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Os problemas de responder emails do chefe fora do horário de trabalho

A proposta do governo francês para coibir essa prática está aumentando as discussões sobre o assunto

Emerson Alecrim Por
3 anos e meio atrás

Smartphone - email

O governo francês está considerando proibir que seus cidadãos respondam emails profissionais fora do horário de trabalho. Absurda ou não, essa proposta chama atenção para um comportamento global: estamos aproveitando o poder de comunicação da internet para levar trabalho para onde quer que estejamos, independente da hora. O problema é que estar sempre disponível para o empregador pode ter consequências graves.

Não é a primeira vez que o assunto é tratado na França. Em 2014, um acordo estabelecido entre empresas e sindicatos ligados a setores como TI, engenharia e consultoria determinou que funcionários não devem responder emails depois do horário de trabalho. Eles também não podem ser pressionados pelos chefes a fazê-lo. O objetivo é um tanto óbvio: evitar que o trabalhador fique o dia todo ligado em assuntos profissionais.

Agora o tema voltou à mesa. O partido do presidente francês François Hollande propôs uma medida que, se aprovada, condicionará empresas com 50 empregados ou mais a disponibilizar uma carta de boa conduta que fixa os horários em que os funcionários não devem responder a emails de trabalho — para a maioria, períodos noturnos e finais de semana.

Isso é mesmo necessário?

Para entidades e políticos que defendem a ideia, a medida é uma proteção à saúde e ao bem-estar do indivíduo. O socialista Benoit Hamon, por exemplo, argumenta que há estudos que mostram que hoje há muito mais estresse ligado ao trabalho do que nas décadas passadas. O pior: esse estresse é constante.

Se pensarmos bem, essa constatação revela um contrassenso. A tecnologia torna os processos mais rápidos e disponibiliza vários meios eficientes de comunicação, logo, o efeito poderia ser o contrário: as atividades deveriam ser executadas mais rapidamente, livrando o trabalhador do acúmulo de tarefas.

Isso não acontece, claramente: "os funcionários deixam o posto fisicamente, mas continuam no trabalho. Eles permanecem ligados por uma espécie de coleira eletrônica, como um cachorro. Textos, mensagens e emails, tudo isso coloniza a vida do indivíduo até o ponto em que ele ou ela, eventualmente, se rompe", explica Hamon.

Arte: David Cutler

Arte: David Cutler

Linh Le, sócia de uma empresa de consultoria em gestão de Paris, concorda. Para ela, além da fadiga que a ampla disponibilidade pode causar ao funcionário, questões pessoais também podem ser afetadas: "você está em casa, mas é como se não estivesse; essa situação representa uma ameaça real para as relações".

Não é difícil entender esse ponto de vista: se ficar a todo momento resolvendo assuntos de trabalho pelo smartphone ou laptop, você deixará de dar atenção à família, de curtir a companhia de alguém em um restaurante e por aí vai. É um estado de permanente vigília. O resultado aparece na forma de transtornos físicos e emocionais. Em outras palavras, você adoece.

O outro lado

É um consenso: ficar o dia todo preocupado com questões do trabalho, sempre, é tudo, menos saudável. Mas há quem acredita que o governo francês está exagerando com esse problema e que a medida, se aprovada, não deve ser copiada por outros países.

Um desenvolvedor de software identificado apenas como Gregory explicou à BBC que a sua empresa precisa competir com programadores chineses, americanos e indianos, portanto, se comunicar com clientes até tarde da noite é uma rotina necessária. Para ele, se a lei vigorar, os concorrentes de outros países terão mais competitividade por não terem que se sujeitar às mesmas restrições.

Trabalho - estresse

De fato, companhias com atuação internacional são as que mais se preocupam com medidas desse tipo, afinal, não há horários quando existe competição global. Além disso, há empresas que temem não conseguir reagir em tempo hábil a um problema inesperado, como uma falha em um sistema ou uma demanda urgente de um cliente que só pode ser atendida por determinada pessoa.

Há ainda o risco de um efeito indireto sobre o funcionário: ao ficar proibido de olhar o email fora do horário de expediente, ele pode ter quadros de ansiedade ou irritabilidade, por exemplo, pelo temor de acumular trabalho para o dia seguinte ou perder uma generosa bonificação por conta de uma negociação que ficou para depois.

Uma solução intermediária

Mesmo que a proposta do governo francês esteja envolta em interesses partidários ou políticos, o tema é pertinente por trazer à tona um comportamento que precisa ser debatido.

Estamos falando de um fenômeno global. Em menor ou maior escala, o email como extensão do trabalho é realidade em companhias de todas as partes do mundo. O email também pode ser simbólico, representando a permanente disponibilidade do funcionário a partir de apps como WhatsApp ou da própria linha telefônica.

Por um lado, há a preservação da saúde e do bem-estar do indivíduo em jogo. Por outro, a necessidade de resposta imediata da empresa a demandas com efeito competitivo. O que fazer, então?

Você precisa "se desligar" de vez em quando

Você precisa "se desligar" de vez em quando

Jon Whittle, pesquisador do Digital Brain Switch, projeto que estuda as relações de trabalho no universo digital, acredita que "o verdadeiro problema é a cultura de ter constantemente que fazer mais e melhor que os concorrentes". Para ele, um ambiente de trabalho que promova o bem-estar é a melhor saída: "ter uma força de trabalho feliz e livre de estresse pode proporcionar uma vantagem competitiva".

Isso pode ser feito com a criação de horários flexíveis (o funcionário escolhe o melhor horário para trabalhar), com planos de disponibilidade e contingência (hoje você fica de "plantão" no smartphone, amanhã não), com o estímulo a atividades de entretenimento e assim por diante.

Perceba que esse tipo de iniciativa tem que partir das empresas. Mas as pessoas também precisam se entregar a momentos de "desligamento". Em muitos países, inclusive no Brasil, o lazer, por exemplo, é visto como atividade digna de preguiçosos. Mas não é. O lazer promove bem-estar, combate o estresse, faz uma "higiene mental". Se você não se permitir passar por esses momentos terá problemas.

Como questões como essas são, acima de tudo, aspectos culturais, leva tempo para o assunto ser tratado. Mas a proposta do governo francês, mesmo que se não for adotada, pelo menos escancara para o mundo que existe algo de errado na relação entre trabalho, comunicação e tecnologia. Você sabe: reconhecer um problema é o primeiro passo para a solução.

Com informações: BBC, Washington Post

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