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Rapaz tetraplégico volta a ter tato graças a um implante no cérebro

Emerson Alecrim Por
3 anos atrás

Nathan Copeland

Um cientista toca nos dedos de um braço robótico. Uma pessoa próxima sente os toques como se eles estivessem sendo dados em sua própria mão. Loucura, não? É exatamente essa cena esquisita que Nathan Copeland vivencia. Mas há uma boa razão para essa história: o rapaz é tetraplégico e, graças a um dispositivo implantado em seu cérebro, está voltando a ter tato.

Copeland ficou paraplégico em 2004, quando tinha 18 anos, após sofrer um grave acidente de carro. Ele ainda consegue fazer alguns movimentos discretos com os braços, na verdade, mas perdeu toda a sensibilidade do peito para baixo.

Mas isso não quer dizer que Copeland "desaprendeu" a sentir toques ou sensações na pele. O cérebro ainda preserva essa capacidade. Por conta da lesão medular, o que ele perdeu foi a comunicação, digamos assim, que leva os estímulos de tato ao cérebro.

O implante

Em um caso como esse, a prioridade é fazer a pessoa voltar a ter movimentos, tanto quanto possível. Mas, para isso, "o tato é extremamente importante", explica Robert Gaunt, um dos pesquisadores responsáveis pelo tratamento de Nathan Copeland. Faz sentido. Se você não tem tato, fica complicado estimar a força necessária para segurar um objeto ou fazer um aperto de mãos, por exemplo.

Como confirmar se o cérebro realmente preservou as funções de tato se a lesão na coluna vertebral impede os sinais de chegarem ao órgão? Pegando um desvio. Basicamente, a equipe de Gaunt identificou a área do cérebro que responde pelo tato dos dedos da mão direita de Copeland e colocou ali um pequeno dispositivo — um conjunto de minúsculos eletrodos, para ser preciso.

O implante foi ligado a uma interface que interpreta sinais nervosos e que, por sua vez, foi conectada a um braço robótico. Com parte do processo, os pesquisadores reproduziram uma série de estímulos elétricos para identificar padrões e pontos do cérebro que correspondem à percepção de toque em cada um dos dedos.

Depois que esse mapeamento foi feito, veio a fase de testes de toques. Copeland teve os olhos vendados para garantir a precisão dos resultados (observe no vídeo). Por sinal, este foram bastante animadores. O rapaz conseguiu não só sentir qual dedo da mão robótica estava sendo tocado, mas também a intensidade de vários toques.

É importante levar em conta que Copeland não pôde perceber temperaturas e toques muito suaves. Além disso, várias vezes ele relatou sensações confusas, como formigamento ou uma pressão não muito precisa. Mas isso é normal: o sistema nervoso é tão sofisticado que você consegue perceber um pequeno inseto em sua perna, por exemplo, e é difícil reproduzir tamanha sensibilidade em um mecanismo artificial.

Nas próximas etapas, os pesquisadores continuarão com os testes de estímulos para aperfeiçoar a técnica. Em uma fase posterior, é possível que a equipe de Gaunt ligue o implante cerebral ao braço direito de Copeland de alguma forma.

Não seria novidade. Em abril, contei aqui a história de Ian Burkhart, também tetraplégico, que voltou a movimentar uma das mãos graças a um implante no cérebro. No caso dele, o dispositivo envia sinais para um computador que, na sequência, direciona estímulos para o braço do rapaz. Com isso, ele pode segurar objetos leves e apertar botões, por exemplo.

Ian Burkhart - bypass

Ian Burkhart

Com a junção dessas e de outras pesquisas semelhantes, surge a esperança de que a ciência possa um dia trazer mais qualidade de vida para quem tem paraplegia ou tetraplegia, assim como criar próteses robóticas mais próximas de membros verdadeiros. Mesmo que não seja possível recuperar todos os movimentos, ter alguns para tarefas básicas já será uma grande vitória.

Trata-se de um trabalho extenso, demorado, complexo e arriscado, afinal, as técnicas são invasivas e envolvem um órgão extremamente delicado. Mas tudo tem que ter um começo, certo? E é inegável que os primeiros passos foram dados, bem dados.