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Como a realidade virtual pode ajudar uma pessoa a ter mais empatia

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1 ano atrás
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Realidade virtual

Se fôssemos mais empáticos, talvez o mundo seria um lugar menos injusto. Você já deve ter ouvido afirmações assim. Por falta de opção melhor, muita gente que é ciente disso tenta praticar a empatia apenas a partir de exercícios mentais. Só que se imaginar no lugar de alguém muitas vezes não é suficiente para entender os problemas que essa pessoa enfrenta. É aí que a tecnologia pode fazer diferença: há cada vez mais projetos de realidade virtual que tentam nos ajudar a ter noções claras das dificuldades que pessoas com limitações físicas, por exemplo, encaram todos os dias.

A empatia

A palavra empatia, não raramente, remete à ideia de transmitir compaixão, atenção ou simpatia, mas não é bem assim. Basicamente, empatia é tentar, tanto quanto possível, sentir o que outra pessoa sente, se sujeitar às mesmas circunstâncias que ela enfrenta para compreender as suas ações ou reações.

Invariavelmente, tentamos praticar a empatia a partir de projeções imaginárias. O problema é que esses “estados mentais” são muito subjetivos, afinal, a base para esses exercícios são as nossas próprias experiências ou algo do qual temos conhecimento, mas de modo superficial. É por isso que empresas que precisam treinar seus funcionários para lidar com o público muitas vezes recorrem a simulações.

Empatia

Uma delas eu descobri há cerca de dez anos. Em uma visita técnica ao Metrô de São Paulo, soube de um programa de treinamento que fazia os operadores dos trens viajarem pela rede metroviária de olhos vendados.

Por serem experientes, esses funcionários conheciam todas as estações pela ordem, portanto, supostamente não teriam dificuldades para saber o local em que o trem estava naquele momento. Mas a maioria tinha: para quem está habituado a se orientar por informações visuais, é extremamente fácil perder a noção de localização quando só é possível usar a audição.

O objetivo do treinamento era um só: mostrar para os operadores quão importante é anunciar pelo sistema de som do trem qual a próxima estação (ou era, pois hoje a maioria dos trens faz isso automaticamente). Pessoas com deficiência visual agradecem e muito.

Até que não é difícil encontrar outras iniciativas como essa por aí. Outro exemplo, dessa vez mais recente, vem de empresas de ônibus que colocam motoristas no lugar de ciclistas. O objetivo é fazer os condutores entenderem a importância de ultrapassar bicicletas mantendo uma distância de pelo menos 1,5 metro delas.

É mais complicado, porém, recriar a perspectiva de determinadas condições: como simular com um nível mínimo de precisão o daltonismo ou a esquizofrenia, por exemplo? É por isso que cada vez mais pesquisadores olham com atenção para a realidade virtual.

Amphibian

Há várias iniciativas que seguem essa linha, mas o Amphibian é uma das que se sobressaem pela proposta inusitada: na primeira olhada, você pensa que o equipamento é um simulador de mergulho. E é mesmo. O projeto é composto por luvas com sensores, mecanismos de suspensão, Oculus Rift e fones de ouvido que, juntos, dão uma ideia de como é estar dentro do mar. É possível simular flutuabilidade, mudanças de temperatura, movimentos de arrasto, enfim. Mais real que isso só treinando debaixo d’água mesmo.

Amphibian

Mas, no fundo, esse aparato todo tem um propósito bem mais específico. Dhruv Jain, criador do Amphibian, é um estudante do MIT que possui surdez e, portanto, precisa usar aparelhos auditivos. Ao iniciar um curso de mergulho, ele percebeu que o ambiente subaquático oferece quase o mesmo tipo de privação sensorial de quando ele desliga os aparelhos que o ajudam a escutar.

É um silêncio descrito como tranquilo, meditativo. Com o Amphibian, Jain tenta mostrar para pessoas que escutam normalmente como é essa sensação: “me sinto libertado quando desligo os aparelhos auditivos. Queria que as pessoas sentissem a privação sensorial que eu sinto quando eu fecho os olhos”, ele explica.

Uma experiência como essa pode ajudar profissionais da saúde, organizações e governos a compreender com mais profundidade as necessidades que indivíduos com deficiência auditiva têm. O diferencial do Amphibian é que o equipamento traz o silêncio em uma atividade muito específica (a simulação do mergulho), o que acaba mexendo com outros sentidos e, com isso, proporcionando algo muito mais intenso do que seria obtido se os ouvidos do participante fossem simplesmente tapados.

The Migraine Experience

Uma iniciativa mais simples que o Amphibian, mas tão interessante quanto é o The Migraine Experience (A Experiência Enxaqueca, em tradução livre). Trata-se de uma campanha criada para o laboratório Norvatis que tenta revelar a quem não sofre de enxaqueca como é ter o problema.

Não, os participantes não “ganham” fortes de dores de cabeça, mas, com o uso de óculos de realidade virtual, passam por experiências visuais que dão ideia de como é ter visão turva (embaçada), sensibilidade à luz, desorientação e outros sintomas típicos da enxaqueca.

Apesar de se tratar de uma campanha de marketing — o The Migraine Experience visa promover o medicamento Excedrin —, a iniciativa tem conseguido disseminar a ideia de que a enxaqueca não é uma simples dor de cabeça ou “frescura” (muita gente que sofre do problema já ouviu isso).

Eficácia em prova

Os pesquisadores ainda precisam de mais experimentos para saber até que ponto a realidade virtual pode ser uma ferramenta de auxílio no desenvolvimento de atividades ligadas à empatia. Mas, ainda que pouco numerosos, os testes já realizados trouxeram resultados muito interessantes.

Isso porque, além de ajudar pessoas a se colocarem no lugar das outras, alguns desses projetos lançam uma luz sobre reações que só se manifestam em indivíduos que passaram por determinadas experiências.

Um exemplo vem de uma dupla de estudantes da Universidade da Pensilvânia. Reika Yoshino e Jun Xia construíram um ambiente virtual com base em entrevistas feitas com 40 alunos da instituição. Esse ambiente consiste em um lugar cinzento, cheio de livros e com uma TV que exibe apenas o logotipo da Netflix.

Esse ambiente foi mostrado para várias pessoas. Aquelas que tiveram depressão descreveram o lugar como apaziguador. Já indivíduos que nunca enfrentaram depressão identificaram o ambiente como solitário e até assustador.

Com base em informações desse tipo, psicólogos e outros profissionais de saúde podem compreender com mais facilidade como indivíduos que lidam com traumas ou transtornos mentais enxergam determinados aspectos da vida. Daí pode sair tratamentos individualizados mais eficazes que os atuais.

Mesmo que tecnologicamente sofisticada, é cedo para afirmar que a realidade virtual é capaz mesmo de ser uma aliada importante da empatia: as experiências vividas podem fazer cada indivíduo ter reações muito particulares diante de determinadas circunstâncias. Mas uma coisa é certa: a ideia é diferente o suficiente para chamar atenção para a relevância do assunto. Isso, por si só, já é um grande avanço.

Com informações: MIT Technology Review