Essa é a reclamação mais comum entre os usuários ou interessados em livros eletrônicos: o preço. Faz sentido um livro eletrônico custar, para o usuário final, o mesmo preço (ou quase) de um livro de papel?

Devido aos emails e comentários queixosos que venho recebendo, decidi correr atrás de respostas. Não só pesquisando na internet — onde tenho encontrado informações equivocadas. Estou em contato com algumas lojas brasileiras que vendem livros digitais — ou que em breve, passarão a vendê-los. E também analisando a política de algumas editoras.

Quanto custa produzir um livro digital?

O que posso dizer até agora é que a coisa não é tão simples como parece. Envolve leis, direitos autorais, contratos, tributações, licenças e uma série de intermediários para que um livro digital chegue até o seu computador. Não é só pegar o conteúdo autoral e colocá-lo à venda na internet. O processo todo passa por pelo menos 7 intermediários!

Uma coisa que não existe no livro de papel é o famigerado DRM. Ou digital rights management, uma tecnologia que impede a cópia desautorizada do produto autoral, a fim de evitar a pirataria. As tradicionais grandes editoras são unânimes na exigência desse tipo de proteção caso se deseje tornar uma obra disponível digitalmente à venda. Porém, a responsabilidade pela aplicação dessa “proteção” é da loja. Ainda que se usem formatos abertos, como o ePub, uma licença para uma solução de aplicação de DRM, como a da Adobe, sai pela bagatela de R$ 80 mil. E o pior de tudo, como estamos carecas de saber: o resultado limita a maneira como o usuário final lida com o produto adquirido, trazendo muitas vezes uma experiência frustada de leitura. E inibindo as vendas.

Para uma editora, o fato de não haver custo com papel ou distribuição não vem ao caso. O trabalho de editoração existe, os gastos com marketing e divulgação permanecem e, o mais importante de tudo: os contratos com os autores, salvo se houver cláusulas específicas à parte, permitem o mesmo tratamento de uma obra independente do seu formato. Para audiobooks, por exemplo, há cláusulas à parte. Aliás, os autores são os que recebem a menor fatia do bolo na venda de um exemplar de sua obra.

E as editoras querem manter sua filosofia e seu lucro. O exemplo da indústria audiovisual, infelizmente, ainda não os atingiu. Por enquanto.

Acaba sobrando para as lojas. O modelo de negócios da Amazon é de um risco imenso para a grande varejista eletrônica. Muitas vezes, o preço menor aplicado a determinado título, como promoção ou incentivo frente às concorrentes, é bancado pela própria loja, que acaba trabalhando no prejuízo. Embora não haja gastos com logística, há o custo com servidores, que permitem o sincronismo e armazenamento de informações de conta de cada usuário. E com a rede whispernet — a internet que o usuário final usa de graça para baixar seus livros, sincronizar dados e navegar na loja online ou na web por meio do browser embutido. São gastos altos e, por enquanto, as contas estão fechando no vermelho, na esperança de que um dia o modelo se acerte.

O mercado inteiro ainda está tateando no escuro. As novas tecnologias surgem de uma maneira espantosamente rápida, de modo que as leis e a mentalidade dos publishers não conseguem acompanhar.

Quando se fala em Brasil, então, a coisa complica muito mais. Nossa carga tributária é elevada. A quantidade de impostos acumulados pela qual passa um livro (seja qual for o formato), em todas as etapas, até chegar às nossas mãos, é espantosa.

Sobre os leitores de eBooks, os eReaders, que são importados, não há esperança na isenção de impostos a fim de equipará-los a livros convencionais que igualmente vem de fora. Até que mudem de idéia, ou surja alguma jurisprudência, os eReaders são produtos eletrônicos e não meros visualizadores de livros. Afinal, eles também tocam áudio e tem navegador.

E, por fim, uma intrigante pergunta: o que é um livro eletrônico?

O mesmo debate se sucedeu quando MP3 passou a ser sinônimo de música digital. O que é música digital? Ainda há segmentos discutindo se é produto, serviço, ou “arquivo de computador”. Porque basta uma denominação diferente para tudo ficar de ponta-cabeça em termos de legislação.

Com os eBooks é ainda mais complicado defini-los. Um “livro” como Alice, no iPad, pode ser considerado “livro”? Ou é software? Ou é multimídia? Em que categoria encaixá-lo? A lei ainda não é precisa o suficiente para classificá-lo.

