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Guitarras, microfones e home studio; a tecnologia dos instrumentos musicais

A tecnologia sempre amplificou — com o perdão do trocadilho — a música. Um giro da primeira guitarra até o "estúdio no celular"

Melissa Cruz Cossetti Por

A tecnologia sempre amplificou — com o perdão do trocadilho — a música. Seja viabilizando diferentes formas de gravação ou criando novos instrumentos musicais, recursos analógicos e digitais marcaram época. Alguns caíram no ostracismo, como as guitarras com USB. Outros, como o Bluetooth, se tornaram padrão em caixas de som e monitores de áudio. Além disso, os aplicativos agora se conectam a amplificadores e interfaces 100% digitais.

Absolutamente tudo pode se conectar ao seu celular e o clichê da banda de garagem perdeu espaço para álbuns gravados no próprio quarto. Convido para um giro da primeira guitarra até o mini-estúdio no celular, com pedais e efeitos na palma da mão.

A primeira guitarra

Uma limitação física significativa — mais precisamente acústica — fez com que o violão se encolhesse em bandas da década de 1930, que tinham instrumentos de sopro: era simplesmente muito discreto para tantos instrumentos combinados. Foi preciso amplificar as cordas usando alguns recursos elétricos. Ou seja, transformar o som das cordas do violão em um sinal elétrico para ser amplificado e convertido em algo perfeitamente audível.

Assim surgiu a Frying Pan, reconhecida como a primeira guitarra elétrica viável da história moderna, que veio ao mundo entre os anos de 1931 e 1932, recebendo sua patente só em 1937. A “frigideira” foi criada por George Beauchamp e Adolph Rickenbacker, posteriormente fabricada pela também fundada por eles, Rickenbacker. 

Rickenbacker Model A-22 Electro Hawaiian guitar / Imagem: metmuseum.org

Rickenbacker Model A-22 Electro Hawaiian guitar / Imagem: metmuseum.org

Oficialmente chamado Rickenbacker Electro A-22, o instrumento era um modelo “lap steel” (guitarra havaiana), tocada apoiada sobre as pernas com slider e tinha esse apelido porque seu corpo circular e braço longo faziam com que parecesse o famoso utensílio de cozinha.

A Frying Pan já era uma evolução de uma tentativa anterior, de 1928, que teve vida curta, chamada Stromberg Electro, da Stromberg-Voisinet. Mas a primeira guitarra semi-acústica comercial de sucesso — com captadores similares aos atuais — foi a Gibson ES-150.

Gibson ES-150 / Imagem: metmuseum.org

Gibson ES-150 / Imagem: metmuseum.org

A guitarra USB

De lá para cá, formatos variados de corpos e mãos de guitarra deram cara aos modelos mais icônicos de Gibson, Fender, Epiphone, Yamaha, Ibanez, entre tantas outras… 

Houve também algumas tentativas de alterar esses padrões, colocando junto das saídas de áudio padrão, portas USB tipo A e B (mini). Fazendo uma pesquisa rápida, é fácil encontrar vídeos de uma stratocaster Squier by Fender USB, de 2012, com conexões digitais e cabos compatíveis até com dispositivos iOS — vendidas, inclusive, na loja da Apple, por US$ 199.

A ideia era fazer uma conexão direta com o iPhone, o iPad, o iPod touch ou o Mac e usar o GarageBand, sem um hardware adicional. Também era possível conectá-la a qualquer computador com Windows. Pelo preço cobrado e sendo parte da linha Squier, era um modelo básico, ainda que não fosse uma solução ruim para músicos mais experientes.

Incluídos no kit estavam um cabo “mini-USB para USB” e um cabo “mini-USB para o conector de 30 pinos da Apple (na época, o iPhone 4)”. A guitarra também tinha uma conveniente saída para fone de ouvido (estéreo) integrado com controle de volume, mas somente quando usada a porta USB. Continuava sendo, porém, uma Stratocaster funcional com jack de ¼ que você poderia continuar usando de forma analógica sem qualquer porém.

