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Dez anos de Spotify: como o serviço mudou a indústria da música

Spotify completa dez anos comemorando 180 milhões de usuários em 65 países. Saiba como a empresa surgiu e transformou o mercado de streaming de música.

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12/10/2018 às 12h12
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Spotify

O Spotify não inventou o streaming de áudio, mas atingiu um nível tão alto de relevância que, hoje, é sinônimo de música digital. Prova disso é que, nesta semana, a companhia completou dez anos de existência com números respeitáveis: são 180 milhões de usuários ativos, cerca de 40 milhões de canções no acervo e mais de € 10 bilhões pagos em royalties.

A companhia sopra dez velinhas comemorando o status de referência: lembramos da Netflix para streaming de filmes, do Google para buscas na web e do Spotify para música. Porém, a celebração também acena para um desafio difícil de ser superado: o serviço ainda não dá lucro.

Que tal saber um pouco mais sobre a trajetória do Spotify e os seus desafios para o futuro?

A figura de Daniel Ek

Pode soar surpreendente saber que o Spotify existe há dez anos, afinal, o serviço só ganhou projeção mundial de uns cinco anos para cá. Mas a verdade é que a história da empresa começa muito antes, em 2006, época em que a ideia do streaming de música parecia utópica por conta da baixa quantidade de conexões rápidas à internet.

Baixa, mas nem tanto. A pirataria de música era muito forte naquele período e as alternativas legais pesavam no bolso ou eram deveras limitadas. Você tinha que recorrer a serviços como iTunes para comprar músicas, por exemplo. Plataformas de streaming já existiam, mas tinham acervo pequeno ou eram restritos a determinados países, como os Estados Unidos (vide o Pandora).

Daniel Ek

Daniel Ek

Esse cenário começou a mudar graças a um jovem chamado Daniel Ek. Seguindo os exemplos de seus avós, que eram músicos, ele aprendeu a tocar violão e a cantar quando criança sem, no entanto, saber que um dia o seu apreço pela música mudaria os rumos do mercado.

Mas Ek não escolheu a carreira de músico (apesar de dizerem que ele tem uma música escondida no Spotify). Aos 14 anos, ele já era um programador habilidoso e começou a trabalhar com desenvolvimento de sites. Em pouco tempo, Daniel fez dinheiro suficiente para ter vários empreendimentos.

Tudo ia bem até a falta de experiência bater à porta. Certo dia, Daniel Ek recebeu um aviso do governo da Suécia dizendo que ele devia muito dinheiro em impostos. Não era intencional. Simplesmente faltou visão de negócio. Para não ir à falência, o jovem empresário teve que vender quatro de suas empresas.

Com o tempo, as pendências foram resolvidas, então Ek conseguiu chegar aos 23 anos sendo um milionário que dirigia uma Ferrari, frequentava boates caras e usufruía de várias outras mordomias.

Martin Lorentzon e Daniel Ek, fundadores do Spotify

Martin Lorentzon e Daniel Ek, fundadores do Spotify

Só que esse padrão de vida cheio de excentricidades não durou muito. Ek percebeu que as amizades que fazia e as mulheres com quem saia não tinham interesse verdadeiro nele, mas em seu dinheiro ou status.

Completamente infeliz, Ek decidiu vender a Ferrari e o apartamento que tinha em Estocolmo para ir morar em uma cabana isolada. Talvez a escolha pareça piegas, mas o fato é que essa fase da vida de Daniel foi importantíssima para o surgimento do Spotify.

Como o Spotify surgiu?

Nessa etapa de reflexão sobre a própria vida, Daniel Ek acabou se aproximando de Martin Lorentzon, empresário sueco que havia comprado um de seus empreendimentos, a firma de marketing digital Advertigo. Por ser bem mais velho e experiente, Lorentzon atuou como uma espécie de mentor de Daniel, apesar de também estar desanimado com a vida.

Foi em uma das longas conversas entre os dois que surgiu a ideia de criar o Spotify. O nome não tem nenhum significado especial. Aparentemente, Lorentzon disse essa palavra ou um termo parecido quando ambos discutiam qual nome utilizar. Spotify acabou prevalecendo por ser uma junção das palavras “spot” e “identify”.

