O ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) é acusado de comandar um esquema de propina no Rio de Janeiro, e documentos da Operação Lava-Jato mostram como os envolvidos usavam diversas ferramentas tecnológicas para se comunicar, incluindo mensagens criptografadas através do finado MSN.

O ex-governador Sérgio Cabral (foto por Pedro França/Minc. Brasil)

O doleiro Marcelo Chebar conta em delação premiada que enviava dinheiro para o exterior por orientação de Cabral, mas os valores aumentaram muito depois de 2007 – quando ele foi eleito governador do RJ. Por isso, foi preciso terceirizar o serviço para outro doleiro, Vinícius Claret, conhecido como “Juca Bala”.

Chebar se comunicava com “Juca” pelo MSN, mas não usando o cliente oficial da Microsoft, e sim uma alternativa chamada Pidgin. O motivo: dessa forma, era possível criptografar as mensagens.

Para tanto, o remetente e o destinatário precisam instalar o plugin de um protocolo chamado OTR (Off-the-Record Messaging). Feito isso, ninguém mais sabe do que se trata a conversa. Para quem está de fora, ela aparece assim:

Segundo Chebar, foi o próprio “Juca” que sugeriu usar o Pidgin devido ao recurso de criptografia. O doleiro recebia reais enviados por Cabral e entrava em contato com “Juca” pelo MSN (através do Pidgin) para fechar a taxa de câmbio. Uma vez definidos os valores, uma equipe ia ao escritório de Chebar no Rio para realizar a operação.

O controle de pagamentos e recebimentos era feito por meio de planilhas de Excel, que eram sempre armazenadas em um pendrive criptografado com o Steganos Safe. Este programa protege seus arquivos com senha, e também permite criar uma partição escondida. Após o uso, os pendrives eram destruídos.

Isso não deve ser usado como um argumento contra a criptografia. É insensato propor brechas propositais em algoritmos de encriptação, já que isso deixaria todo mundo menos seguro – não existem backdoors “do bem” – e porque é possível realizar investigações de outra forma, incluindo metadados (registros de comunicação sem o conteúdo das mensagens em si).

E, no caso do esquema de Cabral, eles nem sempre dependiam de criptografia. O outro truque na manga era usar um e-mail que servia como depósito de arquivos, e que nunca enviava mensagens – dessa forma, elas não poderiam ser interceptadas. Carlos Miranda, apontado como responsável por recolher propinas de Cabral, criou a conta [email protected] que recebia arquivos na pasta de rascunhos.

Chebar tinha a senha, assim como Miranda, e ambos trocavam ordens de transferência de dinheiro e até mesmo boletos para pagamento. Em um dos casos, o dinheiro de propina custeou despesas do filho mais velho de Miranda em um curso realizado na New York Film Academy.

Esses detalhes vieram à tona graças à Operação Eficiência, deflagrada em janeiro. Segundo o jornal O Globo, Chebar revelou contas de propina onde estavam escondidos US$ 101 milhões (cerca de R$ 340 milhões); e, desse valor, R$ 250 milhões foram repatriados e servirão para pagar o décimo terceiro atrasado de aposentados e pensionistas no RJ.

Com informações: MPF (1), (2).

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Samuel Cesar
E ainda não acharam alguns bitcoins?
O verso do inverso
Sobre as pessoas que os protegem, estava me referindo as organizações criminosas, mais conhecidas como centrais sindicais (CUT e afins...)
BrunoMontanha

Mas é torto e bem torto!
É o Direito que não é ensinado na Faculdade, mas na profissão conforme o cara desdenha suas experiências baseado no lucro muito acima da Ordem à qual ele estudou e passou.
"Paga-se bem, livra-se qualquer um..."

Bruno Ribeiro da Silva
Mas é torto e bem torto! É o Direito que não é ensinado na Faculdade, mas na profissão conforme o cara desdenha suas experiências baseado no lucro muito acima da Ordem à qual ele estudou e passou. "Paga-se bem, livra-se qualquer um..."
CtbaBr©

Esse "Direito" me parece "Torto"!

CtbaBr
Esse "Direito" me parece "Torto"!
BrunoMontanha

Bons advogados conseguem tudo... Essa é a Lei do Direito.

Bruno Ribeiro da Silva
Bons advogados conseguem tudo... Essa é a Lei do Direito.
Truculento
Em um dos casos, o dinheiro de propina custeou despesas do filho mais velho de Miranda em um curso realizado na New York Film Academy. Playbozin safado
NoobIsrael
Vou dar uma olhada, só pra testar mesmo, não tenho documentos que precisem dessas tecnologias.
Adriano
Não, não é um encriptador de partições, é uma suite de criptografia.
NoobIsrael
Esse daí tem o mesmo propósito do VeraCrypt?
Ed. Blake
Dinheiro no cofre pra contratar consultoria especializada em segurança da informação não faltou.
Ricardo - Vaz Lobo
Claro que não foi a ORCRIM que inventou isso: o know-how veio de algum lugar.
Alberto Prado
Mas acredito que rodaram mais por motivos alheios do que uma falha nesse esquema de segurança todo adotado por eles.
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