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Por que o preço do bitcoin subiu tanto, e até onde ele deve chegar?

CEOs da BitPreço, Valdiney Pimenta, e Brasil Bitcoin, Marco Castellari, comentam alta do bitcoin e explicam o cenário atual

Bruno Ignacio Por

O bitcoin (BTC) atingiu os US$ 50 mil nesta terça-feira (16); porém, ele vem se valorizando a um ritmo acelerado desde meados de dezembro de 2020. O que está acontecendo com a criptomoeda? Para comentar o cenário de mercado atual, suas perspectivas futuras e a movimentação inédita da criptomoeda neste ano de 2021, o Tecnoblog entrevistou Valdiney Pimenta, CEO da BitPreço, e Marco Vinicius Castellari, CEO da Brasil Bitcoin.

Bitcoin atinge US$ 50 mil (Imagem: Karolina Grabowska/Pexels)

Bitcoin atinge US$ 50 mil (Imagem: Karolina Grabowska/Pexels)

O bitcoin retomou e então superou o recorde anterior de US$ 20 mil em dezembro para seguir atingindo novos máximos ao longo de 2021. O conjunto da obra é amplo, formado pela alta demanda institucional, escassez da criptomoeda, entrada de grandes investidores e pelo ativo ter caído na grande mídia e no gosto de um público que cresce a cada dia.

Valdiney Pimenta (Imagem: Reprodução/MGA press)

Valdiney Pimenta (Imagem: Reprodução/MGA press)

Valdiney Pimenta tem 42 anos, fundou a BitPreço em 2017 como o primeiro marketplace de criptomoedas da América Latina, é formado em computação e é um investidor que atuou com startups por anos até conhecer os criptoativos.

Marco Castellari (Imagem: Reprodução/MGA press)

Marco Castellari (Imagem: Reprodução/MGA press)

Marco Castellari co-fundou a Brasil Bitcoin em 2018, exchange de criptomoedas que, mesmo jovem, já é uma das principais empresas brasileiras do setor. Hoje com 30 anos, é CEO da empresa que ajudou a criar, engenheiro mecânico formado pelo Centro Universitário FEI e desenvolvedor autodidata.

Por que o bitcoin sobe tanto em 2021?

Bitcoin (imagem: Jorge Franganillo/Flickr)

Bitcoin (imagem: Jorge Franganillo/Flickr)

A resposta para essa pergunta é complexa. O primeiro passo para entender o que ocorre hoje é analisar o que acontece desde a criação do bitcoin. Historicamente, a criptomoeda se comporta através de ciclos de valorização e desvalorização. A magnitude das altas e quedas variam de acordo com inúmeros fatores, mas principalmente pela demanda do ativo e sua oferta atual. Contudo, uma ferramenta intrínseca do programa por trás da moeda digital afeta sua quantidade disponível no mercado a cada quatro anos.

Halving, o mecanismo que reduz a mineração de BTC

“Existe um mecanismo na rede do bitcoin que a cada quatro anos reduz a quantidade ofertada de moedas no mercado”, explica Valdiney Pimenta. Esse sistema é chamado de halving, quando a mineração da moeda digital é deliberadamente reduzida pelo seu próprio programa.

“Esse movimento faz com que a criptomoeda se valorize bastante justamente porque ela se torna mais escassa”, complementa o CEO da BitPreço. O halving foi ativado em meados de maio de 2020, mas seus efeitos ficaram dormentes até que grandes empresas começaram a entrar no mundo dos ativos digitais.

A escassez diante da maior demanda da história

O PayPal foi a primeira empresa a impactar significativamente o setor de criptomoedas ainda em 2020, dando acesso a milhões de usuários no mundo todo a uma forma mais simples de se negociar criptoativos.

“Quando a procura pelo bitcoin aumentou, não havia mais moeda. Isso aumentou o preço, chamou mais a atenção de empresas e criou um ciclo de valorização e demanda”, afirma Pimenta.

