçar aquela fezinha corriqueira. Caminhava pela rua, olhando os prédios, quando o anjinho do ceticismo que habita minha cabeça começou a dar o ar de sua graça.

Vamos fazer um exercício aqui para simular mais ou menos como foi a linha de raciocínio: sabemos que usar o celular aumenta em até 400% o risco de acidentes de trânsito. Mandar uma mensagem de texto aumenta suas chances de bater o carro em 23 vezes.

Ainda assim, muitos pensam: "não vai acontecer comigo..."

Ao mesmo tempo, as chances de ganhar na Mega Sena são de 1 em 50 milhões! Aqui nos Estados Unidos, as chances para ganhar no PowerBall, principal loteria do país, são de absurdos 1 em 292 milhões.

Como diria o John Oliver, do excelente Last Week Tonight, é mais fácil ser atingido por um raio, enquanto se está sendo atacado por um tubarão, que acertar os seis números vencedores.

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Mesmo dentro dessa realidade, como muitos de nós reagimos? "Ah, alguém pode ganhar, por que não eu?"

30-07-2014 - São Paulo - Brasil - Foto: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas

Foto: Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas

Quer outro exemplo de como lidamos de maneiras diferentes com essa coisa de gastar dinheiro versus o risco envolvido? Lembro aqui de uma análise do site Exame, que evidencia como gastamos dinheiro com seguro do carro para nos afastar de riscos. Mas não riscos de um acidente ou roubo propriamente dito e sim de ter que gastar uma fortuna, caso esses infortúnios aconteçam. Pagamos pela sensação de ter um risco menor.

Já no caso da loteria, pagamos para se aproximar dos riscos.

Que tipo de mecanismo é esse que nos faz desacreditar em possibilidades reais de algo ruim acontecer, mas também nos faz crer que algo enormemente improvável tenha chance de se tornar real? De onde vem essa estatística otimista que rege nosso comportamento?

Do ponto de vista científico, lembro de um estudo realizado em 2012, uma parceria entre a Escola de Medicina de Yale e a Universidade de New York, sobre como o cérebro avalia estas possibilidades. Durante os experimentos, os pesquisadores usaram ressonância magnética para avaliar o estímulo e atividade cerebral quando as pessoas tinham que ponderar entre probabilidade de ganhar em uma determinada loteria, o prêmio total envolvido e a ambiguidade entre essa probabilidade e o valor pago.

A conclusão do estudo demonstrou que lidamos com essa falsa esperança, química e fisiologicamente, de maneiras semelhantes a como lidamos com o fator felicidade ao receber recompensas. É importante citar aqui também que os circuitos neurais respondem a níveis de incerteza de uma forma que se opõe à Teoria da Decisão. Portanto, ligue seu senso crítico.

Gambling brain win

Mas, para simplificar, entenda que o cérebro se engana para tentar ficar feliz. Em alguns indivíduos, isso pode gerar problemas de vícios com apostas. Nessas pessoas, apostar em uma loteria tem o mesmo efeito no cérebro que os de adolescentes fumantes ou adultos com dependência alcoólica pouco antes de fumar ou beber.

Mas, em geral, desde que com parcimônia e responsabilidade, trata-se apenas de uma maneira de buscar uma alegria ou uma euforia passageira, a despeito das chances factíveis de ganhar algum dinheiro no sorteio. Basicamente, queremos nos sentir felizes, ter o prazer de ser o vencedor. "Are you a winner?"

Agora vocês me dão licença que amanhã saem os números e eu quero ficar bilionário! Vai que...

