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Desconectar-se também é preciso

Se desconectar, momentos de pausa e uso consciente de celulares, redes sociais e afins são importantes para a saúde e bem-estar

Bruno Gall De Blasi Por

É mais difícil se desconectar do que estar conectado. Atualmente, basta puxar o celular do bolso para ter acesso ao mundo inteiro direto da palma da mão, em qualquer lugar. E este fenômeno é refletido em números: segundo a TIC Domicílios 2019, nove em cada dez pessoas utilizam a internet todos os dias ou em quase todos os dias no Brasil.

Mas e quando esse uso se torna excessivo e desenfreado? Ou até compromete a “vida real”? Em alguns casos, esta situação pode se tornar um problema sério até mesmo para a saúde. Por isso, há quem repense e reduza uso de celulares, computadores, redes sociais e demais tecnologias em busca de mais conforto e uma vida mais saudável.

Pessoa segurando smartphone. Foto: Dariusz Sankowski/Pixabay

Dando um tempo

É o caso de João Gabriel Lira, de 20 anos. Durante a pandemia de COVID-19, o estudante decidiu dar uma pausa no celular e nas redes sociais. “Em quarentena, a gente fica tão limitado e preso no universo das redes sociais que isso, de certa forma, pode massacrar a gente”, conta ao Tecnoblog. “Isso estava me gerando certas crises, como crise de ansiedade e diversas crises de identidade”.

O processo durou um mês. Nesse período, João explica que não só deixou o Twitter, Instagram e Facebook de lado, como parou de usar até mesmo o WhatsApp, limitando-se somente ao e-mail. Mas o hiato do mensageiro durou pouco: em uma semana, retornou ao aplicativo de mensagens para se comunicar com seus colegas do trabalho.

“Apaguei todas as redes sociais, desliguei o celular e coloquei na gaveta. Porque eu sabia que se eu estivesse com os aplicativos instalados, teria uma crise de abstinência e ia mexer. E se estivesse com eles desinstalados e mexendo no celular, ia ter uma crise de abstinência e instalar”, disse. “Eu tive que me livrar do celular para me livrar das redes”.

Os resultados da experiência foram positivos tanto para a sua saúde mental quanto para explorar outras oportunidades, como ler mais, estudar e tocar violão. Mas nem tudo são rosas: o estudante explica que a solidão bateu à porta logo em seguida. Hoje, o uso incessante e no cotidiano está de volta à rotina, mas com algumas alterações.

“Parece que as coisas voltaram a ser como antes do processo. Com a diferença de que, hoje, eu equilibro muito mais o meu tempo do que naquele período”, afirmou.

Redes sociais / imagem: dole777

Repensando o uso

Maria Eduarda Luporini é outra pessoa que decidiu rever a sua relação com a tecnologia. “Comecei a perceber a maneira como eu estava usando, de muita exposição desnecessária. Então, comecei a olhar mais para dentro de mim e a maneira como eu queria me comportar na internet, e, a partir disso, consumir outros conteúdos”, disse a estudante de 20 anos.

Assim como João Gabriel Lira, a experiência lhe concedeu mais tempo para “coisas off-line” e também auxiliou no seu bem-estar em relação à saúde mental. No entanto, a sensação de isolamento também marcou este período.

“Ficar distante das pessoas que eu gosto me afetou muito. Inclusive, estou fazendo o movimento inverso agora, de tentar me conectar mais a estas pessoas. Ainda assim, tentando manter minha privacidade, me preservando, mas presente”, afirmou ao TB.

A estudante ainda busca reduzir o uso do smartphone, mesmo que considere difícil. Ela acompanha a quantidade de tempo no celular no dia a dia pela ferramenta Tempo de Uso, do iPhone, e se choca com o que encontra. “Eu não sei se estimula, mas fico com mais vontade de diminuir o tempo, porque é muito rapidinho que você, de repente, passa muitas horas no celular”, conta.

Maria Eduarda mantém desativada todas as notificações de redes sociais, com exceção do WhatsApp e Telegram, pois, para ela, é diferente, já que mantém contato com as pessoas, e não apenas consome coisas. Questionada se utilizou o temporizador do celular da Apple, que estipula uma cota para usar aplicativos no smartphone, ela afirma: “Já, mas eu sempre burlo”.

