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Restaurantes apontam dificuldades com iFood, Rappi e Uber Eats

Número de restaurantes no delivery do iFood dobrou para 100 mil em 2019; Uber Eats e Rappi ajudam a criar dark kitchens

Felipe Ventura Por

O delivery por aplicativo disparou no Brasil ao longo dos últimos anos, puxando o crescimento do iFood, Uber Eats e Rappi: alguns empresários até criam dark kitchens com cozinhas pensadas apenas para entrega de comida. Cada vez mais restaurantes se cadastram nessas plataformas; no entanto, o relacionamento entre eles nem sempre é positivo: há queixas sobre margens de lucro baixas, falta de transparência e até acusações de dumping.

Rappi / como cancelar pedido rappi

Segundo o Instituto de Foodservice Brasil (IFB), o delivery aumentou 23% no país entre 2017 e 2018. E dados da Receita Federal obtidos pelo Sebrae mostram que, em 2019, havia mais de 200 mil MEIs (microempreendedores individuais) trabalhando no “fornecimento de alimentos preparados preponderantemente para consumo domiciliar”, atividade econômica focada em delivery. O crescimento foi de 122% em cinco anos.

O número de restaurantes cadastrados no iFood dobrou em um ano, indo de 50 mil em 2018 para 100 mil em 2019. O volume de pedidos também dobrou, chegando a 20 milhões no ano passado.

As queixas dos restaurantes

Uma reportagem da BBC Brasil lista os problemas que oito donos de restaurantes, bares e lanchonetes tiveram com o iFood. Elas têm que pagar uma taxa de 27% caso utilizem os entregadores da plataforma; se tiverem motoboys próprios, o percentual é menor.

Isso reduz as margens de lucro, e a situação pode piorar caso o estabelecimento decida participar das promoções do iFood para conseguir mais visibilidade. “Quando eu entrava na promoção, a média de pedidos passava de seis para 20 no dia, mas eu não tinha lucro”, explica Alexandre Sampaio Padovani, dono do restaurante Hollyfood em São Paulo.

Especialistas disseram à Folha no ano passado que o delivery só funciona com um volume alto de vendas. Os aplicativos permitem atingir um público maior que um salão tradicional de restaurante, porém a entrega traz custos como a logística, as embalagens e as taxas — por isso, a margem de lucro é menor.

Outra reclamação é a falta de transparência entre o app de entrega e os restaurantes. A posição dos estabelecimentos na busca pode mudar de um dia para o outro, sem motivo aparente, e derrubar as vendas. iFood, Uber Eats e Rappi dizem que o ranqueamento é feito através de inteligência artificial.

Além disso, desde 2018, o iFood deixou de fornecer o contato dos clientes aos restaurantes: só é possível visualizar as informações durante a entrega, dificultando a fidelização. A Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) fez uma solicitação formal aos três principais aplicativos para que compartilhem os dados dos usuários; as empresas “estão analisando”.

Os restaurantes têm algumas estratégias para não dependerem somente dos apps de delivery. Eles contratam motoboys, usam serviços particulares de entrega, ou criam apps próprios através de plataformas como o Apetite.

iFood

Associação acusa iFood de dumping; empresa nega

Alguns estabelecimentos também se queixam do Loop: trata-se de um serviço do iFood que oferece almoço por R$ 4,99 pela primeira vez, e R$ 9,99 nas vezes seguintes, sempre com entrega grátis. A empresa contrata restaurantes que possuam capacidade ociosa para fazer um cardápio pré-estabelecido. “Como ter lucro e servir uma refeição decente a R$ 10, sem taxa de entrega?”, diz Alexandre Bassoli, do Bassa Bar e Restaurante, à BBC.

Para a Abrasel, o iFood estaria realizando a prática ilegal de dumping ao afastar concorrentes vendendo produtos a preços abaixo do mercado. A empresa diz que “age de acordo com a legislação aplicável na operação do Loop e em suas demais atividades”.

Para atingir preços mais baixos, o Loop “tem como base a utilização da capacidade produtiva ociosa de restaurantes e o agendamento de pedidos combinado à logística de entrega eficiente”, explica o iFood. Novamente, a escala é um fator importante.

Delivery estimula criação de dark kitchens

Alguns empresários criam cozinhas pensadas apenas para pedidos de delivery: elas são conhecidas como cloud kitchens, dark kitchens ou restaurantes virtuais. Um exemplo é a Burger X, que vende através da Rappi e tem apenas três opções de hambúrgueres por R$ 10. Ela faz parte da rede Burger Lab e, por isso, consegue negociar preços mais baixos com os fornecedores.

As dark kitchens não são garantia de sucesso. O empresário Rafael Cohen, por exemplo, contou com ajuda do Uber Eats para inaugurar nove marcas voltadas apenas para delivery, levando em conta a demanda dos usuários na região. Apenas três marcas sobreviveram.

Há também outra questão: nem toda dark kitchen possui licença da Vigilância Sanitária para operar. iFood, Rappi e Uber Eats não pedem que os estabelecimentos confirmem se possuem essa documentação, dizendo que esse é um pressuposto de todo restaurante que entra na plataforma.

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LengoTengo (@LengoTengo)

iFood, Rappi e Uber Eats não pedem que os estabelecimentos confirmem se possuem essa documentação, dizendo que esse é um pressuposto de todo restaurante que entra na plataforma.

Rapaz…

Sérgio (@trovalds)

“Você é inocente até que se prove o contrário…”

E de mais a mais, já vi cozinha de restaurante de dar nojo e o Alvará da Vigilância Sanitária está lá estampado pra quem quiser ver.