Enquanto isso, Marco Castellari afirma que as movimentações de empresas e dos noticiários fazem com que cada vez mais investidores do varejo se interessem pelo criptoativo. “Acredito que a recente compra bilionária de Tesla chamou a atenção de outras empresas e das pessoas para o bitcoin. Isso também faz a demanda aumentar”.

Segundo o CEO da Brasil Bitcoin, outro fator a se considerar é a facilidade de se investir em criptoativos em comparação a outros tipos de aplicações. “É muito mais fácil, menos burocrático e as taxas são menores do que, por exemplo, mexer com ações da bolsa”, afirmou Castellari.

Por fim, o montante que circula hoje não reflete a totalidade de moedas existentes. “Existe uma parcela de bitcoins que está perdida. Por ele ser essencialmente descentralizado, se uma pessoa perde sua chave privada de uma carteira, nunca alguém vai conseguir recuperar isso”, disse Castellari, concluindo que as criptomoedas perdidas também afetam a oferta do ativo.

2021 e 2017: bitcoin pode ser bolha especulativa?

Bitcoin poderia ser bolha especulativa? (Imagem: Hawksky/Pixabay)

Bitcoin poderia ser bolha especulativa? (Imagem: Hawksky/Pixabay)

Em 2017, o bitcoin chegou pela primeira vez nos US$ 20 mil e então despencou logo em seguida. Na época, chamaram a criptomoeda de bolha especulativa. Os acontecimentos de 2021 são de certa maneira similares, porém o cenário é completamente diferente.

As diferenças no mercado de criptomoedas

“Em todas as outras vezes que isso ocorreu o bitcoin foi chamado de bolha”, disse Pimenta, argumentando que, na realidade, desde a criação da criptomoeda existem ciclos de valorização e correção de mercado. “Para quem vê a movimentação há anos, isso não é nenhuma surpresa”.

O CEO da BitPreço explica que a principal diferença entre 2017 e 2021 está na maturidade da criptomoeda. “Em cada ciclo desses, observamos o bitcoin e as moedas digitais amadurecendo. Desde 2017 eu vejo muito mais maturidade, desde legislação e regulamentação até a adoção por empresas e fundos”, afirmou.

Cada um desses ciclos projeta o bitcoin no mercado e na mídia. Então, a criptomoeda fica mais consolidada, uma vez que numerosas empresas investem nela, há mais destaque na grande mídia e uma crescente parcela da população passa a conhecer a moeda digital. “O que eu vejo agora é que o bitcoin está mais maduro do que nunca”.

Pimenta também observa que em cada um dos ciclos do bitcoin, o preço máximo sobe. Contudo, os multiplicadores vão ficando menores. “No primeiro ciclo, o preço inicial se multiplicou por 100. Agora, a moeda não deve multiplicar a última máxima histórica de US$ 20 mil por mais de 5 vezes”.

Porém, a queda está no horizonte

Por mais que o ciclo em que vivemos hoje seja único na história do bitcoin, uma grande queda também deverá ocorrer. Historicamente, após atingir seu preço máximo, a criptomoeda operou em queda livre. O halving sempre valoriza o ativo pela regra econômica básica da oferta e demanda.

“Em algum momento, deverá acontecer uma correção, como aconteceu em todas as outras vezes. Acredito que mais para o final do ano deverá ocorrer uma grande queda de valor. É uma desvalorização lenta que se arrastará por vários meses. Não posso afirmar que tudo será igual aos ciclos anteriores, mas o histórico do bitcoin aponta para isso. Não é uma explosão da bolha, é uma correção do mercado”, disse Pimenta.

Segundo Castellari, afirmar se o bitcoin pode ou não ser uma bolha especulativa é algo extremamente subjetivo. “Isso é imprevisível, já que a criptomoeda não possui nenhum tipo de centralização, se grandes empresas como a Tesla decidem vender o ativo, o preço vai despencar de uma hora para outra. Porém, caracterizar como uma bolha é muito subjetivo”.

