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Sabe a teoria dos seis graus de separação? O Facebook diz que agora são três e meio

Emerson Alecrim Por

Seis graus de separação

Existe uma crença amplamente difundida que afirma que duas pessoas estão distantes uma da outra por no máximo seis níveis de amizade, independente do lugar em que elas vivem. Você já deve ter ouvido falar disso. É a teoria dos seis graus de separação. A ideia não é incoerente, mas os cálculos podem estar desatualizados: segundo o Facebook, agora há três níveis e meio de amizade, não seis.

A conclusão foi divulgada nesta quinta-feira (4) por uma boa razão: hoje é o dia do amigo. Bom, na verdade, não é. No Brasil, essa celebração costuma ser feita em 18 de abril, embora essa não seja uma data oficial. Internacionalmente, o dia 20 de julho é mais aceito para a comemoração, apesar de a ONU ter definido, em 2011, a data de 30 de julho como o dia internacional da amizade.

Que confusão, não? E aí Mark Zuckerberg e sua turma decidem bagunçar tudo ainda mais? O Facebook diz que a intenção não é essa. O dia 4 de fevereiro foi escolhido por ser a data oficial da fundação da empresa. É uma comemoração de aniversário, portanto: a rede social está completando 12 anos de existência.

Se você entrou no Facebook hoje, já descobriu como essa celebração vem sendo feita: a companhia está disponibilizando aos usuários um vídeo com cerca de um minuto com fotos feitas com seus amigos (se você brigou com alguém depois da foto, não se preocupe, dá para editar o material).

Mas não é só isso: o que você faz quando tem 1,59 bilhão de usuários ativos? Exatamente, um estudo para avaliar quantos laços de amizades os separam. Já que hoje é o dia do amigo no universo do Facebook, não há data mais apropriada para divulgar os resultados.

Três graus e meio de separação

Obviamente, não foi um estudo fácil. O Facebook explica que, se você tomar como exemplo um usuário que tem 100 amigos na rede social com cada um deles tendo a mesma quantidade de amizades, logo se tem 10 mil "amigos de amigos". Se as conexões destes também foram consideradas — novamente, com 100 amizades para cada um — esse número sobe para um milhão (são exemplos hipotéticos, que desconsideram os contatos sobrepostos, que teriam que ser filtrados). Se levarmos em conta que a maioria dos usuários tem bem mais do que 100 contatos no Facebook, fazer o cálculo para cada um deles seria impossível.

Como é de se esperar quando há esse tipo de problema, o Facebook encontrou a solução em um algoritmo que faz análises estatísticas. O resultado final mostra que, pelo menos dentro da rede social, cada pessoa está separada da outra por 3,57 níveis de amizade — três graus e meio, para simplificar.

Esse número é uma média global. De país para país pode haver distinções. Nos Estados Unidos, por exemplo, a média é de 3,46 graus de separação. Apesar dessas diferenças, os resultados obtidos foram suficientes para o Facebook concluir que os graus de separação caíram nos últimos anos.

Gráfico - graus de separação no Facebook

Não é a primeira vez que a companhia faz um estudo relacionado aos níveis de amizade. Em 2011, quando a rede social registrava "apenas" 721 milhões de usuários ativos, uma pesquisa feita em parceria com a Universidade de Milão e a Universidade de Cornell constatou uma média de 3,74 graus de separação.

Tal diferença é reflexo de um mundo cada vez mais conectado, aponta o Facebook. Não é difícil presumir isso: hoje acessamos a internet com muito mais frequência em dispositivos móveis do que em 2011, por exemplo.

Mas isso não quer dizer que a teoria dos seis graus de separação está errada ou não tem sentido nos dias atuais. Mais que números exatos, o conceito trata de apontar que cada indivíduo está mais próximo de qualquer outra pessoa no mundo do que conseguimos imaginar.

Até o finado orkut teria sido criado com base nessa teoria

Até o finado orkut teria sido criado com base na teoria

Atribui-se ao escritor húngaro Frigyes Karinthy o surgimento da ideia dos seis graus de separação. O conceito aparece pela primeira vez em uma coleção de contos publicada pelo escritor em 1929. Somente na década de 1960, porém, é que a teoria foi colocada à prova.

Em 1967, o psicólogo americano Stanley Milgram (mais conhecido pela chamada Experiência de Milgram, que avaliou a obediência a autoridades mesmo quando as ordens ferem o bom-senso) realizou um experimento nos Estados Unidos pedindo que pessoas aleatórias fizessem uma correspondência chegar a um indivíduo que vivia em Massachusetts.

Havia uma regra: os participantes conheciam o nome, a ocupação e a localização aproximada desse sujeito, mas não podiam fazer a correspondência chegar diretamente a ele. Os voluntários tiveram então que enviar a carta a uma pessoa conhecida que, como base nas informações disponíveis, mais teria chances de conhecer o destinatário. Essa pessoa, por sua vez, tinha que repetir o processo, ou seja, passar a correspondência adiante por meio de alguém conhecido.

Quase 300 pessoas participaram do experimento. No final, a média de níveis de separação ficou em cinco, com alguns casos tendo chegado a seis e sete. Ou seja, a teoria dos seis graus de separação fazia sentido.

Mas houve um problema: esse teste foi questionado por muita gente porque, entre outras razões, um número baixo de cartas teria chegado ao destino. Depois disso, o assunto acabou caindo no esquecimento por algum tempo, mas ganhou novamente interesse na década de 1990. Desde então outros experimentos vêm sendo realizados.

Um dos mais interessantes foi organizado pelo sociólogo americano Duncan Watts, em 2003, a partir da internet. Mais de 61 mil participantes de 166 países usaram seus contatos online para encontrar 18 desconhecidos. O estudo foi bem amplo, acabou inclusive dando origem ao livro Seis Graus de Separação (que nome surpreendente), mas novamente conseguiu confirmar a teoria dos seis graus.

Se você entrar na página do estudo descobrirá seu grau de separação de Mark Zuckerberg, olha só

Se você entrar na página do estudo descobrirá o seu grau médio de separação e até o de Mark Zuckerberg, olha só

Os dois estudos realizados pelo Facebook provam então que a tecnologia está mesmo aproximando as pessoas? Não há dúvida de que, tendo um celular conectado à internet o tempo todo e uma grande variedade de redes sociais online, hoje é bem mais fácil conhecer pessoas, então, sim, pode ser que os níveis de separação tenham mesmo diminuído.

Só que nós precisamos levar alguns aspectos em conta. Para começar, a base de usuários do Facebook é muito ampla, mas um levantamento da ONU divulgado em 2014 revela que 4,3 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso à internet, então há realidades bem diferentes aqui. Além disso, o Facebook é uma rede social criada para incentivar os usuários a se conectarem com um número elevado de pessoas: dos seus contatos no serviço, quantos, de fato, você conhece (sabe quem são)?

Tais fatores indicam que a metodologia tem lá as suas brechas. De todo modo, esses estudos são relevantes para o Facebook. As análises das conexões dos usuários podem ajudar a companhia a saber o que fazer para alcançar o que talvez seja a sua meta mais ambiciosa: ter 5 bilhões de usuários até 2030.