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Esta gambiarra fez o Google economizar US$ 3,6 bilhões em impostos

Google, faz meu imposto de renda

Paulo Higa Por

Quem entende as regras do imposto de renda consegue economizar um bom dinheiro todo ano com as deduções fiscais — é possível deixar de mandar centenas ou milhares de reais para os cofres do governo sem burlar nenhuma lei. Os contadores do Google, aparentemente, fizeram a lição de casa: segundo a Bloomberg, a empresa evitou pagar nada menos que US$ 3,6 bilhões em tributos em 2015.

As gambiarras são tão complicadas que têm até nome: Double Irish e Dutch Sandwich. Elas consistem em transferir as receitas do Google entre diversas subsidiárias localizadas em países que oferecem benefícios fiscais ou que possuem brechas que permitem reduzir a quantidade de imposto pago. O caso do Google envolve principalmente a Irlanda, os Países Baixos e Bermudas.

Como funciona? Foi difícil entender o esquema, então preste atenção: a Alphabet, dona do Google, deposita a maior parte de suas receitas geradas fora dos Estados Unidos (foram US$ 15,5 bilhões em 2015) para uma subsidiária na Irlanda. Isso significa que o dinheiro que você, brasileiro, gera ao Google vendo e clicando em propagandas, por exemplo, não vai para o Google Inc. em Mountain View, mas para o Google Ireland Limited (o negrito aqui foi proposital, guarde esse nome).

Como a Irlanda é um país caro, o Google precisa transferir seu dinheiro para um país mais barato. É o caso de Bermudas, uma pequena ilha de 65 mil habitantes que cobra baixos impostos. Problema: se o Google transferir da Irlanda diretamente para Bermudas, vai pagar altos impostos. Então, o dinheiro é transferido da Irlanda para o Google Netherlands Holdings BV, nos Países Baixos — os dois países são membros da União Europeia, o que facilita a movimentação.

O pulo do gato é que os Países Baixos têm leis fiscais que garantem isenção de impostos para determinados ganhos. Por isso, a partir dos Países Baixos, o Google manda o dinheiro para o Google Ireland Holdings Unlimited (repare que o nome é diferente) com baixo custo. Ela é uma subsidiária do Google irlandês com sede em Bermudas (!) e pode licenciar todas as propriedades intelectuais do Google fora dos Estados Unidos, com a vantagem de operar em um território que cobra exatamente 0% de imposto para empresas. Engenhoso, não?

Agora os nomes ficaram claros: o Dutch Sandwich se aproveita de um benefício fiscal dos Países Baixos para evitar o pagamento de altos tributos sobre transferência de receita, enquanto o Double Irish é a técnica que envolve a operação de duas empresas irlandesas (uma principal e uma filial localizada num país que cobra baixos impostos, como Bermudas ou Ilhas Cayman).

A Irlanda, obviamente, sabe do problema e já tomou medidas para impedir a gambiarra. Desde 2015, é proibido se utilizar do artifício para evitar o pagamento de impostos — no entanto, as empresas que já possuem essa estrutura podem continuar se beneficiando até o final de 2020. A técnica é bem antiga: segundo o The New York Times, a Apple foi uma das primeiras a utilizar a estratégia, no final dos anos 80.

Você pode discutir nos comentários se isso é ético ou não, mas a declaração oficial do Google, como esperado, é a seguinte: “O Google cumpre com as leis fiscais em todos os países onde operamos”.