@ksio89

Também fiquei preocupado ao ler isso. Se nem os restaurantes autorizados pela Vigilância Sanitária são garantia de higiene e conservação dos alimentos, imagine os que não têm licença.

Como já dizia o poeta: “o que os que os olhos não vêem, o intestino não sente.”

2019-nCoV (@lamasbr)

Chama dark kitchen não é à toa.

Thiago Passos (@Burnerman_X)

Pense que o Jacquin não vomitou a toa ao ver a cozinha de alguns restaurantes.

@ksio89

Hahahaha! Mas tudo na vida é uma questão de equilíbrio: 12 horas com o freezer ligado, 12 horas desligado kkkkk

Sérgio (@trovalds)

Primeiro: matéria da BBC. Reduto de jornalista que defende a esquerda e os velhos modelos como os sindicatos, CLT e afins. É disruptivo e vai contra os velhos modelos? Não presta.

“Ajuda a criar dark kitchens?” É ser muito inocente em acreditar que isso não existe desde sempre. Já vi muita cozinha mais asseada que sala de cirurgia de hospital sério que não tem Alvará Sanitário porque o azulejo é bege ao invés de branco e muita cozinha que o fogão tem mais sujeira que num vaso sanitário de local público com Alvará Sanitário em dia.

Aliás essa é a mesma turma que enaltece cozinheiro de barba enorme na frente de uma chapa fazendo burger, sendo que a Vigilância Sanitária EXIGE cara limpa, cabelo protegido e mais um monte de coisas como roupa branca, galochas brancas e etc.

E é o iFood que causa todas essas “mazelas”.

anon18538324 (@anon18538324)

Essas vendas do Loop do Ifood são realmente muito baratas… é de se esperar que os restaurantes que nela estão não sejam esse primor em limpeza.

João Luiz G (@Joao_Luiz_Gomes_Silv)

“Quando eu entrava na promoção, a média de pedidos passava de seis para 20 no dia, mas eu não tinha lucro”… Aí está visão do empresário Brasileiro, o mesmo que reclama que é caro anunciar no jornal/radio/mídias.sociais e reclama da concorrência

Douglas Furtado Gonçalves (@DouglasFurtado)

Olha, interessante você notar a fonte, no entanto, o conteúdo dela é real? Se sim, não importa o lado político que vc a atribui.
Os restaurantes querem lucrar e crescer, ees reclamam por causa dos lucros baixíssimos, pelo que li da matéria, o pessoal só está mostrando um outro lado da moeda que os apps de comida está fazendo no mercado como um todo. Bom para ter uma visão ampliada da revolução tecnológica e econômica dos tempos atuais.

Sérgio (@trovalds)

Mas é aí que tá o negócio. Uma coisa é você ser agressivo e trabalhar com margem negativa pra conseguir seu lugar no mercado. Isso é uma estratégia de negócios antiga. O que vai fazer você permanecer no mercado e fidelizar sua base quando praticar seu valor real que lhe traga a margem de lucro que você quer é a qualidade do seu serviço. E o brasileiro em geral é imediatista. Ele não faz plano de médio e longo prazo. O cara acha que tem um negócio de alimentos, vai entrar pro ifood e ver os pedidos se multiplicarem como mágica em questão de dias. E isso sem nenhuma estratégia que envolva diminuir em muito a margem de lucro ou mesmo trabalhar no prejuízo.

@ksio89

Perdoem o trocadilho, mas pelo que entendi, os restaurantes só querem o “filé”. Querem usar o serviço mas não querem mudar a mentalidade e se adequar à dinâmica diferente. Eles são livres pra criar a própria infraestrutura de plataforma de entrega de comida, fica quem quer.

Choro muito parecido com boa parte dos motoristas de aplicativos, que só querem o filé mignon do serviço e reclamam que são “escravizados” pela plataforma. Não que esses serviços sejam santos, mas haja paciência pra lidar com empresário brasileiro.

Também fiquei com essa impressão, matéria dá a entender que os serviços de entrega de comida são capitalistas opressores malvadões que “exploram” o restaurante, como se fosse um pobre coitado indefeso obrigado a utilizar a plataforma.

LengoTengo (@LengoTengo)

Tudo bem, mas custava pedir alvará? Um documentinho assim de leve, na tranquilidade, com educação e tal.
A lei ainda existe, e alimentação não seria o melhor campo para iniciar um movimento de desobediência civil.

Victor Serrão (@Victorgpserrao)

Esse negócio de “dark kitchen” é palhaçada de dono de restaurante. Estabelecimento de gêneros alimentícios sem frente de loja existem há muito tempo. O China In Box cresceu assim, por exemplo, mas há vários outros. Associar a ausência de frente de loja a suposta falta de alvará ou de licenciamento fitossanitário é uma coisa no mínimo bem leviana.

Leandro Alves (@KILLME)

Apesar da notícia ser do choro dos restaurantes, fiquei impressionado o quanto esses aplicativos de entrega impulsionaram a geração de riqueza no país.

“Segundo o Instituto de Foodservice Brasil (IFB), o delivery aumentou 23% no país entre 2017 e 2018. E dados da Receita Federal obtidos pelo Sebrae mostram que, em 2019, havia mais de 200 mil MEIs (microempreendedores individuais) trabalhando no “fornecimento de alimentos preparados preponderantemente para consumo domiciliar”, atividade econômica focada em delivery. O crescimento foi de 122% em cinco anos.”

Muito bom, ainda mais em um momento de crise que estamos passando.

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