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Willian Carlos Dos Santos
Tanta teoria para algo simples. As pessoas jogam simplesmente pq acreditam em sorte pois, se os apostadores pensassem em probabilidades e satisfação química do cérebro, blá, blá provavelmente a loteria seria um fracasso. Só não me pergunte o q é sorte pq estou como a musica do zeca pagodinho nunca vi só ouço falar. Rsrsrs
Matheus Gonçalves
Foi.
Matheus Gonçalves
Velho, não é só questão de disciplina. Tem gente que, ou trabalha até tarde, ou passa fome. Ou gente, como você disse, que não foi instruída a estudar, pois o sistema de ensino atual incentiva a preguiça e a ignorância. Mas tem muita gente que precisa passar por obstáculos que nem eu e nem você passamos. Mas vamos usar nós dois como exemplo: viemos de uma infância pobre, família conturbada, ensino público. Nos matamos de estudar e nos formamos em Engenharia. Você tá rico? Tipo, milionário? Pq eu tô bem longe disso, cara. Salário dá pra pagar o aluguel, contas, financiamentos e sobra bem pouco pra poupança e muito pouco tempo pra projetos pessoais.
Caio Oliva
Bom, eu que tive ensino médio completamente conturbado (sim, festa e pais ausentes não são bons ingredientes para uma vida escolar saudável), que tive que fazer até supletivo pra recuperar o tempo perdido. Hoje faço Engenheria Civil (entrei achando que ia fazer de computação) na 2ª faculdade mais difícil do Rio de Janeiro e já estou no terceiro período sem grandes dificuldades. Então, sim, acho bem real uma pessoa cursar o que ela quer. O problema é que a grande maioria de nós é preguiçosa ou se julga menos inteligente e por isso não dá sequência ao sonho. Uma coisa que meu tio, hoje bem sucedido, me disse: Escolha um objetivo, não importa se é espiritual (amor) ou material (carros, dinheiro). Com esse objetivo em mente, trace a rota até ele e mesmo que a rota mude no caminho nunca tire o foco, é assim que você sobe de uma forma ou de outra. E assim to cada vez mais perto de conseguir o que eu quero. Mas claro disciplina cada um tem a sua...
Antonio Francisco de Souza
Aí um gari estava catando o lixo em uma rua e passa em frente uma lotérica com um prêmio de encher os olhos. Ops. De encher os bolos. Ops. De encher um grande caminhão Baú. Nunca havia jogado mas tinha 2 contos no bolso na época. Foi lá pagou por uma única cartela. Um jogo simples de 6 números. E ele ganho sozinho. Poxa. O gari foi mordido por um tubarão e ainda foi acertado por um raio ao mesmo tempo. kkkk
Carlos Alberto
Parabéns pelo texto! A variedade de assuntos (muito bons) abordados pelo Tecnoblog é ineressante. São textos de leitura facil, confortável e ao mesmo tempo nos proporciona conhecimento e nos instiga a pesquisar mais a respeito de alguns assuntos abordados. O fato de não se ater somente ao mundo mobile, levando em conta que algumas "bombas" relacionadas aos smartphones geram muitos cliques, é digno de parabéns por parte de toda a equipe.
Luander Falqueto Beltrame
:/ poxa
Matheus Gonçalves
Quantas pessoas conseguem fazer uma faculdade de engenharia? Do ponto de vista financeiro e do ponto de vista de preparo da escola básica. Complicado.
Matheus Gonçalves
A não ser que você tenha R$ milhões para lavar, compre todas as possibilidades de combinação, declara que comprou só um bilhete e fatura dinheiro limpo. Mas claro que nunca nenhuma pessoa honesta nesse país faria uma coisa dessa.
Matheus Gonçalves
haahahahahah infelizmente, não foi dessa vez. Dá pra acreditar que eu não ganhei? Quem poderia imaginar? Mas, oh, alguém da California ganhou! http://abc7news.com/society/winning-$15b-powerball-ticket-sold-in-southern-california-city/1158398/
Caio Oliva
Acho mais real fazer faculdade de engenharia, se especializar, tirar em torno de 20 mil por mês, poupar e investir em atividades ativas (investimentos passivos como loteria serve só pra rasgar dinheiro), montar uma start-up, vender, ganhar o primeiro 1 milhão, contratar analista de bolsa, dobrar a grana... Ai tá no meio do caminho, com esses dois milhões gaste em enganação propaganda política, vira deputado brasileiro e pronto tem 50 milhões. Mais fácil isso do que ganhar na mega-sena, hahaha.
Luander Falqueto Beltrame
E então... o Tecnoblog tem um editor bilionário agora? Em caso positivo favor promover o melhor "Deu a louca no Tecnoblog" de todos os tempos.
Bruno Pinho
Por isso que só jogo UM jogo de R$ 3,50... E geralmente quando acumula acima de 50 milhões... Afinal, são 3,50 por uma chance (mínima, ridícula, quase inexistente) de ficar milionário... Mas no fim, são só R$ 3,50... Acho que compensa.
Higo
O fato de a Mega Sena ser no Brasil, um país definitivamente corrupto, ainda diminui as minhas chances para... zero.
tuneman
eu conheço um cara que é viciado em jogo. não bebe e nem fuma, mas precisa jogar sempre. e se ele perde algum jogo começa a ficar nervoso achando que vai cair os numeros que joga.
abraaocaldas
Porque nesse caso o risco é você ficar R$3,50 mais pobre vs. ficar milionário ... o risco de qualquer jeito é baixo.
Gabriel Arruda
No livro Rápido e Devagar o autor explica como funciona nossa percepção de risco por ganho/perda. Sobrevalorizamos baixo risco de perdas e baixas possibilidades de ganho, não pensamos de forma linear sobre o tema, a curva é uma sigmóide: http://kurtmunz.com/kurt/wp-content/uploads/2012/04/Valuefun.jpg Eu só aposto quando o pessoal da empresa faz bolão, afinal, melhor reduzir o risco de continuar pobre, amargurado e sem emprego haha
Matheus Gonçalves
Pensa comigo: eventualmente algum SORTUDO ganha. As pessoas vêem na TV, ou na mídia. E isso as faz pensar: "pô, não é impossível!" Certo? Elas tendem a se prender ao mínimo de chance possível. Quer uma explicação visual? https://www.youtube.com/watch?v=nFTRwD85AQ4
Eliezer
É tipo a loteria acertar em mim e não eu acertar na loteria...
Elton Alves Do Nascimento
Li ao texto duas vezes e ainda não entendi como pode ser compreensível que uma pessoa realmente acredite na probabilidade de ganhar na loteria. Pois realmente é preciso ponderar muito pouco para ver que as chances são mínimas. Mas eu gostei da parte que fala que as pessoas são muito otimistas diante dos riscos altos, ponderar sobre os riscos de situações perigosas é algo que as pessoas realmente deixam de fazer e deviam fazer mais, evitaria muitas situações desagradáveis que ocorrem "por besteira".
Matheus Gonçalves
Valeu, cara!
Islan Oliveira
Eu sei que é quase impossível de ganhar e talvez seja o cérebro me enganando, mas jogar na mega-sena vez ou outra não faz mal, desde que não passe a exagerar. Pode ser que eu nunca ganhe, mas não é exatamente uma fortuna que seria gasta.
Tales
Ótimo texto!
Lucas Bahamut
Excelente texto!