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Por que o Facebook quer ampliar o acesso à internet no mundo todo

A companhia criou a Internet.org para levar internet a lugares sem acesso, mas a que preço?

Emerson Alecrim Por

A internet está tão presente na sociedade moderna que é difícil aceitar a ideia de localidades completamente offline. Mas esses lugares existem, aos montes. É por isso que gigantes da internet, com destaque para o Facebook, estão se esforçando para levar acesso a regiões remotas ou com infraestrutura precária. Mas a troco de quê? Quais as reais intenções de Mark Zuckerberg e sua turma com projetos desse tipo?

Meio mundo e um pouco mais estão offline

Os países membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU determinaram em 2012, por unanimidade, que o acesso à internet deve ser um direito universal. De lá para cá, o número de pessoas que conseguem se conectar de alguma forma aumentou, mesmo assim, a quantidade de indivíduos totalmente offline continua gigantesca: mais da metade da população mundial.

É o Facebook que dá essa informação. Anualmente, a empresa disponibiliza um relatório chamado State of Connectivity que esmiúça a situação global do acesso à internet. A última análise, baseada em dados coletados em dezembro de 2015, aponta que 3,2 bilhões de pessoas têm alguma forma de conexão. Só que a população mundial é estimada atualmente em 7,3 bilhões de pessoas.

2/3 da população mundial está offline

Diversos fatores explicam essa diferença gritante, mas o principal é mesmo a falta de infraestrutura. As redes móveis, por exemplo, estão disponíveis apenas para 78% da população mundial.

Outro fator importante é a falta de acessibilidade. Muitas vezes há infraestrutura, mesmo que precária, mas os custos de acesso acabam se mostrando muito elevados. Isso é particularmente verdadeiro em localidades carentes, obviamente.

Um fator igualmente relevante, mas muitas vezes negligenciado é o da educação: pouco ou nada adianta oferecer acesso à internet se o indivíduo não é alfabetizado ou tem formação cultural muito baixa. Para você ter ideia de como esse aspecto é marcante, estima-se que até dois terços das pessoas em países em desenvolvimento simplesmente não sabem o que é internet.

Internet.org

Seguindo os passos do Google, que àquela altura já investia em iniciativas como o Project Loon, o Facebook anunciou em agosto de 2013 a Internet.org, projeto descrito pelo próprio Mark Zuckerberg como tendo a missão de colocar a internet ao alcance de 5 bilhões de pessoas no mundo todo no decorrer dos anos seguintes.

É uma meta deveras audaciosa, tanto que o Facebook deu abertura a várias abordagens: a Internet.org contempla diversos meios de acesso, não apenas um. O mais surpreendente é o Aquila, um drone do tamanho de um Boeing 737 alimentado por energia solar que, quando finalizado, promete levar acesso à internet a regiões isoladas com velocidade de até 10 gigabits por segundo.

Drone Aquila

Drone Aquila

Mas esse é um projeto futurista, cuja viabilidade técnica é até hoje questionada: a expectativa é a de que o projeto entre em operação até o final do ano, mas há boas chances de a aeronave nunca conseguir cumprir a sua missão. Mesmo que isso aconteça, o Facebook terá atingido o objetivo de chamar atenção para os seus esforços, de todo modo.

Não que a Internet.org já não esteja colhendo resultados. A partir de parcerias com operadoras, organizações sem fins lucrativos e governos, o Facebook tem conseguido implementar projetos de acesso à internet em regiões pobres ou isoladas da Ásia, África e América do Sul. Há projetos em andamento em países como África do Sul, Zâmbia, Tanzânia, Quênia, Filipinas, Indonésia, Colômbia e Bolívia.

Almoço grátis não existe e tal

Estima-se que, desde 2013, o total global de pessoas que acessam a internet aumenta entre 200 e 300 milhões de indivíduos a cada ano. Não há dados abertos sobre a participação dos projetos da Internet.org nesses números, mas é provável que essas iniciativas contribuam de maneira significativa — se não em quantidade de pessoas beneficiadas, no aprimoramento de tecnologias.

Tudo muito nobre, porém, sinais de alerta não tardaram a aparecer: na Índia, a imprensa local começou a relatar denúncias de que os mecanismos oferecidos pela Internet.org estavam priorizando páginas e serviços de interesse do próprio Facebook.

