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Citibank perde US$ 500 milhões por causa de interface ruim em software

Dificuldade de uso de sistema fez funcionário do Citibank transferir mais dinheiro do que deveria; prejuízo chega a US$ 500 milhões

Emerson AlecrimPor

O dia 11 de agosto de 2020 marca o que, provavelmente, é um dos maiores erros financeiros da história. Uma interface confusa em um software fez o Citibank transferir mais dinheiro do que deveria. Muito mais: as perdas com a operação chegam a US$ 500 milhões. O banco foi à justiça para recuperar o dinheiro, mas, até agora, não teve sucesso.

Dólares (imagem: Sharon McCutcheon/Unsplash)

Dólares (imagem: Sharon McCutcheon/Unsplash)

A Revlon, tradicional marca de cosméticos, enfrenta uma grave crise financeira que se tornou mais intensa com a pandemia de COVID-19. Para sair dela, a empresa fez um refinanciamento de sua dívida. Nesse processo, ela tem realizado pagamentos a alguns credores e rolado o resto da dívida com um novo empréstimo. O Citibank é o banco que tem conduzido essa operação.

Naquele 11 de agosto, porém, um funcionário do banco locado na Índia cometeu um erro. O Citibank deveria fazer pagamentos de juros a credores da Revlon naquela data que totalizavam US$ 7,8 milhões. O problema é que o engano fez a instituição transferir cerca de US$ 900 milhões a eles.

Um software chamado Flexcube está na raiz no problema. Trata-se de um sistema de gestão bancária desenvolvido por uma empresa chamada iFlex que, por sua vez, foi adquirida pela Oracle em meados de 2005.

Na operação em questão, não havia um jeito simples de efetuar o pagamento dos juros aos credores no Flexcube. Para realizar as transferências, o funcionário teria que realizar o procedimento como se o banco estivesse pagando o valor de todo o financiamento, não apenas os juros.

O melhor jeito de fazer isso sem o banco perder dinheiro — e, talvez, o único — seria informando no sistema uma conta do próprio Citibank para o envio do valor principal do financiamento (assim, o montante não sairia do banco, na prática) e, de modo complementar, as contas dos credores para os valores correspondentes aos juros.

Essa “gambiarra” teria funcionado se o funcionário tivesse habilitado e preenchido os campos “Front” e “Fund” do Flexcube com a conta do Citibank. O problema é que ele só preencheu o campo “Principal” com essa informação.

Piora. Como esse tipo de operação envolve grandes somas de dinheiro, a transação teve que ser assinada pelo funcionário que fez a operação junto de outros dois. Nenhum deles, nem mesmo um funcionário com um cargo mais avançado, percebeu que preencher apenas o campo “Principal” não seria suficiente.

A interface problemática do Flexcube (imagem: Ars Technica)

A interface problemática do Flexcube (imagem: Ars Technica)

No dia seguinte, o funcionário que realizou a operação executou uma revisão de rotina e percebeu que, em vez de US$ 7,8 milhões, a transação do dia anterior transferiu cerca de US$ 900 milhões aos credores.

Um treinamento detalhado para uso do Flexcube poderia ter evitado o problema. De todo modo, a interface pouco clara, cheia de campos e sem nenhum tipo de divisão específica para operações como essa certamente contribuiu para o problema. Ironicamente, softwares pouco intuitivos são comuns no mercado financeiro.

Citibank tenta recuperar o dinheiro

Logo após descobrir o erro, o Citibank pediu aos credores a devolução dos valores pagos indevidamente. Alguns devolveram o dinheiro, mas outros se recusaram, deixando o banco com um prejuízo de aproximadamente US$ 500 milhões.

As leis de Nova York, onde o Citibank tem sede, reconhecem que, em caso de engano em transferências bancárias, a parte prejudicada tem o direito de receber o dinheiro de volta. Com base nisso, o Citibank abriu um processo judicial contra os credores que negaram a devolução.

