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Restaurantes apontam dificuldades com iFood, Rappi e Uber Eats

Número de restaurantes no delivery do iFood dobrou para 100 mil em 2019; Uber Eats e Rappi ajudam a criar dark kitchens

O delivery por aplicativo disparou no Brasil ao longo dos últimos anos, puxando o crescimento do iFood, Uber Eats e Rappi: alguns empresários até criam dark kitchens com cozinhas pensadas apenas para entrega de comida. Cada vez mais restaurantes se cadastram nessas plataformas; no entanto, o relacionamento entre eles nem sempre é positivo: há queixas sobre margens de lucro baixas, falta de transparência e até acusações de dumping.

Segundo o Instituto de Foodservice Brasil (IFB), o delivery aumentou 23% no país entre 2017 e 2018. E dados da Receita Federal obtidos pelo Sebrae mostram que, em 2019, havia mais de 200 mil MEIs (microempreendedores individuais) trabalhando no "fornecimento de alimentos preparados preponderantemente para consumo domiciliar", atividade econômica focada em delivery. O crescimento foi de 122% em cinco anos.

O número de restaurantes cadastrados no iFood dobrou em um ano, indo de 50 mil em 2018 para 100 mil em 2019. O volume de pedidos também dobrou, chegando a 20 milhões no ano passado.

As queixas dos restaurantes

Uma reportagem da BBC Brasil lista os problemas que oito donos de restaurantes, bares e lanchonetes tiveram com o iFood. Elas têm que pagar uma taxa de 27% caso utilizem os entregadores da plataforma; se tiverem motoboys próprios, o percentual é menor.

Isso reduz as margens de lucro, e a situação pode piorar caso o estabelecimento decida participar das promoções do iFood para conseguir mais visibilidade. "Quando eu entrava na promoção, a média de pedidos passava de seis para 20 no dia, mas eu não tinha lucro", explica Alexandre Sampaio Padovani, dono do restaurante Hollyfood em São Paulo.

Especialistas disseram à Folha no ano passado que o delivery só funciona com um volume alto de vendas. Os aplicativos permitem atingir um público maior que um salão tradicional de restaurante, porém a entrega traz custos como a logística, as embalagens e as taxas — por isso, a margem de lucro é menor.

Outra reclamação é a falta de transparência entre o app de entrega e os restaurantes. A posição dos estabelecimentos na busca pode mudar de um dia para o outro, sem motivo aparente, e derrubar as vendas. iFood, Uber Eats e Rappi dizem que o ranqueamento é feito através de inteligência artificial.

Além disso, desde 2018, o iFood deixou de fornecer o contato dos clientes aos restaurantes: só é possível visualizar as informações durante a entrega, dificultando a fidelização. A Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) fez uma solicitação formal aos três principais aplicativos para que compartilhem os dados dos usuários; as empresas "estão analisando".

Os restaurantes têm algumas estratégias para não dependerem somente dos apps de delivery. Eles contratam motoboys, usam serviços particulares de entrega, ou criam apps próprios através de plataformas como o Apetite.

Associação acusa iFood de dumping; empresa nega

Alguns estabelecimentos também se queixam do Loop: trata-se de um serviço do iFood que oferece almoço por R$ 4,99 pela primeira vez, e R$ 9,99 nas vezes seguintes, sempre com entrega grátis. A empresa contrata restaurantes que possuam capacidade ociosa para fazer um cardápio pré-estabelecido. "Como ter lucro e servir uma refeição decente a R$ 10, sem taxa de entrega?", diz Alexandre Bassoli, do Bassa Bar e Restaurante, à BBC.

Para a Abrasel, o iFood estaria realizando a prática ilegal de dumping ao afastar concorrentes vendendo produtos a preços abaixo do mercado. A empresa diz que "age de acordo com a legislação aplicável na operação do Loop e em suas demais atividades".

Para atingir preços mais baixos, o Loop "tem como base a utilização da capacidade produtiva ociosa de restaurantes e o agendamento de pedidos combinado à logística de entrega eficiente", explica o iFood. Novamente, a escala é um fator importante.

Delivery estimula criação de dark kitchens

Alguns empresários criam cozinhas pensadas apenas para pedidos de delivery: elas são conhecidas como cloud kitchens, dark kitchens ou restaurantes virtuais. Um exemplo é a Burger X, que vende através da Rappi e tem apenas três opções de hambúrgueres por R$ 10. Ela faz parte da rede Burger Lab e, por isso, consegue negociar preços mais baixos com os fornecedores.

As dark kitchens não são garantia de sucesso. O empresário Rafael Cohen, por exemplo, contou com ajuda do Uber Eats para inaugurar nove marcas voltadas apenas para delivery, levando em conta a demanda dos usuários na região. Apenas três marcas sobreviveram.

Há também outra questão: nem toda dark kitchen possui licença da Vigilância Sanitária para operar. iFood, Rappi e Uber Eats não pedem que os estabelecimentos confirmem se possuem essa documentação, dizendo que esse é um pressuposto de todo restaurante que entra na plataforma.