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Ministério da Saúde testa app que receita cloroquina contra COVID-19

Aplicativo TrateCov recomenda que médicos receitem hidroxicloroquina e ivermectina para pacientes com sinais de COVID-19

Felipe VenturaPor

O Ministério da Saúde anunciou na semana passada o aplicativo TrateCov para ajudar médicos a diagnosticar pacientes com sinais de COVID-19, sugerindo a prescrição de medicamentos com base em “rigorosos critérios clínicos”. No entanto, uma versão de testes que se tornou pública só incluía remédios sem comprovação científica contra o novo coronavírus, tal como a hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina.

TrateCov (Imagem: Divulgação / Ministério da Saúde)

TrateCov (Imagem: Divulgação / Ministério da Saúde)

Como funciona o TrateCov do Ministério da Saúde

O formulário do TrateCov que estava disponível ao público foi retirado do ar, mas ainda está disponível através do Internet Archive. Antes de ser removida, a página foi atualizada com o seguinte aviso: “esta versão do TrateCov é um ambiente de simulação que ficará disponível até que sejam realizados e validados os cadastros para registro dos profissionais de saúde na referida plataforma”.

O TrateCov pede alguns dados sobre o paciente para sugerir um tratamento. Você precisa inserir a data de nascimento, peso, altura, comorbidades (como hipertensão, diabetes e asma) e sintomas (como febre, dor de cabeça ou náusea).

Além disso, é necessário informar quantas vezes a pessoa frequentou determinados lugares nas duas últimas semanas, incluindo trabalho, transporte público, supermercado, bar, praia ou festa.

Formulário do TrateCov (Imagem: Reprodução/Internet Archive)

Formulário do TrateCov (Imagem: Reprodução/Internet Archive)

Feito isso, o formulário calcula um escore de gravidade: se a nota for 6 ou superior, recomenda-se solicitar o teste RT-PCR e “iniciar tratamento precoce para COVID-19”.

No teste do Tecnoblog, o TrateCov recomendou uma dose cavalar de remédios, nenhum deles com comprovação científica:

  • difostato de cloroquina 500 mg (6 comprimidos no total)
  • hidroxicloroquina 200 mg (12 comprimidos no total)
  • ivermectina 6 mg (30 comprimidos no total)
  • azitromicina 500 mg (5 comprimidos no total)
  • doxiciclina 100 mg (10 comprimidos no total)
  • sulfato de zinco 30 mg (14 comprimidos no total)
TrateCov sugere tratamento precoce (Imagem: Reprodução/Internet Archive)

TrateCov sugere tratamento precoce (Imagem: Reprodução/Internet Archive)

Falhas do TrateCov

No Twitter, há diversos relatos semelhantes, e não é à toa: o desenvolvedor Joselito Júnior analisou o código-fonte da página e descobriu que a cloroquina e remédios semelhantes sempre serão recomendados quando houver a opção de tratamento precoce, ou seja, quando o escore de gravidade for maior ou igual a 6.

Por sua vez, o desenvolvedor Lucio Maciel aponta que esse escore ignora completamente os dados clínicos do paciente, como idade, peso, comorbidades e atividades externas – ele só leva em conta os sintomas informados.

De fato, se você disser que tem 9.000 kg, sofre de todas as comorbidades (pressão alta, obesidade etc.) e foi a literalmente 1.000 festas nas últimas duas semanas, mas não apontar sintomas, o escore será baixo e não haverá a sugestão de tratamento precoce.

O código-fonte pode ser acessado pelo Internet Archive e por um repositório no GitHub criado pelo jornalista Rodrigo Menegat. Ele foi um dos primeiros a notar que o TrataCov “só receita o kit COVID-19”.

Versão de testes do TrateCov inclui cloroquina e azitromicina (Imagem: Reprodução/GitHub)

Versão de testes do TrateCov inclui cloroquina e azitromicina (Imagem: Reprodução/GitHub)

Remédios não servem contra COVID-19

O Ministério da Saúde está testando o TrateCov em Manaus, instalando tendas ao lado dos postos de saúde para capacitar médicos a utilizar essa ferramenta ao atenderem pacientes que chegam com sintomas de COVID-19. A ideia é expandir o app para todas as unidades de saúde da capital do Amazonas; e depois, para todo o país.