A primeira coisa que muita gente pensou — incluindo você, talvez — quando Zuckerberg anunciou a Internet.org é que essa é uma iniciativa para aumentar o número de usuários do Facebook. Esse pensamento não é equivocado: claramente, esse é um dos objetivos da companhia.

Mapa de alcance do Facebook

Mapa de alcance do Facebook

Não tem nada de errado aí. Pensando bem, esse é um preço justo a se pagar, mas com a condição de que a captação de usuários ocorra de maneira natural, ou seja, nas mesmas formas como você e eu entramos no Facebook: por influência de amigos, anúncios na web e assim por diante.

Entretanto, as denúncias feitas na Índia dão conta de que o Facebook agiu de modo a quebrar todos os princípios da neutralidade de rede. A empresa teria se aproximado de operadoras locais e fechado acordos para custear conexões oferecidas de graça a grupos até então desprovidos de acesso.

O problema está na parcialidade dessa cobertura: apenas alguns poucos sites e serviços foram incluídos. Dessa forma, a companhia acabou fazendo pessoas que estavam tendo o primeiro contato com a tecnologia acreditarem que o Facebook era a própria internet.

Plataforma Free Basics

Pegou mal, é lógico, tanto que o Facebook se viu obrigado a mudar de estratégia — ou, ao menos, a “embalagem”. Em setembro de 2015, a Internet.org apresentou a plataforma Free Basic Services (Free Basics) para regiões da Ásia, África e América Latina, com alcance estimado em 1 bilhão de pessoas. A ideia é essa mesma que o nome sugere: oferecer acesso gratuito a serviços online básicos, a partir de um aplicativo ou de uma página web.

Free Basics

Atualmente, cerca de 60 serviços fazem parte da plataforma, incluindo programas que estimulam o empreendedorismo e sites que esclarecem dúvidas sobre saúde. Empresas e outras organizações interessadas que queiram disponibilizar serviços na Free Basics podem tentar uma vaga a partir desta página.

O legado de Mark Zuckerberg

A Free Basics não livrou o Facebook de críticas, afinal, a rede social está entre os serviços disponibilizados gratuitamente. Isso tem feito a companhia enfrentar problemas em alguns lugares. Na Bolívia, por exemplo, a operadora Viva encerrou o acordo que tinha com a Internet.org no mês passado.

Mesmo assim, o Free Basics segue se expandindo. Só que em paralelo com outras iniciativas. A mais recente delas foi apresentada na semana passada: a plataforma OpenCellular.

OpenCellular

OpenCellular

De certa forma, a ideia segue a mesma proposta do drone Aquila: expandir o acesso à internet a partir da vertente tecnológica. O projeto consiste, basicamente, em uma caixa com antenas que amplia o alcance de redes móveis, podendo suportar até 1,5 mil conexões simultâneas.

Chama atenção o fato de o Facebook ter prometido transformar a OpenCellular em uma plataforma aberta nos próximos meses. O objetivo com essa medida é permitir que qualquer organização (incluindo empresas) modifique o equipamento para adaptá-lo a necessidades diferentes. Com isso, uma operadora poderá expandir a cobertura de uma localidade rural, por exemplo, sem gastar muito, pois a caixa é uma solução de baixo custo, não exigindo nem mesmo pagamento de licenças.

Soa como um contrassenso: se a plataforma se tornar realmente aberta, nenhuma das entidades que aderirem ao dispositivo será obrigada a promover os serviços do Facebook. Esse ponto, porém, dá pistas sobre outro possível objetivo da companhia com a Internet.org: dar forma a um legado para Mark Zuckerberg.

Mark Zuckerberg - people first

Estranho, né? Mas só na primeira olhada. Bill Gates eternizou o seu nome ao transformar a Microsoft em uma das maiores empresas do mundo e, por conta disso, enriqueceu como ninguém antes havia enriquecido. Mas hoje ele também carrega a imagem de filantropo, o que inclusive o ajudou a minar a fama de “homem mau” que ele ganhou por conta das estratégias que fizeram a Microsoft dominar o mercado.

Nesse sentido, os projetos conduzidos pela Internet.org podem ajudar Mark Zuckerberg a ser lembrado não só por construir a maior rede social online que já existiu, como também por democratizar o acesso à internet no mundo todo. Seria uma conquista e tanto, especialmente para desconstruir a imagem do Facebook como uma companhia que explora a privacidade de seus usuários sem nenhum pudor.

