Se com sucesso de crítica ou não, a Netflix tem cumprido a promessa de investir pesado em produções originais. Uma delas, Okja, chegou a marcar presença no Festival de Cannes do ano passado. Mas esse feito não deve se repetir na edição 2018, marcada para maio: os filmes da Netflix foram proibidos de participar do evento por não estrearem no cinema.

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A Netflix espera fechar 2018 com 700 produções originais, incluindo séries, especiais e filmes. Acima de tudo, essa é uma estratégia de sobrevivência: a companhia sabe que fechar contratos de licenciamento ficará cada vez mais difícil por conta das elevações dos custos e da entrega exclusiva de determinadas obras a concorrentes.

Para produtores independentes ou de pequeno porte, esse cenário tem sido interessante. A Netflix coloca em seu acervo produções originais de diversas partes do mundo e, para tanto, vem contratando muitas dessas empresas. A quantidade de conteúdo original na plataforma aumentou tanto que uma produção ou outra acabaria mesmo sendo indicada para festivais ou premiações.

Okja é um exemplo notável. Assim que o logotipo da Netflix apareceu na reprodução do filme no Festival de Cannes do ano passado, a plateia se dividiu entre aplausos e vaias. Talvez parte das expressões de reprovação viesse de uma falha técnica que fez as cenas saírem cortadas no início, problema que foi corrigido cerca de 15 minutos depois.

Mas, para muitos dos que estavam presentes, o problema técnico serviu de provocação. Era como se a Netflix estivesse dizendo “opa, foi mal, o não é um filme para rodar no cinema”. Esse é justamente o centro da polêmica: para muita gente, filmes não criados originalmente para exibição nas grandes telas das salas de cinema não devem fazer parte de um evento tão tradicional.

Ciente das argumentações, a Netflix até teria tentado exibir Okja em alguns cinemas da França para habilitar o filme ao Festival de Cannes, mas requisitos referentes ao cronograma de exibição não seriam cumpridos a tempo. De qualquer forma, muitos dos participantes do evento acreditam que um filme só pode entrar se tiver uma programação verdadeira para salas de cinema, não uma sequência de exibições improvisadas.

Como uma plataforma de streaming, a Netflix não está disposta a levar as suas produções para o cinema. Talvez haja uma exceção ou outra, mas, como regra, uma decisão do tipo iria atacar o seu próprio modelo de negócio. Diante da recusa, Thierry Fremaux, diretor do Festival de Cannes, disse que nenhuma produção da Netflix poderá participar da edição deste ano.

Na verdade, Netflix e outras plataformas de streaming até poderão exibir produções próprias no evento, mas nenhuma delas poderá concorrer à Palma de Ouro. “No ano passado, quando selecionamos esses dois filmes [Okja e Os Meyerowitz], achei que poderia convencer a Netflix a lançá-los nos cinemas. Eu fui presunçoso, eles se recusaram”, disse Fremaux ao Hollywood Reporter.

Vários nomes fortes da indústria cinematográfica apoiam a decisão, direta ou indiretamente. Steven Spielberg, por exemplo, declarou em entrevista recente à ITV News que o conteúdo original da Netflix deveria ser considerado televisão e, portanto, algo inelegível para o Oscar. “Quando você se compromete com um formato televisivo, você é um filme de TV”, disse.

Elenco de Okja no Festival de Cannes de 2017 (Foto: AFP)

Elenco de Okja no Festival de Cannes de 2017 (Foto: AFP)

Esse é um assunto que ainda tem espaço para muita discussão. De um lado há a íntima e tradicional ligação do Festival de Cannes com o cinema. Do outro está uma nova e irreversível forma de acesso a filmes que trouxe perspectivas para produtores com baixo orçamento que, de outra forma, teriam dificuldades para emplacar filmes.

O sul-coreano Joon-Ho Bong, principal nome por trás de Okja, chegou a dizer que entende o motivo das vaias ao filme na edição 2017 do festival, mas que, se não fosse pela Netflix, a produção não teria saído, não da forma como foi concebida.

