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Por que o vídeo deste YouTuber famoso sobre a “floresta da morte” é tão problemático

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03/01/2018 às 10h50
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Logan Paul é um YouTuber com mais de 15 milhões de inscritos que começou sua fama no Vine. Ele tem 22 anos e publica vídeos constantemente envolvendo sua vida luxuosa, seu cachorro Kong e seu irmão Jake Paul, também famoso no YouTube.

No último dia de 2017, Paul publicou um vídeo de um cadáver em Aokigahara, local mais conhecido como a “floresta dos suicídios” do Japão — onde mais de 247 pessoas tentaram tirar suas próprias vidas só em 2010.

Imagem do polêmico vídeo de Logan Paul, removido do YouTube

“Será que nós achamos uma pessoa morta na floresta suicida? Essa era para ser uma experiência divertida de vlog”, disse Paul no vídeo, antes de soltar várias piadas sobre a vítima pendurada em uma árvore.

Dentro de um dia, o vídeo “Encontramos um defunto na Floresta dos Suicídios no Japão” atingiu mais de 6,5 milhões de visualizações. Ele claramente violava as Diretrizes da Comunidade do YouTube, mas foi Paul quem o retirou do ar, após sofrer duras críticas.

Ele se desculpou inicialmente por escrito, dizendo: “eu faço isso todo dia. Eu fiz um programa de televisão de 15 minutos TODO SANTO DIA pelos últimos 460+ dias. Pode-se entender que é fácil ficar empolgado no momento e não pesar completamente as possíveis ramificações”.

Depois veio um vídeo de desculpas, em que Paul diz: “eu nunca deveria ter postado o vídeo, eu deveria ter baixado as câmeras. Cometi um grande erro, e não espero ser perdoado”.

Suicídio por contágio

Segundo a Wired, o vídeo original começava com um alerta de conteúdo explícito (sem mencionar suicídio); tinha o telefone de contato para serviços de prevenção a suicídio (incluindo um no Japão); borrava o rosto da vítima; e foi desmonetizado por Paul, ou seja, ele não ganharia dinheiro de anúncios.

Nada disso foi o suficiente. O perigo é que pessoas se inspirem a tirar a própria vida após acompanharem uma cobertura detalhada e sensacionalista de suicídio — algo chamado “suicídio por contágio”.

Como explica o The Verge, as pessoas não se matam por apenas um motivo, como assistir a um vídeo. No entanto, a exposição ao suicídio pode aumentar o risco desse comportamento entre pessoas vulneráveis. Jovens adultos são especialmente suscetíveis, segundo a CDC — e o público de Paul é principalmente jovem.

Ser exposto ao suicídio, seja diretamente (por exemplo, a morte de uma pessoa próxima) ou indiretamente (através da cobertura da mídia), pode influenciar uma pessoa a fazer o mesmo.

O risco aumenta quando a mídia glamouriza uma morte, descreve o método e a vítima em detalhes, e usa manchetes dramáticas contendo a palavra “suicídio”. O título do vídeo de Paul, como dissemos, era “Encontramos um defunto na Floresta dos Suicídios no Japão”.

E o YouTube?

O problema, é claro, não está apenas em Paul — está no YouTube. A plataforma prometeu reforçar a equipe em 2018 para evitar abusos, como vídeos “infantis” que exibem conteúdo violento, ofensivo e até mesmo erótico.

O pedido de desculpas do YouTube foi ambíguo, deixando em aberto se o vídeo da floresta suicida realmente violava suas diretrizes ou não.

Nossas condolências vão para a família da pessoa que aparece no vídeo. O YouTube proíbe conteúdo violento ou sangrento publicado de forma chocante, sensacionalista ou desrespeitosa. Se um vídeo for gráfico, ele só pode permanecer no site caso forneça informações educacionais ou documentais apropriadas e, em alguns casos, será restrito a maiores de 18 anos.

O ator e apresentador Ed Petrie trabalhou doze anos com televisão para crianças, incluindo Nickelodeon e o canal britânico CBBC, e levanta uma crítica pertinente no Twitter. “Você consegue imaginar os protestos se a CBBC desse aos apresentadores uma plataforma para mostrar imagens de vítimas de suicídio para crianças? Mas o YouTube permite que essas coisas aconteçam, e parece achar que tudo pode continuar como de costume. Por que eles não estão sujeitos às mesmas regras que o resto de nós?”

A consultoria SocialBlade estima que Paul ganha até US$ 14 milhões por ano. O YouTube fica com 45% do dinheiro de publicidade gerado através dos criadores (exceto quando o vídeo é desmonetizado).

Ou seja, existe um incentivo — ainda que implícito — dos canais e do próprio YouTube para conseguir o máximo de visualizações possível. O vídeo de Paul, que filmou uma vítima de suicídio para fazer piadas, leva isso às últimas consequências.

Se você ou algum conhecido está tendo pensamentos suicidas, procure ajuda. Ligue 141 para contatar o CVV (Centro de Valorização da Vida), converse por chat através deste link, ou visite o posto de atendimento mais próximo.

Com informações: Wired, The Verge, Mashable.