E para ser sincera, nem eu mesma consigo. Eu compreendo “livro” como um meio que provoca a análise crítica e a imaginação do leitor sobre determinado conteúdo. Mas Alice parece estar mais para um produto audiovisual.

E agora, José?

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Tama1983

8 anos depois desse artigo digo que ainda estão caros e bosta de DRM não barra pirataria alguma pois o que você mais vê é livro digital "pirata" pra baixar. Em função de preço abusivo em mídia digital quando deveria ser o contrário que prefiro a categoria Jack Sparrow mesmo.

josé geraldo de paula carqueij
Discordo!!! Todo mundo é honesto até prova em contrário.Ninguém comete crime por antecedência. Encarecer um produto baseado no índice de desonestidade presumível do cidadão é colocar toda a população de um País na condição de "bandidos eventuais". É a pratica utilizada pelos "agiotas autorizados" donos de bancos que aumentam o custo do dinheiro emprestado ao cidadão bom pagador com a justificativa de que tem que recuperar o prejuízo que os maus pagadores causam a instituição, porém, ao final do contrato de empréstimo e confirmada a honestidade do bom pagador não lhe devolvem o excedente cobrado..resumo os agiotas donos de banco não dividem seus lucros com ninguém, mas, cobram antecipadamente por um "eventual prejuízo" que possam ter !!! Detalhe...com a anuência e beneplácito dos governos que sucessivamente, fazem o beija mão aos banqueiros...
Carlos
Posso estar sendo razoavelmente "lurker" em responder a um questionamento de 2010, mas aqui vão os meus parcos comentários. O que é atingido pela norma imunizante, (Constituição Federal, art. 150, VI, d) é o "produto" livro. Os entes administrativos (União, Estados e Municípios) não têm competência alguma para instituir tributos sobre o "produto" livro. Assim o ISS (municipal), tampouco ICMS (Estadual), ou demais impostos federais (Importação, Exportação, IPI, etc.) não podem ser exigidos. Isso não elide a tributação de toda a indústria envolvida no que não disser respeito a ele. O lucro que a empresa auferir da venda do papel destinado a livros (imune) será tributado normalmente. As obrigações acessórias tributárias (manter os livros caixa na sede do estabelecimento, por exemplo) também tem que ser cumpridas, caso contrário a empresa se sujeita a uma multa pelo seu descumprimento de 75% ou mais. Dependendo do tamanho da empresa, esta é forçada a alugar verdadeiros galpões para dar cabo de toda documentação contábil exigida pelo fisco e isso é um custo que não se pode desprezar também. A legislação os faculta, ironia das ironias, manter os "livros" contábeis em formato eletrônico. Você, empresário, vai correr o risco de topar com um fiscal linha dura que quer ver os ditos cujos no formato tradicional porque tal fiscal não sabe uma vírgula de informática? Melhor pagar os galpões. Isso ou subornar o fiscal, o que é mais um componente do custo Brasil que todos pagamos quando adquirimos um livro, pois no frigir dos ovos o custo da corrupção é repassado para nós, consumidores. Reitere-se: sobre a venda "pura" do produto "livro" realmente não recai nenhum tributo. Indiretamente, contudo, muitos são os impostos ainda devidos por toda a indústria editorial. Não estou aqui para defendê-los, mas é melhor refletirmos um pouco mais sobre o que perfaz o chamado custo Brasil antes de apontar alguém puramente como ganancioso e ponto final. Se os pintamos como gananciosos, eles, por sua vez, nos pintarão como ladrões devido à pirataria em massa que aqui ocorre e contra a qual a população, em massa, é conivente a tal ponto de achá-la normal. Não é! O autor tem direito a receber pela sua obra; as empresas que os detém, também! Piratear é achar que alguém está trabalhando de graça seja para seu divertimento (quem nunca pegou um mp3 ilegal?), seja para seu trabalho (Office pirata é a coisa mais normal do mundo por estas bandas). No fim das contas, não existe almoço grátis - alguém vai pagar a conta. Não podemos ser hipócritas e achar que é possível atinar com dois pesos e duas medidas. Eles são gananciosos desalmados? Podem ser. Somos santinhos do pau oco? Também.
Cheferson