Usando smartphone. Foto: Dariuz Sankowski/Pixabay

A dependência tecnológica

O uso de telefones celulares e computadores se tornou quase que uma necessidade nos dias atuais. Seja para o trabalho ou lazer e entretenimento, os dispositivos eletrônicos com acesso à internet estão presentes no dia a dia de boa parte dos brasileiros. Mas essa dependência da tecnologia precisa ser observada de duas formas.

“Todas as pessoas se dizem dependentes das tecnologias como se fossem viciadas, porque usam diariamente, por muitas horas. Mas isso não significa dependência patológica. Isso é apenas uma falta de educação ao usar as tecnologias, sem limites, no dia a dia”, disse Anna Lucia Spear King, psicóloga, doutora em Saúde Mental e fundadora do Laboratório Delete, ao Tecnoblog.

Segundo a psicóloga, que também é professora de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na disciplina Dependência Digital, a dependência patológica é a nomofobia. Isto é, uma dependência que geralmente é relacionada à ansiedade, depressão e outros tipos de transtornos mentais primários, que potencializa o uso das tecnologias, e que pode afetar também a vida pessoal e profissional.

“As tecnologias, na verdade, são um canal de representação de componentes característicos de cada pessoa. Elas revelam apenas o que já existe em cada um”, explica. “Por exemplo, se a pessoa é compulsiva, ela vai usar a tecnologia para entrar em sites de compras, ficar viciado em jogos, ficar viciado em sites pornográficos, vai usar a tecnologia para representar sua compulsividade”.

WhatsApp / Facebook / Pixabay

E como tratar dessa dependência?

O que fazer quando o uso de smartphones, redes sociais e afins se torna um vício? Para a professora e coordenadora do curso de psicologia da Universidade Veiga de Almeida, Danielle Belo Lamarca, o tratamento é realizado por meio da psicoterapia, ou, até mesmo, com o uso de medicações psiquiátricas em casos mais graves.

“Esses tratamentos irão atuar no ‘plano de fundo’ do sintoma, que neste caso, seria o vício no uso dessas ferramentas. Cada indivíduo pode ser capturado por questões diversas. É preciso atuar neste sentido”, explica.

O tratamento também pode ser alcançado através do Laboratório Delete – Detox Digital e Uso Consciente de Tecnologias, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. O núcleo tanto orienta a utilização das tecnologias da maneira adequada quanto realiza o acompanhamento psicológico e psiquiátrico gratuito caso haja necessidade.

“Nós, do Laboratório Delete, não somos contra o uso das tecnologias”, afirma Anna Lucia Spear King. “A gente passa o uso consciente”.

O laboratório da UFRJ ainda trabalha com materiais, como livros para conscientizar o uso dessas ferramentas e questionários para investigar a dependência. Há, também, sessões de fisioterapia para ensinar as posturas adequadas para utilizar estas ferramentas e até grupos de uso consciente para colher os benefícios do uso das tecnologias e evitar os prejuízos que podem ser causados por estes recursos.

A necessidade do uso consciente é também observada pela professora da Universidade Veiga de Almeida. “Uma boa dica é usar esse tipo de ferramenta quando necessário. Perceber que o tempo de lazer, descanso podem ser aproveitados sem o uso do smartphone”, explica Danielle Belo Lamarca.

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@wellerstz

ótima matéria!

quando usava redes sociais já deixava notificações desativada,depois passei pro nível de não telas, infelizmente ainda recorro a elas pois tem lojas que só tem presença lá

Douglas Amorim (@Douglas_Amorim)

Acredito que com a evolução já em consolidação da velocidade da internet, dos smartphones e demais dispositivos, assim como da IOT, temos um futuro que pode ser muito melhor para quem tem a mente offline saudável.

A comunicação extrapolou qualquer barreira e é difícil se dizer que está entediado com tanto conteúdo e informação para consumir. Sem contar como tudo isso facilitou nossa mobilidade, gestão financeira, informações menos monopolizadas, acesso ao conhecimento - até mesmo para aprender a escrever corretamente com os corretores ortográficos.
Antigamente, você perdia contato com amigos e parentes, e hoje só acontece se vc quiser, é confortante saber que pode ter contato com aquela pessoa que gosta lá do outro estado.

Na minha opinião, o problema sempre esteve em quem já tem algum distúrbio offline.

