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Cigarro eletrônico: como funciona e qual a polêmica em torno dele

Entenda o que o cigarro eletrônico tem de eletrônico e qual a polêmica em torno daquele que deveria ser um redutor de danos

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20/09/2019 às 11h40

Cresce o interesse por cigarro eletrônico no mundo todo — seja para defendê-lo ou para apontá-lo como um novo vilão. O nome dá ao aparelho um ar contemporâneo e inovador, mas não passa de um dispositivo para ministrar a nicotina, altamente viciante.

Cresce, também, a polêmica em torno do dispositivo para fumar. Para entender o que o cigarro eletrônico tem de eletrônico e porque ainda não há uma conclusão sobre o consumo, acompanhe a história do aparelho e um breve resumo dos casos de doenças pulmonares não identificadas nos Estados Unidos relacionados aos vapers

A história do cigarro eletrônico

A ideia de um “cigarro elétrico” é antiga e data dos anos 1960, nos Estados Unidos. O primeiro aparelho eletrônico para fumar foi desenvolvido e patenteado em 1963, por Herbert Gilbert. A invenção não chegou a ser comercializada porque faltava tecnologia.

Patente 1963, por Herbert Gilbert

Quarenta anos depois, o farmacêutico chinês Hon Lik, fundador da Dragonite International, criou um novo modelo e ficou conhecido como o inventor daquela que é a primeira versão comercial e confiável do aparelho para fumar: chamado de Ruyan.

Lik conta que teve que lutar durante anos para se beneficiar financeiramente de seu invento, por causa de litígios relacionados a patentes. A ideia de investir em um aparelho eletrônico para fumar apareceu em 2003, quando o então pesquisador, fumante frequente – um maço por dia desde os seus 18 anos –, decidiu deixar o vício.

Em um dos seus sonhos (ou pesadelos) afogou-se em um mar transformado em uma nuvem de vapor. Lik acordou, anotou a visão que teve da cena e, depois de um ano de testes, chegou ao desenho atual do seu vaporizador. As vendas na China foram um sucesso logo de início, mas a empresa começou a sofrer pressão do governo chinês.

Foi aí que a concorrência dentro e fora da China floresceu com produtos similares, enquanto Hon Lik precisava defender sua empresa de acusações sobre propaganda irregular, danos à saúde e outros problemas. A disputa judicial com quem chama de “plagiadores” o levou a vender suas patentes para a Imperial Tobacco Group, em 2013.  

Hon Lik / https://www.vapingpost.com

Lik, porém, não parou de fumar (nem o cigarro comum, nem o eletrônico).

Ele agora usa os dois tipos mas diz que só fuma tabaco porque precisa verificar os sabores na sua atual ocupação na indústria do tabaco. “Fumar é a coisa mais prejudicial da vida diária e eu dei uma contribuição enorme para a sociedade”, disse à AFP.

O que o cigarro tem de eletrônico?

Para entender o que o cigarro eletrônico (conhecido também como vaper, de vaporizador) tem de eletrônico é recomendado entender o que um comum não tem.

Como funciona o cigarro comum?

O cigarro tradicional, que usa fogo para queimar substâncias, queima o tabaco. Essa combustão produz milhares de substâncias tóxicas, como monóxido de carbono e alcalóides do alcatrão. O primeiro é um fator de risco para o infarto e o segundo agente cancerígeno. Os aditivos são aquecidos/queimados, viram fumaça e depois aspirados.

Se você já fumou, sabe do que estamos falando… 

Como funciona o cigarro eletrônico?

Trata-se de um dispositivo eletrônico para fumar (DEF). Em geral, tem formato cilíndrico, conta com uma ponteira que funciona como um piteira e, na parte interna, um compartimento (tanque) em que é inserido o líquido (composto que leva nicotina, sabores artificiais e aromatizantes), cuja concentração varia de fabricante para fabricante. É comum ver orientações sobre reduzir a nicotina para ir parando de fumar.

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O cigarro elétrico não realiza a queima do tabaco (e também não produz fumaça). Ao aquecer a substância líquida, produz vapor, menos prejudicial. Por não haver queima/torra do material, o usuário não vai inalar conhecidas substâncias apontadas como causadoras de problemas respiratórios e câncer. O calor é produzido por uma resistência aquecida (atomizador) por uma corrente elétrica que vem da bateria de lítio.

Toda a tecnologia na forma de usar o cigarro eletrônico fica compreendida entre a bateria, o atomizador e, em alguns casos, num painel de controle para fazer algumas configurações. Por ter essas características, é comum encontrar modelos parecidos com pendrives e recarregáveis via USB. O que é apontado como atrativo para adolescentes.

O cigarro eletrônico já sofreu muitas mudanças e está na quarta geração. O primeiro era mais simples e tinha o formato de uma canetinha, trabalhava com um recipiente pequeno, como uma ampola de nicotina líquida, e aquecia movido por uma pilha. Depois, foi sendo aperfeiçoado pelos seus “plagiadores” até se tornarem vaporizadores.

Qual a vantagem?

