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Carros estão ganhando sistemas que não deixam você atropelar pedestres

A indústria está apostando na tecnologia para evitar tragédias com pedestres (e motoristas) distraídos

Emerson Alecrim Por

O carro autônomo é um dos assuntos do momento, mas enquanto esse conceito não vinga, a indústria automotiva segue investindo em tecnologias que auxiliam o motorista. Uma ideia que tem tudo para ganhar força nos próximos anos são os sistemas que detectam pedestres e freiam o carro automaticamente para evitar atropelamentos. Há cada vez mais fabricantes apostando nisso.

Pisa no freio, Zé

A ideia não é nova, mas somente nos últimos anos é que o assunto passou a ser tratado com mais dedicação por parte da indústria. Volvo, Mercedes-Benz e Honda são algumas das companhias que já têm sistemas de prevenção de acidentes envolvendo pedestres. Mas, atualmente, a Ford é a fabricante que mais tem chamado atenção para esse tipo de tecnologia.

Em 2014, a companhia lançou uma versão do Ford Mondeo com um sistema de detecção de pedestres em alguns países da Europa. Na semana passada, as vans Ford Transit e Transit Custom também passaram a contar com o recurso, agora aperfeiçoado. A tecnologia, baseada em uma combinação de radar com câmera, foi batizada como Pre-Collision Assist.

Pre-Collision Assist

Para desenvolver o sistema, a Ford fez uma pesquisa com 10 mil jovens com idades entre 18 e 24 anos. Essa faixa etária foi escolhida porque é nela que o uso do smartphone é mais intenso. Hoje, os dispositivos móveis são um importante fator de distração nas ruas, embora não haja números oficiais que indiquem o quanto a utilização desses aparelhos influencia no risco de acidentes.

Pois bem, 57% dos jovens entrevistados admitiram que já usaram o smartphone enquanto atravessavam uma rua, mesmo naquelas em que não há faixa de pedestres. Escutar música, enviar mensagens, navegar na web e acessar as redes sociais foram as atividades mais identificadas nesses momentos. Note que todas são grandes potencializadoras de distração.

Embora tenha sido feita na Europa, a pesquisa corrobora a percepção de autoridades de todo o mundo de que a distração por parte de pedestres é uma das principais causas de atropelamento — para não dizer a maior.

Ford Transit

Ford Transit

Quando não é o pedestre que não se atenta à aproximação de um carro, é o motorista que só percebe tardiamente a presença de uma pessoa à frente. “Leva apenas uma fração de segundo para o condutor checar um endereço [por exemplo], mas esse pode ser justamente o momento em que um pedestre resolve colocar o pé na rua”, explica Gregor Allexi, engenheiro de segurança ativa da Ford.

É justamente para situações desse tipo que sistemas como o Pre-Collision Assist estão sendo criados. A intenção não é isentar o condutor de suas responsabilidades diante do volante, mas evitar que uma falha de atenção que qualquer pessoa pode cometer leve a uma tragédia.

Três etapas de funcionamento caracterizam o Pre-Collision Assist. A primeira detecta um risco de atropelamento e emite sinais sonoros e visuais para alertar o motorista. Se ele não reagir nos instantes seguintes, o sistema prepara os mecanismos do freio para que a frenagem possa ser executada mais rapidamente. Por fim, se o motorista continuar não respondendo, o sistema aciona os freios sozinho para evitar a colisão.

Ainda que sem dar detalhes, a Ford explica que o Pre-Collision Assist tem como base dois componentes: um radar instalado no para-choque dianteiro e uma câmera que fica no para-brisa frontal. O radar tem a função de detectar objetos à frente, enquanto a câmera captura imagens desses objetos para que o sistema as compare com uma base de dados de “formas humanas”.

Se nessa comparação o sistema entender que o objeto à frente corresponde a uma pessoa, o Pre-Collision Assist entrará em ação para parar o veículo ou reduzir a sua velocidade, se necessário. Se não corresponder, outros sistemas podem entrar em ação, como o que previne colisão entre veículos.

À prova de falhas, só que não

Na primeira fase, a Ford percorreu mais de 500 mil quilômetros para testar o Pre-Collision Assist, com pelo menos 10 mil quilômetros sendo necessários para avaliar a tecnologia somente em ambientes urbanos reais (os testes foram feitos em cidades como Paris e Amsterdã).

Os resultados foram convincentes, mas isso não quer dizer que o motorista pode relaxar nos cuidados com o trânsito. A tecnologia pode falhar, sim, se não por algum processo que apresenta erros, por limitações técnicas: o Pre-Collision Assist pode não funcionar adequadamente se não houver boas condições de iluminação, só para você ter ideia.

Não por menos, nenhuma companhia afirma que a sua tecnologia de detecção de pedestres é 100% à prova de falhas. Em 2010, a Volvo deixou isso bem claro do pior jeito: em uma demonstração, um carro da marca com sistema de frenagem automática na presença de pedestres não evitou o atropelamento de um boneco.

A tecnologia foi melhorada, mas, em 2015, outra falha ocorreu, desta vez com vítimas de verdade:

Em nota emitida na época, a Volvo explicou que o carro do vídeo (um Volvo XC60) traz de série o City Safety, sistema que previne colisões com outros veículos. Há um módulo adicional que faz o carro frear diante de pedestres, mas, aparentemente, o veículo testado não tinha esse recurso e, se tivesse, o fato de o motorista pisar no acelerador com o automóvel previamente parado faz o sistema de frenagem não ser acionado.