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Vítor Caiado
Dinheiro em empresas: Empresário motivado, funcionários satisfeitos, avanço tecnológico, avanço científico, geração de emprego, crescimento da empresa e da região em q ela se encontra. Dinheiro no governo (vide Brasil): Nada. Quando muito, enriquecimento ilícito de uma minoria.
Ligeiro
É difícil responder isso, pois veja bem - geralmente o dinheiro é impresso e gerenciado pelo Estado (que é uma parte da população que "se julga" responsavel) , e quando a própria população tenta usar alguma forma própria de mensuração de valores, ela falha por ganância e egoísmo - o Bitcoin é uma das maiores demonstrações atuais disto. Na cabeça de quem defende a forma "liberal" definida de forma popular, "as coisas são conquistadas por mérito e suas aquisições depende das questões de oferta e demanda". Simplória demais e tal definição pressupõe que toda e qualquer pessoa tem capacidade de conseguir um recurso de valor e depois usa-lo para trocar com outro. Esquece questões sociais, como a concentração de recursos (ao invés do compartilhamento), a manutenção da cultura rico vs. pobre, o uso do dinheiro como escala social, etc... Vide que nos Estados Unidos, não existe um serviço de saúde pública total por exemplo. Ou a Justiça geralmente dá mais valor a quem paga mais (casos de patentes e direitos autorais vem muito de lá...) No "liberalismo", o "dinheiro manda". No capitalismo é simples e fácil ser rico: - Ache algo que consiga o máximo de recurso que puder em pouco tempo, ou a estabilidade de um número de recurso cujo valor será exponencial ao longo do tempo. - Use a matemática para transformar este recurso em algo que a maior parte esteja contigo, e a outra parte você consiga sempre trocar para aumentar ainda mais a este recurso. - Sempre fique nestes dois passos até conseguir o recurso que tanto almeja. Existe uma falha na visão da economia (e nisso posso estar errado em defniir assim) que parte do pressuposto que tudo tem algum valor, e deve ser mensurado naquele valor - principalmente objetos e inobjetos definidos pela população como algo de valor. Como mensurar o trabalho do Google? Ele mesmo fez as contas e deu no que deu - foi tanto dinheiro que ele tem que fazer de tudo para não ter parte do que ele definiu como "valor do seu trabalho" indo de volta aos cofres das sedes originais da empresa. Detalhe que hoje boa parte do uso do Google, ao que noto, é de serviços "gratuitos", onde a definição de valor está em nós como usuários e onde servimos para "apreciar" as propagandas ou serviços condicionados do Google. Nem eu consigo definir melhor que isso. Mas enfim. Não
Samuel Cesar

Essa luta nós sempre perderemos. Não é mais fácil um país mais liberal, aonde passará menos dinheiro no estado?

Samuel Cesar
Essa luta nós sempre perderemos. Não é mais fácil um país mais liberal, aonde passará menos dinheiro no estado?
Ligeiro
Não estou refutando, estou dizendo que o próprio povo é culpado pelas falhas em oferecer as melhorias. Se não partir do princípio que "governo = povo", gera uma distorção que separa governo do povo, e aí cria toda esta situação. Democracia não é a máxima "do povo, para o povo?". Esse é o ponto! O cara que estudou medicina em uma universidade pública paga pelos impostos, e depois, graças a ser pego pela manutenção da mediocridade da mentalidade médica supercartelizada brasileira, no final não é tão diferente do político que veio da região de interior de um estado brasileiro, entrou na carreira política e no final se rendeu aos desvios e corrupções, tal como não é diferente do cara que estudou informática por conta própria na casa dele, depois viu um grande mercado mundial, e para poder concentrar o máximo de dinheiro, não age tão diferente do médico supercartelizado e do político que se rendeu aos desvios e corrupções...
Ligeiro
Isso. O povo gera os corruptos. O povo sofre com os corruptos que gera.
AugustoGalvao50

Então a culpa é do povo!

AugustoGalvao50
Então a culpa é do povo!
Diogo Paiva

Você acabou de refutar todo o seu argumento anterior ao mostrar que é o povo quem tem que procurar melhorias e não o governo que deve dá-las... Se eu estou pagando os impostos e "recebendo" como você diz, não deveria me preocupar em ter que cobrar (com o seu argumento).
Nós não recebemos pelo que pagamos, e isso é fato! Querer argumentar contrário a isso é atestar que não entende nada dos problemas do país.

Só concordo com você na parte que diz que o povo tem que se respeitar. Isso é outro fato do nosso país, tem sempre alguém querendo passar por cima do outro.

Diogo Paiva
Você acabou de refutar todo o seu argumento anterior ao mostrar que é o povo quem tem que procurar melhorias e não o governo que deve dá-las... Se eu estou pagando os impostos e "recebendo" como você diz, não deveria me preocupar em ter que cobrar (com o seu argumento). Nós não recebemos pelo que pagamos, e isso é fato! Querer argumentar contrário a isso é atestar que não entende nada dos problemas do país. Só concordo com você na parte que diz que o povo tem que se respeitar. Isso é outro fato do nosso país, tem sempre alguém querendo passar por cima do outro.
Ligeiro
O ponto é que se fala que é "legal" teoricamente. Mas na prática, a diferença entre ser legal ou ilegal é só uma canetada. Não é paixão, é realidade. E não tenho cargo comissionado. Fique a vontade para pesquisar sobre minha vida e não achará nada. Não sou Maluf nem Lula. :p
Ligeiro
Melhor ser inocente do que ser cúmplice.
Cadela

Ou tu é um inocente ou só pode estar brincando.

Toquinho
Ou tu é um inocente ou só pode estar brincando.
Anakin

Se você não leu a matéria, eles usam de forma legal, sem esconder, só escolhem o caminho com menos tributos, você que parece não entender, ou não ter lido a matéria direito.
Mas sua paixão é tão grande, que parece até que tem cargo comissionado.

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