Resumindo, no cigarro comum, o usuário queima e inala todos os produtos da combustão o que causa irritação no sistema respiratório, queima os cílios dos brônquios e provoca as doenças que já conhecemos; no cigarro eletrônico faz-se uma nebulização da nicotina. Em tese, quem fuma, pode se beneficiar por ser menos nocivo.

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Qual a desvantagem?

No cigarro, a substância que vicia, e muito, é a nicotina. O cigarro eletrônico foi lançado como uma alternativa de redução de danos para o público que já era fumante do cigarro comum e não conseguia parar. Porém, o consumo de vapers tem atraído jovens e pessoas que nunca fumaram. É esse aspecto, principalmente, que os médicos o apontam como problema. Além da dose de nicotina ser controlada pelo usuário.

Para quem faz a troca com o objetivo de fumar menos ou parar de fumar, como é mantido o hábito de tragar, o usuário mantém também a dependência comportamental. E, se usadas altas doses de nicotina, às vezes maiores do que a existente em um cigarro comum, a pessoa se mantém dependente da droga, a nicotina.

O fato de que os vapers podem ser manipulados pelos usuários que podem abastecê-los com doses maiores de nicotina ou com um monte de aditivos problemáticos e não recomendados é outro fator de atenção. E é justamente isso que vem sendo apontado como aquilo que pode ser a causa de as doenças pulmonares relacionadas abaixo.

Doença pulmonar não identificada

Em 2019, ganharam os noticiários mortes e internações em estado grave de pessoas que faziam o uso dos vapers com “essências” líquidas nos Estados Unidos. A doença que causou essas mortes ainda não foi identificada, mas pode estar relacionada.

Médicos que tiveram pacientes com esse quadro identificaram e descreveram os problemas nos pulmões em publicações científicas como o “New England Journal of Medicine” e classificaram a tendência como preocupante. Um professor de Harvard, David C. Christiani, afirmou que ao menos 215 dos casos eram graves, com problemas respiratórios. O mais provável é que a exposição aos químicos esteja associada.

“Apesar de mais pesquisa ser necessária para determinar se o cigarro eletrônico é responsável, claramente há uma epidemia que implora uma resposta urgente”, disse.

Diante do problema que tomou conhecimento mundial, o governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, anunciou a proibição dos cigarros eletrônicos com sabor, numa tentativa de “combater o aumento do consumo de produtos entre os jovens”.

 

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Os pacientes eram saudáveis até que apareceram com falta de ar severa, após vários dias de vômitos, febre e fadiga. Alguns acabaram na unidade de terapia intensiva ou no aparelho de respiração mecânica. O tratamento é menos eficaz se o paciente não contar o que usou. Esse é um dos maiores obstáculos para entender a origem da crise.

Pesquisadores tentam determinar se uma substância potencialmente causadora foi misturada aos produtos para cigarro eletrônico, se pessoas reutilizaram cartuchos contaminados ou se há um comportamento mais amplo, como o uso intenso de cigarros eletrônicos, de maconha no mesmo aparelho ou a combinação dos dois.

O consumo de maconha também entra em discussão. Para se tornar inalável, tanto a nicotina quanto o THC (composto psicoativo da cannabis) devem ser misturados com solventes, que ao serem vaporizados liberam as substâncias (diferentes das dos cigarro comum) mas também apontadas como nocivas. Os solventes ou óleos são aquecidos para se tornar vapor. Mas, durante o fumo, podem restar algumas gotas de óleo quando o líquido esfria e sua inalação é que pode causar os problemas respiratórios.

Scott Gottlieb, ex-comissário da Administração de Alimentos e Drogas (FDA, em inglês), suspeita de que algo novo foi introduzido no mercado por um fabricante irregular, seja um novo sabor ou uma nova maneira de emulsionar o THC. O fato é que os casos criaram uma crise para duas indústrias emergentes — cigarros eletrônicos e cannabis.

A investigação fica ainda mais complicada porque muitos ingredientes das “essências” não estão listados nos rótulos. O óleo de vitamina E, por exemplo, é uma substância comum associada aos problemas respiratórios graves e repentinos em alguns dos casos de Nova York (EUA). A vitamina E é vendida aos usuários como um suplemento no óleo de canabidiol, mas não é projetado para vaping e tem sido usado dessa maneira.

O acetato de vitamina E é um componente em forma de óleo da vitamina encontrado em lojas de beleza e usado em cremes para pele e suplementos vitamínicos. Seu uso, porém, não é autorizado em produtos à base de cannabis ou para misturar à nicotina.

Cigarro eletrônico: o que sabemos?

Stella Regina Martins, do Programa de Tratamento ao Tabagismo do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e autora do livro “Cigarro eletrônico: o que sabemos?” (disponível no site da Anvisa), acredita que a temperatura de vaporização possa atingir até 350°.

De acordo com a publicação, ao tragar, os consumidores dos vapers absorvem os vapores gerados a partir de soluções conhecidas como e-liquids ou e-juices que contêm solventes (os chamados e-liquid base), além de várias concentrações de nicotina, água, aromatizantes e outros aditivos. Os solventes mais populares são a glicerina (geralmente, origem vegetal) e o propilenoglicol. O glicerol pode estar presente ou não.