Há a impressão de que a intolerância aumentou com a internet, mas, pra mim, ela sempre existiu de forma tão grave quanto hoje - ou até mais. Sempre houve barracos na vizinhança, fofocas, fake news (ET de Varginha, alguém?). Eu até diria que hoje diminuiu muito esses barracos, esse estresse social, já que as pessoas tem menos tempo para fofocas vazias e encrencas causadas por um ócio e falta de instrução. A impressão que a intolerância aumentou Se dá justamente porque hoje você vê tudo acontecendo. Até citei um exemplo para um amigo ontem: antigamente, eu via gente espancando cachorros aos montes, muito mais que hoje. Mas hoje, um cachorro é morto no Carrefour e isso gera uma comoção nacional e resulta numa lei contra maus-tratos. A internet mostrou que cachorros são mais fofos que imaginávamos e hoje ficou até mais seguro para os bichinhos andarem por aí rs.

Enfim, vejo muito impacto positivo da internet. Basta saber usar e não ter nela um escape para problemas mentais pré-existentes.

Maycon Cruz (@MikeCross)

Bem, sempre vi que todo vício que não envolva consumo de entorpecentes que realmente vão afetar com seu cérebro algo como que visa compensar alguma coisa pra início de conversa. E eu digo por experiência própria. Hoje nem tanto, mas já tive um grande período que eu era um baita de um infoholic principalmente pelo fato de que minha “vida offline” nunca foi cheia de contatos sólidos. O que pode piorar a criação desses vínculos a longo prazo, vide que absorver isso tudo de informação, ainda mais em tempos conturbados te deixa permanentemente cínico.
Isso obviamente não deve desencorajar ninguém a tentar sair dessa bolha amarga caso isso realmente esteja lhe causando tormento, mas é sempre bom revisar todas as variantes dessa causa.

@teh

Costumo desinstalar o Instagram durante semana e reinstalar só no fds. Parei de seguir troçentas pessoas e só sigo a nata da nata.
Fb entro pra ver alguns grupos e só. Meu feed é vazio e não sigo ninguém. Isso deu uma bela aliviada.

imhotep (@imhotep)

Aqui desde sempre as notificações são silenciadas. Nunca gostei de celular tocando toda hora.

Depois das 18h só atendo urgências ou família.
E quando chego em casa o celular fica de lado pra comer e ficar com a esposa.

Durante o dia não tem jeito. É o meu trabalho.
Mas não tenho redes sociais.

Rick Silròd (@RickSilrod)

“Ficar distante das pessoas que eu gosto me afetou muito.“

Só eu que vejo que isto está errado? Como que conviver socialmente, de modo real e efetivo, depende de ferramentas virtuais como as redes sociais? Exceto pela força da situação ao qual nos impõe uma pandemia, o que há com as pessoas que se esqueceram que fazer visitas e atividades juntos ainda existe e é possível?

Não tem tempo para isto? Saia imediatamente das redes, eu saí e descobri que tenho um mundo real e tempo para muitos afazeres proveitosos!

Ademais, eu realmente acredito que é lamentável e deprimente ficar um tempo considerável consumindo os tais “memes” e vídeos curtos, tentar estabelecer insuperavelmente a sua opinião como a única e verdadeira em discussões infinitas e inúteis e é questão de pouco amor próprio devotar tempo para celebridades e pseudocelebridades.

Futuro tenebroso haverá para as novas gerações que persistirem nestas coisas…

Marcelo (@Marcelo3M)

Eu não tenho dúvidas que o grande problema são as redes sociais. Eu resumo redes sociais como se importar com a opinião dos outros e isso não é bom, não é consumir tecnologia com qualidade. A partir do momento em que se livra de dar e receber opinião pra tudo, se vive bem melhor.

Br. (@BSilva)

Infelizmente eu fui uma das vitimas desse vicio desenfreado por informações e Redes sociais, cheguei até a destruir meu casamento de tanto tempo que perdia.
Por conta própria e por me sentir um péssimo marido e pai eu me dei conta do mal que aquilo estava fazendo em minha vida, vendi boa parte dos equipamentos(Apple Watch, MacBook, iPad eu dei pra minha filha,), desativei notificações de facebook e instagram e alguns sites que visitava diariamente, passei a controlar meu uso e busco atrelar meu tempo a outras coisas que julgo necessárias para uma boa vida. Infelizmente não conseguir resgatar meu casamento, mas fica ai o relato para quem está nesse vicio e não acabe perdendo quem você ama e afastar tantas outras.