Mas há um porém: em um caso de transferência de dinheiro que aconteceu em 1991, um tribunal de Nova York decidiu que, quando um credor não tiver conhecimento de que um pagamento foi realizado por erro, pode tratá-lo como uma restituição do empréstimo e, assim, não precisa devolvê-lo. O juiz federal Jesse Furman usou esse precedente neste caso.

Eis o resultado: o Citibank continua sem o dinheiro. Embora o banco tenha notificado os credores sobre o erro rapidamente, para o juiz, eles podem presumir que um banco sofisticado como o Citibank não transferiria uma grande quantidade de dinheiro por engano.

Sem nenhuma surpresa, o banco já declarou que irá recorrer. Por conta disso, Furman determinou que os credores mantenham os valores em custódia até que uma decisão definitiva seja expedida pelo tribunal.

Com informações: Ars Technica, The News York Times.

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Eu (@Keaton)

quando um credor não tiver conhecimento de que um pagamento foi realizado por erro, pode tratá-lo como uma restituição do empréstimo e, assim, não precisa devolvê-lo.

Espera… eles não foram informados da bobagem? Então como “não tiver conhecimento” foi válido? wtf?

² (@centauro)

Na decisão do juiz ele expandiu um pouco mais a explicação.

O argumento é de que não é razoável imaginar que uma instituição do tamanho do Citibank (principalmente em termos de capital e, portanto, capacidade de investimento em sistema de segurança para evitar erros) iria mandar exatamente o valor que cada credor deveria receber por engano.

Nas palavras dele:

Eu (@Keaton)

Sim, sim, mas ele desconsidera o fator humano.Sempre há a primeira vez pra tudo. Se ele realmente acredita que os seres humanos não poderiam errar, ele deve ser meio doido da cabeça… :\

Jedielson (@Jedielson)

Eu acho (e eu também) que ele pensa que um banco desse tamanho pelo menos teria rotinas redundantes para verificação de valores tão altos assim antes de serem enviados.

Eu (@Keaton)

Sim, eu sei que deve ter. Mas sempre tem o fator humano para fazer bobagem. hahaha
(funcionário exausto acaba ficando desatento para detalhes e pode ser que num momento de exaustão simplesmente liberou)

Daniel Ribeiro (@danarrib)

O credor pode fingir demência ué. “Puxa, que legal que adiantaram o pagamento do empréstimo! Obrigado Citibank”. (Credor deixa a sala).

Citibank tenta contato, mas só encontra o vácuo do espaço.

Valdinei Ferreira (@valdinei)

“Cara, ainda bem que não sou você”

² (@centauro)

O banco tinha uma rotina pra isso. A rotina era que uma transação desse valor teria que ser assinada por 3 funcionários diferentes.
Segundo o Ars:

Me parece razoável pensar que uma transação aprovada e realizada num sistema que requer a assinatura de 3 pessoas diferentes de locais diferentes e graus diferentes de função (e que precisam revisar a transação) não vai ser um erro.

Caleb Enyawbruce (@Enyawbruce)

Olha, eu acho que bancos são instituicoes com lucros absurdos e tudo mais, mas nao entendo pq um erro nao deva ser corrigido. Nao vejo sentido em alguem ficar com um dinheiro q nao é seu. Muito menos em ser necessaria uma briga na justiça pra isso. Nao importa a causa, se recebeu a mais devolve e fim de papo.

Eu (@Keaton)

É a má fé do pessoal que recebeu.

² (@centauro)

Mas o dinheiro é de quem recebeu.
Quem recebeu o dinheiro era credor do Revlon. O banco estava agindo como intermediário.
O banco enviou o pagamento da dívida antes do previsto.
Quem recebeu supos que o banco resolveu, por qualquer motivo que seja, liquidar a dívida antes.

Tem outro detalhe nesse rolo todo também.
Teve uns rolos que a Revlon passou por dificuldades financeiras por causa da pandemia e pra conseguir um novo empréstimo acabou transferindo o colateral do empréstimo antigo para esse novo contra a vontade dos credores antigos. Isso significa que se a Revlon quebrasse os credores antigos (esses que receberam o dinheiro nesse rolo) ficariam a ver navio.

De qualquer forma, o Citibank ainda tem direito de recorrer da decisão favorável aos credores.