Sou autor de ebooks e de um livro via editora. Ao DRM não é tão caro assim não. Digo que os leitores de ebook ainda tem valor caro para os padrões brasileiros. Porém, editoras cobrarem o mesmo preço de um ebook do livro físico é ridículo! O maior custo de produção de um livro é o papel. E papel no Brasil tem preço maior que nos outros países. No Ebook não se tem custos de papel. Um ebook deveria ter o preço de no máximo 60% do valor original. pois temos custos com capa, revisão e diagramação, direitos do autor. Pra vcs verem o absurdo que ocorre no Brasil, o padrão do mercado pra livros físicos é: 10% - direitos do autor 10 a 25% - Editora 50% a 60%- Livraria + Distribuidora 5% - custos fixos que só ocorrem uma vez (diagramação, isbn, revisão ortográfica). Pegue por exemplo um livro de 30 reais. Ficaria +- assim os valores: 3,00 - autor (direitos autorais); 9,00 - Editora; 15,00 - Livraria + Distribuidora Considerando que no Ebook você teria somente gastos em hospedar os arquivos (o que é baratíssimo hoje em dia) e que vc não tem livraria nem distruibora na jogada, você pode oferecer o ebook por 50% do valor do livro físico sem comprometer suas margens de lucro. Isso são exemplos apenas.
Rafael
A única explicação justificável, ao meu ver, é o DRM, Ou digital rights management, citado por Bia. Eu não tinha conhecimento desse DRM, mas devemos levar em consideração os custos que os livros tangíveis tem com transporte e armazenamento, que não são baratos. Outra observação importante é que existem casos, livros didáticos por exemplo, em que muitas obras se tornam obsoletas, por haver mudanças tecnicas do assunto tratado. Desse modo muitos livros são perdidos, mas mesmo assim as editoras conseguem ter um lucro satisfatório. Algumas editoras, creio eu, além de custo com frete, ainda tem custo com seguros contra perdas anormais de livros, incêndio, enchente, etc. Acredito que esse seguro não cubra as perdas por sobras de livros no mercado por não atenderem mais a realidade tecnica atual, e se caso houver, é praticamente o mesmo custo das sobras não vendidas. Eu observo um certo abuso de algumas editoras com os consumidores. Percebemos, por exemplo, livros ditáditos que mudam de edição mas que apresenta exatamente o mesmo conteúdo da edição anterior, e para piorar, acrescentam no resumo uma observância inédita que não está contida ou evidenciada no livro. Acredito também que muitas editoras têm parcerias com gráficas ou até sejam sócios. Então faturam tanto pela editora quanto nas gráficas, o que tornaria o custo de impressão bastante baixo, pois iria gastar pela impressão, e do outro lado, na gráfica, iria ganhar um determinado valor menos os impostos. No entanto, o custo total de impressão iriam participar na formação de preços do produto. Diante disso, eles colocam um preço competitivo nos livros digitais para não perderem vantagens com as gráficas. Acho que existem muitas parcerias em jogo, mas é só uma hipotese, não um fato comprovado.
Cláudio
E agora? Pirataria total! Ninguem consegue ver como a Apple combate a pirataria? Vendas maciças com preços ínfimos. Vender músicas e aplicações por U$0,99 massacra a pirataria, pois os usuários pagam pra ver qualquer coisa. Não digo que um e-book tenha que custar 0,99, deveria custar entre 4,99 e 9,99, com isso, as vendas seriam imensas, pois o critério para pagar 5 reais não é o mesmo para pagar 40. O conceito da vez é ganho em escala, não há como competir com a pirataria com os preços praticados hoje. Ao invés de se comprar 4 e-books caros por ano, os usuários comprariam 30...
dmmg
Olha, minhas suspeitam recaem sobre as editoras mesmo, pelos seguintes motivos (estou comentando o caso brasileiro apenas): - O mesmo livro, com mesma qualidade, custa muito mais caro no Brasil que lá fora. (as vezes vc ainda compra uma versão capa dura em inglês mais barato que uma normal aqui). - A redução de impostos para editoras, já discutida em outros comentários. - Quando se vai num evento como a bienal do livro em São Paulo, os preços praticados pelas editoras em seus próprios stands é simplesmente o mesmo que o praticado pelas livrarias, sem tirar um centavo. - Mesmo com a popularização das lojas online, e o aparecimento de diversos novos canais de venda não tradicionais (submarino, americanas, e mesmo mercado livre), não vemos redução significativa no preço e nem grandes editoras abrindo lojas próprias e vendendo a preços inferiores. Concluindo, só sobram as editoras...
Ricardo Luiz
