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Com chip no cérebro e ajuda de um computador, rapaz tetraplégico volta a movimentar a mão

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3 anos e meio atrás

Ian Burkhart - bypass

Ian Burkhart enfrenta o drama de ser um jovem com tetraplegia. Há cerca de cincos anos, ele lesionou gravemente o pescoço durante um mergulho em uma praia da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, o que o fez parar de mexer braços e pernas. Mas há esperança: um chip implantado no cérebro pode fazer o rapaz recuperar pelo menos parte dos movimentos. Em um experimento recente, ele conseguiu mover uma das mãos.

O chip é apenas uma parte do extenso trabalho de uma equipe de pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio. O projeto consiste, essencialmente, em criar um bypass, isto é, um “desvio” que restabelece conexões nervosas interrompidas por lesões.

É uma ideia que se encaixa bem no caso de Burkhart, hoje com 24 anos. A lesão medular, mais precisamente na vértebra C5, impede que o cérebro dele consiga ordenar ao corpo que se movimente, contraia músculos e assim por diante. O que o bypass faz então é contornar essa limitação a partir de outro método de comunicação.

Falando assim, parece fácil. Mas, para chegar ao estágio atual, foram meses de dedicação e trabalho árduo.

Para começar, em abril de 2014, Burkhart enfrentou uma delicada cirurgia de três horas para a colocação de um minúsculo implante em seu cérebro — o chip mencionado no início do texto. Em seu crânio, os pesquisadores fixaram um aparelho que recebe sinais do implante e os envia a um computador.

Durante 15 meses, Burkhart passou por um treino de três sessões semanais em que, com a ajuda de imagens, tinha que pensar em mover a mão. No mesmo período, ele fez exercícios para fortalecer os músculos do braço direito.

Ian Burkhart - bypass

Coube então ao computador analisar os sinais captados durante esse treinamento para “decifrar” as ordens que o cérebro emite para movimentar as mãos. Depois desse período, veio a fase mais crítica: transformar esse procedimento em movimentos reais.

Para isso, os pesquisadores ligaram o computador a um aparelho de estimulação neuromuscular. Esse dispositivo contém uma série de fitas com eletrodos que, uma vez fixados no braço, enviam sinais aos músculos da mão.

Resumindo, o esquema é este: Burkhart pensa nos movimentos da mão, o computador interpreta os sinais correspondentes e os envia para o aparelho de estimulação que, por fim, faz a mão se mexer conforme o esperado.

Até certo ponto, o método é semelhante ao das próteses robóticas em que o usuário pensa em determinados tipos de movimentos e os membros recebem ordens para reproduzí-los. Porém, aqui, o mecanismo envia as ordens ao sistema neuromuscular da própria pessoa, daí a importância dos exercícios de fortalecimento. Se funciona? Sim! Confira você mesmo:

Esse sistema já permite a Burkhart realizar pelo menos seis tipos de movimentos com a mão e o pulso. Ele ainda não consegue fazer gestos complexos, é verdade, mas já pode abrir e fechar a mão, segurar objetos pequenos (como lápis ou uma colher) colocados entre seus dedos, virar uma caneca e apertar botões, por exemplo.

Atualmente, a tecnologia tem 90% de precisão na interpretação dos movimentos. Mas, como deve ter ficado claro para você, essa é apenas a fase inicial. O objetivo dos cientistas é aumentar a variedade de movimentos de mão e, claro, fazer o mecanismo funcionar em outras partes do corpo.

Em uma etapa mais avançada — bem mais avançada —, dá até para pensar no projeto ajudando uma pessoa a voltar a andar, embora devolver pelo menos parte dos movimentos a quem tem tetraplegia já se mostre como um avanço espetacular: “se pudermos ajudar a trazer nem que seja um pouco de independência a alguém será algo extraordinário”, comenta Burkhart.

Ian Burkhart - bypass

Segundo o neurocirurgião Ali Rezai, um dos responsáveis pela pesquisa, “um dos objetivos principais é fazer com que os pacientes possam usar isso em casa”, ou seja, sem depender do aparato de laboratório. Para esse fim, o pesquisador espera, por exemplo, que o sistema use comunicação sem fio para ligar o implante cerebral aos grupos musculares a serem estimulados.

Com o sucesso dos testes feitos com Ian Burkhart, os pesquisadores agora avaliarão a técnica com outras quatro pessoas que também perderam os movimentos do pescoço para baixo. Todos deverão passar por processos semelhantes, inclusive pelos vários meses de treinamento.

Considerando todo os testes e aprimoramentos necessários, levará vários anos para que a técnica possa finalmente se tornar viável. Bom, não dá para esperar resultados grandiosos e imediatos em um projeto que está só no início, certo? Esse é um começo, mas um começo bastante promissor. Por ora, é isso o que importa.

Com informações: The New York Times