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Os vídeos ASMR que fazem você relaxar e até dormir

O YouTube está cheio de vídeos com sussurros e ruídos suaves. Acredite: essas são técnicas para causar em você sensações agradáveis.

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2 anos atrás
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vídeo ASMR

Lá estava eu dando uma olhadinha no Facebook quando encontro um vídeo com os dizeres “ASMR”. Na descrição, a promessa de que o vídeo me faria ter um mindgasm, algo que a gente pode entender como “orgasmo mental”. Sim, eu também pensei que ali havia algum porn, mas não era o caso. Logo eu descobri que o vídeo foi feito para gerar um estado de relaxamento a partir de estímulos visuais e, principalmente, auditivos. Será que funciona? Se positivo, qual é o truque?

O que é um vídeo ASMR?

“Que p**** é essa?” foi a primeira frase que eu soltei quando apertei o play. O significado não ajuda muito: ASMR é a sigla para Autonomous Sensory Meridian Response ou, em bom português, Resposta Sensorial Meridiana Autônoma. É por isso que quase todos os vídeos do tipo tratam de informar já no título que você pode relaxar ou até dormir ao vê-los.

Basicamente, a sigla ASMR se refere a sensações agradáveis que se manifestam em resposta a estímulos visuais, auditivos e cognitivos. Você pode sentí-las “ao vivo”, conversando com uma pessoa em uma viagem de avião ou vendo alguém manipulando um objeto, por exemplo. Mas, nessas circunstâncias, normalmente o fenômeno se manifesta de forma não intencional: uma das partes acabou agindo sem perceber de um modo que ativa o estado de relaxamento na outra pessoa.

O que os numerosos vídeos ASMR fazem é justamente explorar técnicas que causam sensações prazerosas. Para começar, você vai notar que a maioria dos vídeos focaliza o rosto do articulador. Em alguns casos, apenas a boca aparece (como no vídeo abaixo, em espanhol). A ideia aqui é causar impressão de proximidade física, como se a pessoa estivesse totalmente dedicada a você.

Mas a parte mais importante está na voz: via de regra, o articulador fala de modo pausado e em sussurros. Novamente, esses aspectos parecem transmitir sensação de proximidade, com o adendo de a voz pausada e sussurrada acalmar — essas características são o oposto da maneira como nos expressamos em situações de estresse.

Os estímulos auditivos não se limitam à voz. É comum que a pessoa que aparece no vídeo realize ações que geram ruídos suaves, mas marcantes: abrir uma embalagem, colocar água em um copo, passar as unhas sobre um tecido, folhear um livro, cortar papel com uma tesoura, reparar um objeto com chave de fenda e por aí vai.

É conveniente que esses estímulos auditivos sejam complementados com conteúdo visual correspondente. Assim, se a pessoa estiver abrindo uma caixa, por exemplo, é importante que, além de reproduzir o ruído, o vídeo mostre a ação sendo realizada. Porém, os gestos precisam ter alguma suavidade — é uma forma de demonstrar cuidado.

Para dar contexto, é muito comum vídeos ASMR terem encenações (role play). Em muitos deles, o espectador faz o papel de um paciente que vai ser avaliado por uma enfermeira (não pense maldade) ou uma psicóloga. Esta, por sua vez, fingirá que está conversando com você (quase sempre em sussurros) e poderá até mesmo fazer gestos em direção à câmera que sugerem contato físico afetivo.

O vídeo a seguir, feito por Monique Antoneto (em português), simula uma sessão de limpeza de pele:

Uma variedade de vídeo ASMR que explora bem essas características é a que simula exames de nervos cranianos (Cranial Nerve Exams). Esses exames existem mesmo, servindo para localizar danos neurológicos, mas nos vídeos ASMR o assunto serve apenas como pretexto: a ideia é tratar a câmera como se ela fosse a cabeça ou o rosto de quem assiste.

As sensações causadas pela ASMR

Reconheço que assisti aos primeiros vídeos com bastante desconfiança, mas logo tratei de entrar no jogo. Quando você dá abertura à ideia, os vídeos ASMR podem mesmo funcionar.

As sensações variam de pessoa para pessoa. Com base nos relatos que encontrei na internet, notei que tem gente que não sente nada e alguns até se entediam. Mas a maioria afirma sentir uma sensação boa de formigamento no couro cabeludo ou no dorso, quase como o efeito de uma massagem, só que com intensidade menor. Há também quem experimente friozinhos na barriga ou arrepios oriundos do bem-estar percebido.

No meu caso, não houve arrepios ou sensação de formigamento, mas os vídeos conseguiram me deixar relaxado. Parece ser a reação mais comum: tudo funciona devagar, o clima fica cada vez mais calmo e, de fato, você pode até sentir sonolência. Coisa de louco! Está aí a razão para esses vídeos terem cada vez mais popularidade.

Relax

É claro que você também precisa fazer a sua parte. Os efeitos serão mais intensos se você usar fones de ouvido (em certos momentos de alguns vídeos a voz sai mais forte do lado direito ou esquerdo, como se a pessoa estivesse falando ao pé do ouvido), visualizar os vídeos em tela cheia e assistí-los em um lugar calmo. Vale até desativar as notificações do smartphone.

Quando falei acima de entrar jogo, quis dizer que é importante se deixar levar. Se você mantiver o desconfiômetro ligado, sua mente entenderá aquilo como uma ameaça ou uma atividade desagradável. Se isso acontecer, dificilmente você sentirá os efeitos.

Ninguém consegue explicar

Na década de 1980, a TV dos Estados Unidos exibiu um programa chamado The Joy of Painting que, apesar, de tratar de pintura, conseguia boa audiência. Pintura não é, necessariamente, um assunto popular. Muita gente assistia ao programa por se sentir incrivelmente relaxada com a apresentação de Bob Ross, que explicava tudo de maneira bastante calma e com uma voz firme, mas suave. Dá para dizer que esses foram os primeiros vídeos ASMR.

Apesar de a ideia remeter aos anos 1980, a ciência até hoje não sabe explicar, com precisão, como o ASMR ocorre. A principal razão para isso é que, como o assunto é relativamente recente — as primeiras referências à sigla ASMR surgiram em 2010 —, os vídeos ainda não atraíram atenção suficiente dos cientistas.

Entretanto, parece ser unânime entre psicólogos, médicos e pesquisadores que o assunto precisa mesmo ser estudado com profundidade. Para Steven Novella, diretor de neurologia na Escola de Medicina da Universidade de Yale, a ASMR pode ajudar a decifrar as complexidades do cérebro.

Já Francis McGlone, professor de neurociência da Universidade John Moores, disse à BBC que vê o assunto com preocupação. Para ele, uma pessoa com problemas psicológicos pode acabar preferindo recorrer a esses vídeos em vez de procurar ajuda especializada. Isso é perigoso.

McGlone também chama atenção para a possível presença de conotação sexual. A maioria dos vídeos ASMR é apresentada por mulheres atraentes e, ainda que não seja a intenção (as sensações não se parecem com aquelas trazidas com o sexo), acaba não sendo difícil encontrar em certas filmagens algum teor de erotismo. A associação do termo mindgasm a alguns vídeos só piora a situação.

Assim, pelo menos até que haja estudos rigorosos sobre o tema, convém apelar para o bom senso. Assistir a um vídeo ASMR ou outro de vez em quando para tentar relaxar ou mesmo por curiosidade é ok. Fazer isso todo dia, porém, pode não ser uma boa ideia. Como tudo na vida, o perigo mora no excesso.