Oi pessoal,Bia, No caso de livros há um impedimento de cobrança de impostos pela Constituição, seja livros , jornais, revistas e periódicos. Até aonde eu sei o papel destinados a impressão dos mesmos tb é imune, ou seja, não paga nenhum imposto. O que estamos falando mesmo é da ganância com que as editoras acostumadas a lucro fácil lidam com o fato. Com livro importado é a mesma coisa : só paga o frete. O conhecimento deste fato já me levou a discutir com a dona (?) da Bucherstube ( livros técnicos) quando tentaram me empurrar a desculpa do preço abusivo comparado aos lá de fora. Livro não paga imposto. Se te cobram estão colocando no bolso.
Cris
Pessoal, Apenas uma opção para quem quiser postar seus livros de forma gratuita: a Bookess. Eles tem um esquema bem alternativo e colaborativo, além de prático. O site é http://bookess.com. Agora a equipe da Bookess também está montando um blog. Abraços, Cris
Bruno Gall
Para pessoas com pouca renda um eBook sai melhor porque não paga pela editora
Olival Junior
Não entendi a parte sobre a carga tributária brasileira sobre livros. Até onde lembro, em 2004 houve uma desoneração tributária deste setor (vide http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u48378.shtml). E nem sequer pagamos impostos sobre livros importados. Agora, falando do mercado que conta (EUA), ainda não consigo engolir o preço dos e-books técnicos na Amazon. Precisei comprar um de administração que era vendido por cerca de U$63,00 versão capa-dura, com + de 460 páginas, e paguei US$58,00 na versão e-book pro meu Kindle. Míseros 5 dólares de diferença(!!!). Mesmo com todos os intermediários, pra mim este valor só pode ser justificado por ganância das editoras mesmo.
tplayer
Outro fato que deve ser levado em consideração é o custo do aparelho, já que isso eleva o custo da biblioteca virtual do usuário em algumas centenas de dólares.
Rudolfh Bantim
Fato, quem compra livros vai comprar pela Amazon, pois ninguém vai entender um livro eletrônico ser mais caro que um livro em papel. No no Brasil mal se paga por software, não se vai pagar por bits o mesmo que material físico. De qualquer forma, vai ser bom para os pequenos escritores que poderão lançar seus livros via Amazon de uma forma bem mais barata. A Amazon está pagando o preço pela inovação, mas de qualquer forma no futuro, seja pelas as grandes editoras ou pelos pequenos autores ela vai ter lucro.
Breno Brito
E agora, FU! Bom, inicialmente, belo texto e pesquisa que vc realizou, amei =) Então, concordo com tudo com o que vc disse e só um pequeno exemplo. Em 2007 um professor meu escreveu um livro, com muito custo achou uma editora, definiu formato do livro, tipo de impressão e blablabla... No final o livro ficou muuuito caro para o seu propósito, R$45,00 se não me engano. E pra completar, o meu professor recebia uma enorme quantia de R$5,00 por livro vendido, o resto era editora e para cobrir gastos do livro e tributos. Só sei que, pelas contas do meu fessor, a editora faturava cerca de 15 pratas por livro (e devia ser mais, pois é claro que a editora não ia passar os gastos reais que ela tem com os livros). Isto desanima qualquer pessoa se tornar escritor nesse país...
Fabio Luiz
Concordo em parte com o texto da querida Bia. Queria escrever todo o meu ponto de vista, mas tornaria meu comentário, maior que o post. Resumindo: Um livro também tem vários intermediários no processo, às vezes bem mais que 7. Como você citou a difícil classificação de Alice para iPad, a infantilização da interface também existe nos livros impressos. Todos já vimos o uso de facas, dobraduras e combinação de dezenas de materiais diferentes em um livro, principalmente da categoria infantil, que no final ainda é caracterizado como livro e não brinquedo. Mas imagino que o foco do assunto deveria ser os livros adultos, que tem a característica primária de um livro (capa, traduções, ilustrador, o próprio autor, revisor...). Como você também citou como "mais um custo" o uso de servidores, isso é bem óbvio já que a logística e armazenagem de materiais físicos é bem mais cara e com custo progressivo maior que armazenar livros digitais em servidores que trabalham 24 e com equipe MUITO menor. A minha pergunta e que imagino que é a da maioria das pessoas não foi respondido no seu texto: Um livro de mesmo título como "Crime e Castigo" (que já tem uma tradução que serviu para o impresso, além de ser uma obra que não se tem direitos autorais por ter mais de 100 anos, ou seja, domínio público), ou um livro de arte que usa materiais nobres (que quintuplicam o valor do livro impresso), qual seria a explicação para ESSES livros serem mais caros ou de igual valor de uma versão digital? Parabéns à Bia por ter levantado esse assunto.
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