“Essa temperatura é suficientemente elevada para induzir reações químicas e mudanças físicas nos compostos dos e-liquids, formando outras substâncias potencialmente tóxicas. Tanto os solventes com glicerina quanto os com propilenoglicol demonstraram decompor-se a altas temperaturas, gerando compostos carbonílicos de baixo peso molecular, como o formaldeído, o acetaldeído, a acroleína e a acetona. Essas substâncias foram encontradas em teores até 450 vezes menores que os encontrados em cigarros regulares. Por outro lado, essas mesmas substâncias são classificadas como citotóxicas, carcinogênicas, irritantes, causadores do enfisema pulmonar e de dermatite”, explica em um trecho do livro.

Ao final, o texto reconhece que não se conhecem os malefícios em longo prazo que os cigarros eletrônicos podem causar à saúde, mas assume que eles não são isentos de riscos. Ou seja, a inexistência de evidência de danos não significa evidência de danos inexistentes. As evidências, porém, estão aparecendo e as pesquisas em andamento.

“O tempo urge para que as decisões mais acertadas e menos danosas sejam tomadas. Como todos têm um viés, assume-se que o deste trabalho é que, por precaução, por prevenção, baseado na falta de evidências científicas sobre a sua segurança e sobre a sua eficácia, até a presente data, não se pode recomendar a regulação do uso dos DEF como um produto derivado do tabaco, seja para consumo, como redutor de danos, seja para tratamento”, encerra o texto. As suspeitas, porém, ficam claras para quem faz a leitura completa.

Proibido no Brasil desde 2009

A polêmica partiu dos EUA para o mundo, após centenas de casos reportados pelas autoridades médicas. Mas, no Brasil, dispositivos eletrônicos para fumar são proibidos desde 2009. De acordo com a Resolução da Diretoria Colegiada da Anvisa (RDC) nº 46/2.

“Fica proibida a comercialização, a importação e a propaganda de quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar, conhecidos como cigarros eletrônicos, e-cigaretes, e-ciggy, ecigar, entre outros, especialmente os que aleguem substituição de cigarro, cigarrilha, charuto, cachimbo e similares no hábito de fumar ou objetivem alternativa ao tratamento do tabagismo. Estão incluídos na proibição que trata o caput deste artigo quaisquer acessórios e refis destinados ao uso em qualquer dispositivo eletrônico para fumar”, diz o documento.

A Anvisa afirma que está discutindo uma atualização a partir de novas pesquisas e que o assunto está na Agenda Regulatória 2017-2020, no item “Novos tipos de produtos fumígenos”. Desde 2016, a agência vem se atualizando sobre o tema. No mesmo ano, fez o que chamou de uma revisão técnica em “Cigarros eletrônicos: o que sabemos?”.

Infrações implicam sanções previstas na Lei 6.437, de 20 de agosto de 1977, que obriga advertência, multa, apreensão, inutilização, interdição de produto e proibição de propaganda. Certamente, porém, você já o viu à venda em marketplaces da internet.

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A Anvisa informa que possui uma equipe de fiscalização que monitora a internet regularmente. Entre os anos de 2017 e 2019, foram retirados cerca de 727 anúncios de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF), incluindo os cigarros eletrônicos.

Quando os estabelecimentos têm lojas físicas, são visitados pelas vigilâncias sanitárias estaduais e municipais. A agência também atua com os órgãos policiais e com a Receita Federal para identificar produtos ilegais e adotar medidas de combate à venda ilícita.

Enquanto isso, na Europa…

Autoridades de saúde pública do Reino Unido, o maior mercado da Europa para os produtos de tabaco, são contumazes endorsers do vaping como uma maneira de ajudar as pessoas a deixarem de fumar. Por lá, as autoridades são mais otimistas porque as doenças surgidas nos EUA estão bastante ligadas ao vaping de líquidos com THC, que é proibido em boa parte da Europa. Outro fator é o cenário de uso entre adolescentes no velho continente ser menor do que nos EUA, onde já é uma febre entre os mais jovens.

A agência estatal de saúde do Reino Unido tem dito repetidamente que o vaping é 95% menos prejudicial que o cigarro. Uma abordagem profundamente distinta do caso.

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Os órgãos de saúde do Reino Unido lideram a iniciativa como uma maneira para que as pessoas parem de fumar, o que pode causar câncer, problemas cardíacos e outras doenças, reduzindo o consumo com a troca do cigarro comum pelo eletrônico.

Nos EUA, cerca de 13% da população fumava cigarros comuns em 2018, em relação a 18% em 2013, de acordo com a Euromonitor International. No Reino Unido, a taxa caiu de 19% para 14%; registro é de que o declínio foi mais lento na França e na Alemanha.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos, porém, disse que a proporção de usuários de cigarros eletrônicos entre estudantes americanos do ensino médio aumentou para um em cada quatro, citando dados preliminares de uma nova pesquisa.

Com informações: BBC 1, BBC 2, Uol 1, Uol 2, O Globo, Exame 1, Exame 2 e Guardian