Fender Squier com USB / Imagem: Divulgação

Fender Squier com USB / Imagem: Divulgação

A Gibson também enveredou pelo caminho da “porta universal” e, um ano antes, em 2011, quis incentivar guitarristas a conectar a Firebird X ao computador via USB. Era possível acessar a loja de aplicativos Gibson para baixar e compartilhar seus próprios patches. 

Para quem é fã de cordas recomendo a lista de 6 guitarras que tentaram prever o futuro — e falharam — do Reverb (em inglês). Desde então, a inovação mirou outra ponta: o estúdio.

Ainda estranho muito quando encontro guitarras com USB, confesso. 

Se antes, gravar exigia uma interface física e todo um processo não muito simples para o músico de fim de semana, a tecnologia tornou tudo mais fácil. Se não havia muito o que melhorar — ou, deliberadamente, mudar nos instrumentos musicais — havia muito trabalho a ser feito nos estúdios e salas de gravação, reduzindo a acessórios e até a simuladores. 

Acessórios & Interfaces

As linhas de guitarras USB não vingaram e quem substituiu a demanda foram acessórios como os iRig, o produto da IK Multimedia mais vendido no Brasil. O aparelho com plug P10 foi lançado em 2010 e já ganhou outras versões. O iRig 2 é oferecido como uma interface entre instrumentos ou microfones e dispositivos móveis (como o celular), por valores bastante acessíveis que usam as conexões P2 (entrada padrão de fone de ouvido), ideal para gravar.

iRig 2 / Imagem: Divulgação IK Multimedia

iRig 2 / Imagem: Divulgação IK Multimedia

Entre comprar uma guitarra específica com conexões adicionais e um acessório barato que pode ser usado em todas as suas magrelas, a segunda opção fez a cabeça do consumidor.

“Somos um empresa do mercado de instrumentos musicais, mas fazemos muito mais do que o termo tradicionalmente abrange. Não vejo como dissociar a tecnologia do DNA da empresa”, explicou JC Wallace, coordenador de marketing da IK Multimedia no Brasil ao Tecnoblog

Falando em interface — desta vez uma mais complexa — um dos últimos lançamentos da marca foi o T-RackS Sunset Sound Studio Reverb, que emula a experiência de um dos mais icônicos estúdios do mundo na DAW (Digital Audio Workstation). Trata-se do Sunset Sound Studios, onde gravaram tais nomes Led Zeppelin, Janis Joplin, The Doors e Rolling Stones.

“Estamos falando do som que definiu a cultura musical moderna. É um produto fantástico, tanto no sentido da tecnologia quanto no sentido do que a sociedade compreende como áudio, música e estética sonora”, aponta Wallace, sobre o famoso estúdio de Los Angeles.

Quem não quer um som desses?! Confesso que eu gostaria de visitar os estúdios, claro.

Amplificadores

Não apenas interfaces externas, mas os tradicionais amplificadores ganharam conexões e painéis digitais — que vão além dos ajustes que já poderiam ser feitos por botões analógicos. É o caso da Marshall, há mais de 50 anos fabricando amplificadores e atravessando gerações de todos os estilos e tendências musicais, com um aplicativo. 

A linha CODE é um mimo digital para amplificadores de guitarra, oferecendo uma combinação de sons ilimitados por meio do Marshall Gateway (iOS/Android), via Bluetooth.

Marshall CODE / Imagem: Divulgação

Marshall CODE / Imagem: Divulgação

“São 100 presets totalmente customizáveis, permite salvar timbres como um verdadeiro processador de efeitos. São 14 tipos de pré-amplificadores (entre os mais famosos da marca) como PLEXI, JCM800, JVM, BLUESBREAKER e etc”, explica Roger Santos, gerente de Marketing da Proshows/Marshall Brasil, um representante exclusivo da marca.

Estão lá, 24 tipos de pedais de efeito tradicionais como Chorus, Reverb, distorções clássicas, Flanger, Pitch e Delay, acionados através do Footswitch (que é opcional). A mãozinha digital permite obter timbres clássicos de guitarristas como Slash, Randy Rhoads, Zakk Wylde e outros que usam amplificadores e cabeçotes da Marshall nos seus shows.