Como opera uma correção de mercado

Essencialmente, correções de mercado para ações na bolsa de valores são algo mais simples do que quando aplicadas às criptomoedas. Ativos, de maneira geral, estão naturalmente sujeitos a essas quedas.

Na bolsa de valores, por exemplo, existe um preço médio estipulado para cada ação. Porém, esse valor pode ser afetado por notícias ou eventos que causam valorizações muito rápidas. Então uma correção é necessária para devolver os números de volta para patamares aceitáveis pelo mercado.

Com criptomoedas, por elas serem descentralizadas, tudo isso é muito mais complexo, mas correções ocorrem de maneira similar. Para Pimenta, esse fenômeno acontece para reduzir o valor do criptoativo de acordo com sua funcionalidade prática.

“Particularmente, uma correção de mercado para produtos e ações é algo muito mais fácil de se entender. Mas coisas novas como as criptomoedas geram uma euforia que faz com que se pague mais caro pelo bitcoin do que pelo preço que ele realmente vale em utilidade no mundo econômico”. Assim, correções também são naturais para moedas digitais e acontecem quando o alvoroço causado por grandes compras, anúncios e notícias acaba, dando espaço para o mercado se normalizar.

Criptomoedas e a pandemia de COVID-19

Pandemia de COVID-19 afeta preço de criptomoedas (Imagem: Yuri Samoilo/Flickr)

Pandemia de COVID-19 afeta preço de criptomoedas (Imagem: Yuri Samoilo/Flickr)

O pico da crise de coronavírus em março colocou em xeque muitos mercados. O próprio bitcoin sofreu uma grande queda, assim como o petróleo. Contudo, as criptomoedas se recuperaram muito mais rápido em comparação com demais setores. A pandemia de COVID-19, de maneira geral, impulsionou as moedas digitais.

Muitos governos adotaram políticas de injeção de recursos na economia para combater a crise. No Brasil, isso ocorreu através do auxílio emergencial, por exemplo. Pimenta vê similaridades com 2008, quando também houve impressão de dinheiro.

“Ficou nítido que os governos estavam aumentando a circulação de dinheiro no mercado para resolver uma crise. O bitcoin, como outras criptomoedas, não aumenta sua quantidade. As bolsas recuperaram sua movimentação com toda essa injeção de recursos, mas provavelmente isso não é real e deverá explodir em algum momento”, afirmou Pimenta.

Essa insegurança diante do mercado tradicional deu ainda mais força para o bitcoin. Muitas empresas e fundos, prevendo os efeitos negativos dessa injeção de dinheiro no mercado, começaram a migrar para o ativo digital. Assim, a criptomoeda passou a ser vista como uma reserva de dinheiro para se proteger da inflação e desvalorização de moedas nacionais.

Até onde o bitcoin deve chegar?

Bitcoin poderia chegar aos US$ 100 mil (Imagem: Marco Verch/Flickr)

Bitcoin poderia chegar aos US$ 100 mil (Imagem: Marco Verch/Flickr)

Por mais especulativa que seja, essa pergunta permeia toda a discussão sobre o bitcoin. A criptomoeda se valorizará até quanto? Valdiney Pimenta acredita que o teto do atual ciclo da moeda digital é de US$ 100 mil, “sendo conservador”. Enquanto Marco Castellari prevê que é seguro que os US$ 60 mil serão ultrapassados, mas reafirma que o ativo é imprevisível.

Neste momento, o bitcoin opera manipulado pelas grandes empresas que agora investem em criptoativos. A Tesla anunciou a compra de US$ 1,5 bilhão na criptomoeda, enquanto a MicroStrategy, empresa de software empresarial, possui um montante equivalente a US$ 3,5 bilhões e anunciou hoje que reservará mais US$ 600 milhões para comprar a moeda digital.

Esses investidores institucionais afetam diretamente as altas e quedas do ativo. Porém, há inúmeros fatores externos e internos da própria rede do bitcoin que são incontroláveis. Quando os efeitos do halving cessarem e quando o mundo se recuperar da pandemia de COVID-19, o que acontecerá com a criptomoeda?

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