É uma explicação um tanto estranha, mas que mostra que a tecnologia não faz milagres — ainda não. Mesmo assim, dá para esperar que cada vez mais carros tenham um sistema do tipo, inclusive modelos mais em conta.

Prevalece a ideia de que algum reforço na segurança é melhor do que nenhum, o que é facilmente compreensível: as estatísticas referentes a atropelamentos são preocupantes até em países com leis de trânsito bastante severas.

Comentários

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Marcela Dias Santos
Com toda certeza mais uma grande ajuda para milhares e milhares de motoristas e pedetres. A vida realmente deve sempre estar em primeiro lugar. http://novasaudepro.com
Fabio Montarroios
Funciona dando ré tb? Pq já vi vídeos de carros (de luxo) descendo a serra de ré em alta velocidade... Dirigir um carro implica em altíssima responsabilidade. Assim como há o controle de tração pra manter o carro na linha quando a pessoa se perde numa curva, esses recursos adicionais, como parar caso um pedestre ou animal surja na frente, ajudam, claro, mas não resolvem o problema dos atropelamentos. Pari passu a esses sistema, q tal bolar algo que faça justamente isso: impedir motoristas de ligarem o carro ou bloquearem o uso de celular enqto se está dirigindo? Aí não, né? Tira a liberdade do motorista de fazer o q lhe dá na veneta...
Fabio Montarroios
...Na casa de mãe Joana?...
Tobias
Tô ligado, daniel. E destacando uma ilustração da fonte que citaste: A turma do "a culpa nunfoiminha, seudotô, foi dumorto, foiele catravessô na miafrente!" pode se achar MUDERRRNA, mas passou muito tempo desde que os clubes de automobilistas norte-americanos formaram um lobbyzinho básico que (c/ uma ajudinha da indústria automotiva) deu nessa campanha governamental em 1937:
Tobias
...vixe santa que emprenhou...
Fabio Montarroios
....grila....
danielnbl

Não fui claro ao me referir ao Jaywalking.. O que me referia foi à campanha de ridicularização e criminalização da atitude. Essa atitude, que pode ser considerada global, tem esse histórico.

Texto para referência: http://www.vox.com/2015/1/1... (tradução http://blogs.gazetaonline.c...

daniel
Não fui claro ao me referir ao Jaywalking.. O que me referia foi à campanha de ridicularização e criminalização da atitude. Essa atitude, que pode ser considerada global, tem esse histórico. Texto para referência: http://www.vox.com/2015/1/15/7551873/jaywalking-history (tradução http://blogs.gazetaonline.com.br/ociclistacapixaba/4903/como-a-induustria-automobilistica-inventou-o-crime-de-atravessar-a-rua-em-qualquer-lugar/)
Gustavo Bresolin
Meu comentário foi tipo dizer "nenhum sistema sozinho será eficiente" só isso ;)
Tobias
...ki parils...
Tobias
Daniel, achei brilhantes os seus 1º e 3º parágrafos; vc se mostrou sensível e inteligente ao penetrar e criticar o conteúdo subjacente ao DISCURSO. Mas, também sinceramente, achei confusa a lógica do § do meio, pois entendo "jaywalking" como atitude do pedestre (https://en.wikipedia.org/wiki/Jaywalking ), não a atitude de botar a culpa no pedestre (a qual é muito comum, global até, porque é muito cômoda).
daniel
É preocupante ver como tanto essa tecnologia é vendida e como o post foi escrito. Por partes das fabricantes acredito ser intencional, por parte do tecnoblog, assim como o comentário de muitas pessoas não. Só acabou por reproduzir a lógica que somos levados a pensar. É o Jaywalking de forma escancarada de novo. Com o uso de veículos motorizados, é claro que o número de mortes aumentou e aumenta de forma assustadora a cada dia. Qual a solução vinda das empresas? Tentar limpar essa imagem que carros são perigosos, claro, e nisso colocar toda a culpa em "pedestres desatentos", ou "pedestres folgados. Considero importante esse tipo de tecnologia, mas é importante ter cuidado com todo o discurso que está sendo usado nesse processo. As cidades não são projetadas para pessoas e isso por si só é o suficiente para repensar como queremos nossas cidades. Isso tem um impacto direto em tudo que ocorre no nosso trânsito. Não faz o menor sentido colocar culpa em pedestres.
daniel
Né! E os motoristas alcolizados, e os motoristas que não tem dimensão do perigo que é conduzir um veículo automotor.. O que é engraçado é que se você notar o vídeo foca inteiramente a culpa nos pedestres. Mas claro, eles não querem por a culpa em quem realmente foi o responsável pela morte ou machucado de algum pedestre. Jaywalking all the away again.
daniel
Esse é justamente o tipo de comentário idiota que mostra o quão doente as pessoas no Brasil são quando o assunto são mortes e atropelamentos que temos diariamente por aqui. Se os carros colidem bruscamente atrás foi devido a velocidade estar alta demais para a via, o condutor não ser cauteloso em manter a distância de segurança e não estar atento ao transito. No final de tudo você vai ter evitado a morte ou que alguém tenha se machucado. Mas claro que o que é preocupante é a colisão mencionada no comentário!
Christian_Silva
Não quero ser chato, mas não é preciso esperar muito para assistir, em cruzamentos com faixa de pedestres e sinaleira (tanto para pedestres como para carros) inúmeros pedestres que simplesmente atravessam com o sinal fechado pra eles. Pedestres não respeitam também e isso é um fato.
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