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Como a realidade virtual está fazendo a diferença nos tratamentos de saúde

O conceito vem sendo usado para tratar de estresse pós-traumático a lesões cerebrais

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3 anos atrás

Realidade virtual - saúde

A HTC começou a semana vendendo 15 mil unidades de seus óculos de realidade virtual Vive. Tudo isso em dez minutos! Também nesta semana, a Google Store passou a comercializar o Cardboard, aqueles óculos feitos de papelão (até então, apenas distribuidores externos ofereciam o acessório). Aliás, na mais recente edição do Mobile World Congress, dispositivos de realidade virtual estiveram entre os destaques. Moda passageira? Pode até ser (eu acho que não), mas tudo indica que há uma área em que o conceito veio para ficar: a de saúde.

Demos um exemplo aqui no Tecnoblog no início do ano: um cirurgião cardiovascular de Miami recebeu a missão de salvar uma menina que nasceu com um só pulmão e metade do coração. Dada a complexidade do caso, a equipe médica precisava de uma representação tridimensional dos órgãos da menina para saber exatamente como proceder. Isso vem sendo feito com impressão 3D, mas a impressora do hospital estava quebrada. Foi aí que o cirurgião teve a ideia de usar o Google Cardboard. A cirurgia terminou bem.

Google Cardboard

Google Cardboard

Mas a realidade virtual não serve apenas para facilitar o trabalho dos médicos. O conceito também pode ser explorado para trazer benefícios diretos aos pacientes, seja na forma de tratamento ou como meio de amenizar algum tipo de limitação.

Quer um exemplo bem bacana? No mês passado, uma mulher que perdeu praticamente toda a visão há oito anos por conta da Doença de Stargardt voltou a enxergar, ainda que parcialmente, graças ao Google Cardboard. O momento foi registrado pelo marido dela, olha só:

Segundo a literatura médica, a Doença de Stargardt é a principal causa de degeneração macular juvenil, condição que resulta na perda progressiva da visão em pessoas jovens por causa da destruição de células fotorreceptoras da mácula (uma pequena área no centro da retina). No caso de Bonny, a mulher que aparece no vídeo, o diagnóstico foi dado quando ela tinha 10 anos de idade.

O problema não lesiona todo o olho. Isso permitiu que o Google Cardboard fosse usado como elemento compensatório — guardadas as devidas limitações, é claro. Como você deve saber, o acessório precisa ser acoplado a um smartphone. No aparelho usado por Bonny, o app Near Sighted VR Augmented Aid (para Android) foi instalado. A ferramenta captura imagens da câmera do dispositivo e a divide em duas partes, uma para cada olho. O efeito estereoscópico presente, combinado com o “zoom” obtido, foi suficiente para que ela pudesse enxergar ao menos parte do mundo ao seu redor.

Esse é só um exemplo. Os cientistas acreditam que a realidade virtual pode fazer muito mais pelo bem-estar das pessoas. A expectativa em relação ao assunto é tão grande que, também em fevereiro, uma startup baseada em Zurique chamada MindMaze recebeu um aporte de US$ 100 milhões para levar adiante projetos que combinam realidade virtual com neurociência.

Sendo mais específico, essa empresa está trabalhando em óculos de realidade virtual que podem ajudar pacientes na recuperação de lesões cerebrais. Tej Tadi, fundador da MindMaze, dá como exemplo uma pessoa que perdeu os movimentos do braço esquerdo por causa de um acidente vascular cerebral (AVC).

MindMaze

Os movimentos do braço direito desse paciente não foram afetados. Assim, quando a pessoa coloca os óculos da MindMaze, ela vê um “avatar” que a representa virtualmente levantando a mão direita quando ela realiza esse movimento. Agora vem o truque: quando ela levanta a mão direita, o avatar não só imita esse gesto como também o reproduz com o braço esquerdo (virtual).

Em resumo, o avatar faz com ambas as mãos os mesmos movimentos que a pessoa realiza com a mão direita. Segundo Tadi, essa abordagem serve de estímulo. O cérebro vê na reprodução virtual o braço que não se mexe se movimentando e, assim, passa a tentar controlar o membro real. O macete pode ajudar a pessoa a recuperar os movimentos perdidos mais rapidamente.

É provável que em 2016 e, claro, nos próximos anos, vejamos um boom de aplicações de realidade virtual voltadas para tratamentos médicos e bem-estar. Mas a ideia vem sendo desenvolvida há tempos nessas áreas. A Universidade do Sul da Califórnia é apenas um entre vários exemplos: a instituição mantém desde 1997 um programa que usa realidade virtual para tratar indivíduos com estresse pós-traumático.

Cada caso é um caso, logo, não dá para dizer que determinado protocolo é válido para todo mundo, mas é frequente que especialistas em saúde mental tratem o estresse pós-traumático fazendo a pessoa enfrentar o medo. Basicamente, é isso o que a Universidade do Sul da Califórnia faz: o programa recria virtualmente o ambiente traumático (como uma cena de guerra) para que a pessoa possa reencontrar a causa do trauma e confrontá-la. Se algo sair do controle, tudo bem, ela volta à “vida real” e tenta novamente mais tarde.

Perceba que a realidade virtual pode funcionar bem nesses e em vários outros projetos porque as imagens tridimensionais, de fato, fazem o cérebro interpretar o conteúdo virtual como real, ainda que você saiba que não é (bom, como mostra o vídeo abaixo, algumas pessoas acabam temporariamente se “esquecendo” disso, mas tudo bem).

Mas os melhores resultados aparecem quando o nível de realismo é elevado. Somente agora é que temos tecnologia para atender a esse requisito. É por isso que o assunto ganhou enorme atenção nos últimos anos.

A melhor parte é que a realidade virtual não é necessariamente cara. É verdade que o projeto da MindMaze exige bastante pesquisa e, no final das contas, pode acabar não se tornando muito acessível (embora a tecnologia da empresa se destine a clínicas e hospitais que, teoricamente, pode arcar com os custos).

Note, porém, como o caso de Bonny ilustra o outro extremo: na Google Store, o Cardboard custa apenas US$ 15 (US$ 25 se você levar dois), enquanto o Near Sighted VR Augmented Aid é um app gratuito que, além da Doença de Stargardt, pode ser usado para trazer um pouco mais de comodidade para pessoas que sofrem de algumas formas de glaucoma, retinopatia diabética, retinite pigmentosa, atrofia óptica, entre várias outras condições.

Definitivamente, a realidade virtual não serve apenas para imersão em games, filmes e outras formas de entretenimento, como muita gente pensa. E a beleza de tudo isso é que estamos apenas nos primeiros passos — imagine quando a tecnologia estiver ainda mais sofisticada?

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