Ficou mais fácil para quem tá começando e principalmente se tiver habilidade com apps.

Pedais e Efeitos

Quem já juntou moedas para comprar uma pedaleira de marca duvidosa e, no fim das contas, não ficou muito feliz, sabe o que é buscar patches e tentar encontrar um efeito (ou a simulação dele) num mar de pedais — que custam caro. A Boss, famosa fabricante de pedais, tornou mais fácil escolher quais efeitos o consumidor quer com um site repleto de vídeos publicados também no YouTube. Contudo, quem que testar efeitos pode usar apps.

Vou sugerir apenas alguns deles, para usar em tom de brincadeira:

A Boss oferece um afinador virtual, estilo do pedal TU-3 (afinador cromático). Você pode baixar o BOSS Tuner App no iOS (iPhone) ou Android e ser feliz, sem pagar nada por isso.

Microfones

Desde 1925 no mercado, a Shure trouxe, em 1939, o 55 — primeiro microfone unidirecional — famosa linha que deu origem ao “microfone do Elvis”. De lá para cá, muita coisa mudou, culpa em parte da tecnologia embutida nos microfones que, por fora, parecem os mesmos. 

O Talk Switch, por exemplo, é uma tecnologia que já estava presente na linha analógica Axient e chegou também à linha digital. Basicamente, isso permite que o artista ou apresentador (usuário do microfone) converse com sua equipe técnica usando o mesmo microfone — sem que o público ouça nada. Observe com mais cuidado durante shows.

Shure IP Audio Kit / Imagem: Divulgação

Shure IP Audio Kit / Imagem: Divulgação

Além de canais, a marca também trabalha com áudio sobre IP (em que cada dispositivo possui um endereço de identificação), disponível em linhas de palco e em corporativos. 

“O áudio sobre IP oferece diversas vantagens, como uma quantidade imensa de canais de áudio trafegando por um mesmo cabo e também a possibilidade de controlar remotamente os equipamentos”, conta Jon Lopes, gerente de produtos da Shure para América Latina.

Equipes de tecnologia

Atualmente, é quase impossível entrar em um site de fabricante de instrumentos musicais e equipamentos de som e não encontrar uma solução baseada em software ou aplicativo móvel. Não basta mais apenas fazer os melhores instrumentos do mercado, é preciso oferecer algum penduricalho digital para tornar possível conectar qualquer coisa ao celular.

A Marshall, por exemplo, possui uma área exclusiva de desenvolvimento em sua fábrica na cidade de Milton Keynes, na Inglaterra. A Shure lembra que tem um centro específico na Índia focado no desenvolvimento de software, além de outros centros auxiliares na Escócia, Dinamarca e também nos headquarters 1 e 2, na região de Chicago, nos Estados Unidos. 

A companhia afirma que, hoje, tem mais engenheiros de software do que engenheiros de áudio trabalhando. “Uma das razões para isso é o fato de já termos 95 anos de experiência na área de áudio, o que nos dá uma bagagem imensa nesse quesito, enquanto outra razão é a necessidade do desenvolvimento que temos para produtos na área de software”, conta.

E você, usa algum recurso tecnológico para fazer um som?

Comentários da Comunidade

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Edcarlos Santana (@Edcarlos_Santana)

Excelente matéria

Leo (@leonardoroese)

A tecnologia trouxe muitas coisas legais sim. A comunicação permitiu que músicos de todo mundo também divulgassem seus trabalhos, permitiu compor remotamente, eu mesmo tive uma banda virtual com uma galera do cifras.com.br e depois um estúdio online americano. Mas também acabou com uma coisa muito importante na era de outro da música, a coletividade. Por isso hoje vemos muitos trabalhos de “bandas de uma só pessoa”. Banda por si já se trata de um coletivo, ainda existe, mas por facilitar tanto as coisas, tornou menor o desafio de compor e na minha opinião, capou a criatividade. São tantos loops, tantos softwares que se tornaram máquinas de costura de compassos, corretores, efeitos, que no fim tirou um pouco da alma coletiva. Não é a toa que estamos inundados de novas versões de antigos sucessos.