Era o ano de 2006. Neste ponto, convém lembrarmos da questão da pirataria. O problema atingia todo o mundo, mas era particularmente preocupante na Suécia porque o Pirate Bay veio de lá.

Eles sabiam disso e viram aí uma oportunidade: de um lado estavam usuários que pirateavam porque não tinham jeito melhor de conseguir música; do outro, uma indústria que começava a aceitar a ideia de que não dava para fugir da revolução digital, por mais clichê que essa expressão soe.

A ideia era criar algo que fosse mais atraente do que a pirataria, ou seja, que convencesse o usuário de que pagar por um serviço de música traria mais benefícios do que simplesmente baixar conteúdo via BitTorrent e afins.

Spotify - dispositivos

Àquela altura, o desafio era grande porque predominava o modelo de compra: você paga por um álbum, não importa se em mídia física ou formato digital, e ele passa a ser seu. Já o Spotify foi idealizado sob modelo de pagar para ter acesso, não a posse.

Cerca de dois anos e meio se passaram entre atrair investidores e convencer gravadoras ou distribuidoras. Nesse meio tempo, a dupla (mas principalmente Lorentzon) arcou com os custos operacionais da Spotify AB, como a empresa, então com sede em Estocolmo, foi chamada inicialmente.

Por conta disso, o Spotify só começou a funcionar como plataforma de streaming em 2008, apesar de a empresa ter surgido em 2006. Com Universal, EMI Music e outras gravadoras importantes topando participar do projeto como uma experiência, o serviço finalmente deslanchou.

Mas o Spotify só viria a se tornar realmente conhecido a partir de 2011, quando chegou aos Estados Unidos. Hoje, a plataforma de streaming é a mais popular do mundo, estando presente em pelos menos 65 países. No Brasil, o Spotify desembarcou em 2014.

Os próximos dez anos do Spotify

Abril de 2018 foi marcante para o Spotify: esse foi o mês em que, depois de muita espera, a companhia estreou na Bolsa de Nova York. Com as vendas de ações, a empresa arrecadou mais dinheiro para crescer. Em contrapartida, a pressão por retorno financeiro aumentou — até hoje, o Spotify não sabe o que é lucro.

A fórmula para angariar assinantes é a mesma desde os primórdios da empresa: oferecer uma modalidade gratuita sustentada por anúncios, mas que, na verdade, cumpre o papel de converter parte desses usuários para o plano Premium (nos primeiros anos, o Spotify chegou a ter também um passe que custava pouco mais de € 1 e dava acesso a todo o acervo por 24 horas).

Alguns investidores e representantes da indústria fonográfica acreditam que a modalidade gratuita deveria ser ainda mais limitada ou mesmo descontinuada para, assim, forçar uma migração para o plano Premium. Seria uma abordagem semelhante à do Apple Music, que só tem a modalidade paga.

Spotify - escritório

Se você é assinante da modalidade gratuita e não tem intenção de mudar, não se preocupe. É impossível prever o que vai acontecer com o Spotify nos próximos dez anos, mas uma coisa é certa: a chance de o plano gratuito ser descontinuado é muito pequena.

A Apple pode seguir com a estratégia de só oferecer plano pago porque tem o seu ecossistema para promover o Apple Music. Já o Spotify só pode contar com a sua própria plataforma, razão pela qual precisa ser mais flexível. A abordagem parece estar funcionando, de todo modo: dos 180 milhões de usuários ativos atuais, 83 milhões são pagantes.

Ainda não é suficiente, por isso, há quem tema um futuro sombrio para o Spotify. Mas, se levarmos em conta que a companhia transformou uma indústria que estava combalida, o mais prudente é dar tempo ao tempo.

A lição de casa está sendo feita: o Spotify tem investido em tecnologia, se aproxima cada vez mais de artistas independentes, aposta em merchandising, mantém parcerias com redes sociais para gerar engajamento e vem tentando encontrar um equilíbrio entre o dinheiro que entra e o pagamento de direitos. Dá para manter o otimismo.

Com informações: Business Insider, El País, The Next Web, Mirror.