Nesta terça-feira (19), a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e a Associação Médica Brasileira (ABM) emitiram uma nota conjunta, lembrando que “as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Anvisa”.

Segundo as duas entidades, “as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no ‘tratamento precoce’ para a COVID-19 até o presente momento”. Elas também criticam “negacionistas que são contra as vacinas e contra as medidas preventivas cientificamente comprovadas”, como o isolamento social e uso de máscara.

Na semana passada, o Twitter ocultou um post do presidente Jair Bolsonaro por promover antimaláricos como tratamento precoce contra a doença. Segundo a rede social, a mensagem violou regras “sobre a publicação de informações enganosas e potencialmente prejudiciais relacionadas à COVID-19”. O Brasil representa 10% das mortes no mundo causadas pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2).

Comentários da Comunidade

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Xico Pires (@xicopires)

Retrocesso define. Um min. da saúde que não é médico, esperar o que mais desse desgoverno?

André Cardoso (@andre)

É claro né, gastaram milhões comprando essas coisas ao invés de comprar vacinas, vão ter que desovar.

Anderson Antonio Santos Costa (@Anderson_Antonio_San)

Pseudociência na saúde…
Esse app merece ser denunciado e banido por declarações falsas.

Goku SSGSS (@renatodantas)

Uma forma barata de tentar desovar os milhões de comprimidos comprados de um remédio sem eficácia e na forma de um importante programa de saúde do governo.

João Almeida (@Joao_Almeida)

Eu coloquei apenas diarreia e já disse que era possivelmente COVID kkk e tontura e dor de cabeça já era COVID

brad (@brad)

Não há absolutamente nada minimamente razoável nesse pior governo da história do país.
Tudo é ruim, incompetente, vergonhoso, imoral e afins.
Que tempos sombrios estamos vivendo.

@doorspaulo

Considerando que o SUS fornece “tratamento” com acupuntura, homeopatia, aromaterapia e outras pseudociências, nada de novo sob o sol…

🤷‍♀️ (@xavier)

Quando a gente pensa que chegou no fundo do poço, ainda existe vários andares pra descer.

🤷‍♀️ (@xavier)

Alopatias são completamente diferentes do que prescrever um medicamento comprovadamente ineficaz contra uma doença, muito menos como forma preventiva.

Jonathan (a.k.a Halls) (@akahalls)

O SUS “fornece”. Nunca vi serviço de homeopatia fácil pelo sistema não. Mesmo assim, a saúde é vista multidimensionalmente, e por isso que técnicas não alopáticas são tratadas como saúde também.

Júlio César (@Potrinho)

Pelo menos esses métodos alternativos (homeopatia não) trazem algum benefício para o paciente. Já fiz sessões de acupuntura e realmente foi bom para dores. Uma prima fez para o joelho e também foi ótimo. Agora há diversos estudos mostrando que a cloroquina não resolve em nada contra o COVID, e mesmo assim a anta do presidente faz propaganda desse remédio.

Rafael Salgado (@rafasalgado)

Coloquei sem nenhum sintoma, sem nenhuma aglomeração, mas com contato familiar com pessoa positivada. Me recomendou a bateria de medicamentos. Isso é um crime.

A homeopatia foi incluída no SUS em meio à ditadura militar. Teve pressão pela inclusão na época e hoje é bem complicado “caçar” isso, pq se não me engano precisaria começar o processo no CFM.

Concordo, mas, acho que no caso é uma mera causalidade. Ficou difícil tirar agora.

Fez. Apagou todas as fotos.

Danillo Nunes (@danillonunes)

Se você procurar, vai encontrar relatos de pessoas que fizeram tratamento com os medicamentos do post e melhoraram também. Assim como os medicamentos do tratamento precoce recomendado pelo MS, os tratamentos de medicina alternativa, como homeopatia, acupuntura, etc, também carecem de evidências científicas comprovando sua eficácia. Obviamente, como qualquer terapia ineficaz, eles ainda podem gerar uma sensação de melhoria por causa do efeito placebo.

A real diferença é que agora o governo está promovendo tratamentos ineficazes para doenças mais graves.

Eita (@mandatario)

O app recomenda só uma coisa
kkkk

Eita (@mandatario)

Felizmente evidencia anedótica não é ciência.
Relato e nada é a mesma coisa pra ciência

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