Trata-se de uma suspeita, é claro. Talvez Zuckerberg e outros grandes nomes do Facebook tenham realmente intenções altruístas. Talvez. De qualquer forma, essa movimentação toda em torno do assunto escancara a gravidade do problema, trazendo à tona a necessidade de discussão.

Só que é difícil pensar em soluções massivas no curto prazo, mesmo havendo interesse político: perto de outras graves deficiências sociais que temos, a desconexão é apenas um detalhe.

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Jefferson Rodrigues
Invocação do mal 1 e 2 são exemplos de sensacionalismo.
Jefferson Rodrigues
Os produtos da Apple são feitos por mão-de-obra quase que escrava ou até mesmo escrava. Trabalhadores sendo pressionados como se fossem máquinas. Chega ser irônico como o cara ainda prática a filantropia. Deve ser uma forma de amenizar esses atos.
Jefferson Rodrigues
Verdade!
Jefferson Rodrigues
Steve Jobs do mesmo jeito!
Tobias
Exato, Lucas! Creio que é em contraposição a esse self(ish)-marketing que ainda sobrevive a proverbial figura do doador/ filantropo anônimo, tipo hoje-- tipo, porra, quase entreguei uns nomes...
igor
filme são filmes e normalmente é necessário de um sensacionalismo.
Anakin
Não consigo confiar no Mark depois que vi o filme hahaha
Walter Hugo Nishida Xavier da
Realmente não existe almoço grátis, não entendo como tem gente achando que alguém faria isso de forma exclusivamente filantrópica, mesmo que quisessem, seria inviável convencer acionistas e pessoas de interesse. Quanto a alguns comentários que vi por aí, tem gente com memória curta ou que nunca buscou estudar a história do mercado de informática em geral. Bill Gates só ficou bonzinho depois que já havia conquistado tudo o que queria. A comparação com o Zuckerberg é perfeitamente cabível.
emersonalecrim
Você não entendeu mesmo: - eu cito Bill Gates como uma personalidade que conseguiu derrubar uma imagem negativa para exemplificar que esse é um caminho que Mark Zuckerberg quer ou pode seguir, dadas as constantes críticas que ele recebe, mas você dá a entender que eu estou fazendo comparações com as iniciativas de ambos; - durante todo o texto eu explico as críticas que a Internet.org vem sofrendo, inclusive com links, ressaltando que "talvez" possa haver interesse altruísta. Mas veja que eu não afirmo que há, apenas levanto, por prudência, a possibilidade; - comentários agressivos não significam, necessariamente, falta de respeito. Veja que eu falei "dentro de uma margem de respeito, tudo bem". Se faltasse respeito, eu já teria apagado.
Marcus Pessoa
O comentário foi totalmente respeitoso e essa acusação de que eu sou agressivo não procede. Exatamente porque eu interpreto o texto que eu enxerguei que foi uma tentativa de enfraquecer as críticas justas que são feitas a esses projetos. Qualquer pessoa está no direito de discordar da minha opinião, mas daí a dizer que eu não entendi o que o texto quis dizer, vai uma grande distância.
Lucas Santos
Às vezes o altruísmo é só mais uma forma do egoísmo.
emersonalecrim
Marcus, eu também não acho que há interesse altruísta nessa história, tanto que expliquei as críticas que a Internet.org vem recebendo ao longo no texto. Mas, não havendo evidência, é prudente levantar essa possibilidade. Foi isso o que eu fiz no final. Além disso, eu disse que hoje Bill Gates carrega uma imagem de filantropo e que isso o ajudou a derrubar aquela imagem negativa que ela tinha. Não comparei as iniciativas dele com as de ninguém. Você costuma fazer comentários carregados de pedras aqui. Dentro de uma margem de respeito, tudo bem. Mas convém trabalhar melhor a interpretação do texto.
Marcus Pessoa
Discordo completamente desse artigo. Não há nenhum interesse altruísta do Facebook ou do Google nisso, há apenas uma tentativa de ampliar seu mercado. Bill Gates sim é um autêntico filantropo, nada a ver comparar as iniciativas dele com essa pataquada desses gigantes monopolistas. O próprio Gates, aliás criticou duramente esses projetos. Falando sobre o projeto Loon, disse não saber “de que forma ver esses globos no céu ajudará alguém que esteja morrendo de malária".
Owl
Tudo que vem desse Mark, eu quero é distância, ele banca de bom moço, mas é um tremendo FDP, que só quer poder, que no caso é informação.