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Carlin

Imagino que criar um premio só para quem oferece serviço de streaming não seria interessante, existem poucas empresas com muito poder de produção se comparado a Netflix, ficaria meio que "roubado". Acho que eles poderiam criar um premio para prestigiar as produções da casa, levando em conta a votação do publico e um numero considerável de críticos.

robsonc

O Emmy poderia ter falado a mesma coisa, dizendo que Streaming não é TV, mas não fez porque eles não são tão retrógrados como o pessoal do "cinema". "~Cinéfilo~" é uma gente que olha... Filme é filme, sendo feito pra TV, feito para streaming, VR, e seja lá o que mais vier. No fundo pouco importa a opinião dos festivais atual pois a indústria já mudou, eles vão ter de se ajustar uma hora ou outra.

JN Marcos

Eh, você tem razão.

LekyChan

vai acontecer o mesmo que acontece com os filmes lançados direto para o Disney Channel

Ed. Blake

"Cinema (do grego: κίνημα - kinema "movimento") é a técnica e a arte de fixar e de reproduzir imagens que suscitam impressão de movimento, assim como a indústria que produz estas imagens." - Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cinema

O pessoal confundiu o conceito da cinematografia com sala de cinema. É como se pintar um quadro e colocar numa parede não fosse arte. Só pode ser artista quem expõe em galerias.

JN Marcos

Os cinemas com certeza sentiram a ascensão dessa possibilidade de assistir filmes, mas não vejo como algo com um fim, como o CEO da Netflix afirmou.

Continua sendo preponderante a ida das pessoas ao cinema para ver os "filmes do momento", de forma legal. Serviços de streaming quase não conseguem ter conteúdo em mãos ao mesmo tempo que se passa na tevê, imagine os que passam no cinema... Filmes batendo recordes de bilheteria. Cinema não morrerá nem tão cedo. Até hoje existe jornal, que foi decretado morto com a chegada das rádios.

JN Marcos

Cara, tinha pensado exatamente nisso. Tanto não acabaria com seu modelo de negócio, quanto possibilitaria que os filmes produzidos pelos "seus" produtores, diretores, atores fossem premiados. Porém, é algo viável somente para alguns filmes, outros ainda continuariam sem possibilidade disso. Outra opção, já sugerida, criar um prêmio em conjunto com outras empresas de streaming.

JN Marcos

A Disney vai lançar seu serviço de streaming. Vamos ver o que vai acontecer se ela chegar a realizar isso. Teoricamente, se ela lançar o filme somente para streaming realmente não poderia concorrer.

JN Marcos

O pessoal tá indo pela emoção, de a Netflix ser uma marca cool, na questão.

JN Marcos

Basicamente, considera-se que existem 7 artes, dentre elas o cinema. Então, se formos parar para pensar, eles não estão errados.

https://pt.wikipedia.org/wi...ção_das_artes

Ed. Blake

Traduzindo: Não é uma premiação artística mas comercial.
Arte é arte independente de onde é exibida.

Magnosama

Justo.

Cannes, Oscar... são festivais de cinema. Se um filme não estreia no circuito, não concorre. Na verdade não existe uma discussão real a respeito disso.
Spilberg está corretíssimo, filmes da Netflix e afins, devem concorrer em premiações de TV. Isso não significa que os filmes sejam piores ou menos artísticos. Simplesmente não foram feitos (ou vendidos) pra cinema.

Simples assim.

Rodolfo Alves de Abreu

Isso é típico de pessoas que querem controlar informacao, entretenimento, e outras mídias. O discurso de "se não for do nosso jeito, não conta".
Queria ver o que aconteceria se um grande estúdio lancasse seu proppró serviço de streaming e passasse a lançar alguns dos filmes que eles sabem que não terao grande retorno no cinema, só no seu serviço. Será que ainda teriam essa posicpo se um filme que fosse muito bom, mas não teve a repercussão pra ir pro cinema, e quisessem premiar?

Carlin

Bem que a Netflix poderia fazer algumas estreias em cinema de alguns dos seus filmes. Imagina só alugava algumas salas, e o usuário do serviço de casa poderia gerar um código na sua conta da Netflix, logo ele poderia ir a algumas dessas estreias sem "custo" algum, já que ele assina o serviço. O intuito é só alfinetar claro! Mas que iria gerar um hype, isso iria mesmo!

Henrique Dias

Em algum momento isto será inevitável, os cinemas estão há alguns anos sentindo o poder da internet, que foi acentuado com ascensão dos serviços de Streaming, o lobby será cada vez mais forte....

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