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Geração Z: os apressadinhos da web

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apressados-noel

A cena descrita a seguir é um flashback do fim dos anos 80, do qual recordo-me com detalhes: numa loja de discos na Av. Mal. Deodoro, no centro de Curitiba, eu me sentia radiante com um disco em mãos: a trilha sonora de Les Girls, filme com meu ídolo Gene Kelly. Era um disco de uma coleção de trilhas de filmes musicais da Metro dos anos 40 e 50, lançado nos EUA anos antes, mas que eu só tinha um exemplar em casa. Os demais jamais vieram para o Brasil, mesmo assim eu estava feliz em ter conseguido o segundo – ainda que pago uma nota preta, pois era importado.

Exatos 5 anos depois, quando fui à Disney, consegui comprar várias outras unidades da coleção que tanto ambicionei, e que estavam uma pechincha, pois já não eram mais novidade nos EUA. Fiz a festa com os duplos de An American In Paris e Singin’ in the Rain, entre outros.

Essas recordações vieram-me à tona em 2 momentos recentes: no season finale da 5a temporada de Lost e quando a Apple lançou mundialmente o sistema operacional Snow Leopard.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Bem, eu assisti o desfecho da 5a temporada de Lost cerca de uma semana depois dele ter chegado na iTunes Store e nos torrents. Até esse dia eu me considerava grande fã da série, daquelas que não agüenta de expectativa para saber o destino dos personagens que tanto gosta. Mas que não teria problemas em esperar alguns meses até que a temporada chegasse às lojas brasileiras, em DVD. Fiz isso na anterior, quando passei 1 ano e meio sem banda larga.

Até que tomei conhecimento de amigos meus que, naquele dia, ficaram de plantão durante a madrugada esperando alguém soltar o primeiro torrent. Nos EUA o seriado vai ao ar às 9 da noite (por volta das 23h ou meia-noite aqui, dependendo da região) mas a galera não dorme enquanto não baixar e assistir ao vídeo. Outros amigos, que não queriam esperar nem o torrent, pediam para que pessoas nos EUA colocassem o computador na frente da TV e transmitissem via webcam, pelo Ustream, o desejado capítulo final. Sim, a qualidade é péssima, mas e daí? Mais tarde se baixa e assiste outra vez, no momento a prioridade era saber como a temporada terminou. Passaram o dia seguinte como zumbis, mas a par da história.

No final do mês passado a Apple liberou o novo e badalado sistema operacional Snow Leopard, e aconteceu algo parecido. No Brasil ele chegaria um mês depois, mas não me preocupei com isso: afinal, muitos softwares para Mac precisariam de updates para funcionar bem no novo SO. Mas não foi o que aconteceu com muitos fãs de Mac, já que um site constatou que boa parte de seus leitores já o acessava a partir do novo sistema antes mesmo dele chegar oficialmente ao Brasil. É verdade que a Apple já melhorou muito em termos de agilidade e tivemos o Snow Leopard menos de um mês antes do lançamento oficial nos EUA, mas creio que isso não é suficiente.

Lição número 1: nos dias atuais, não se cogita menos que lançamento mundial simultâneo para software ou audiovisual. As empresas ainda escolhem datas de lançamento de produtos (ou não lançamento) por critérios territoriais. Não acordaram para se dar conta que não há fronteiras na internet. Os problemas são mais profundos que mera pirataria, como julgam.

Lição número 2: não sabemos mais esperar. Lógico que eu não gostaria de voltar aos anos 80 para aguardar uma viagem ao exterior (ou a boa vontade de um importador) para comprar um álbum ou filme. Mas a mesa virou: caminhamos ao outro extremo, e quando somos obrigados a ficar 3 minutos numa fila para comprar sorvete, sofremos à angústia.

O tema da coluna dessa semana seria outro, mas senti a necessidade de fazer esse desabafo ao saber de amigos e colegas que estão diagnosticando sequelas do primeiro grande mal moderno: a ansiedade. Gente que mal fez 30 anos e já esta tomando remédio para hipertensão! Gente magra, que não fuma e vai à academia. O que está havendo com a “geração saúde”?

Resposta: excesso de trabalho, de compromissos, de cobranças. Tudo tem que ser rápido, de fácil digestão, para ontem, afinal, há mil outras coisas esperando para serem feitas. A luta é contra o relógio e a meta é produtividade. Não se vai mais em casa almoçar, como meus pais faziam quando eu era criança. Almoçávamos todos juntos em casa, todos os dias! Hoje não dá mais. Comida, tem que ser fast food. Relacionamentos amorosos, tem que ser ficar. Ler um livro para fazer um trabalho é absurdo: resumos são passados de mão em mão. Ou melhor, de caixa de entrada em caixa de entrada…

Minha geração (faço parte da X) sofreu muito com essa transição para o mundo online. Na época da escola, tínhamos uma semana para escrever uma redação. Íamos na biblioteca e ficávamos horas fazendo trabalhos. Hoje, nas pós-graduações, temos que pesquisar no Google e mandar o trabalho por email no dia seguinte! Tudo acontecendo tão rápido que não aprendemos a lidar com o excesso de informação. Temos que fazer cursos de administração do tempo e gestão do conhecimento.

E essa meninada, a geração Z, que já nesceu na correria? (ou como diz um amigo meu, não nasce, vem por download) Que tem agendas lotadas, como executivos? Chegam em casa, depois de fazer mil coisas durante o dia, e ainda sentam no computador e assistem vídeos, navegam em redes sociais, papeiam no MSN. Crianças de 12 anos passam em vestibulares (de faculdades meia-boca, é verdade) não porque são geniozinhos, mas porque são bem informadas!

Se meus contemporâneos, na casa dos 30, já vão ao cardiologista, a geração Z já vai a psiquiatras e ginecologistas. Sim, há cada vez mais crianças com depressão e meninas menstruando com 8 anos.

Se você tem filhos, faça um teste com eles: passar uma tarde inteira com caderno de cartografia, lápis de cor, papel de seda e atlas geográfico, desenhando e pintando o mapa do Brasil. Coisa que eu fazia como lição de casa na minha infância. Será que eles tem paciência para passar 15 minutos na frente dos cadernos, sem correr para o computador e imprimir o mapa via Google Earth para “ganhar tempo”?

A culpa não é da internet. A internet não é problema, é solução. Problema somos nós. Somos abelhas morrendo afogadas em potes de mel.

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Vanessa
Bia, adorei seu texto,sou da geração dos imigrantes, mas adoro essa nova geração,que está sempre pronta para mudanças,estão sempre buscando o novo,e isso acontece a todo momento de maneira mais prática que a nossa geração. O que eu mais curto neles, é a criatividade,praticidade e os argumentos que são espontâneos.
FLORENTINA
Não sou de nenhuma dessas gerações de "letra" mas admiro todas elas. São jovens, soltos, sem medo, mexem e remexem, acham tudo o que querem com a maior facilidade, E eu estou aqui, parada.........pensando.....tentando.........me aproximar,Mas agora vou.Com certeza.Professor é aquele que ensina e aprende.
SolangeA. Camerino
Tudo isso é uma loucura, mas não podemos nos afastar ou ignorar o crescimento de novas tecnologias.Pensamos que, o que aprendemos quando estudávamos era suficientemente bom para a época de fazer lições de casa como o colega postou. Eu estou entrando no mundo digital, quase me aposentando e é maravilhoso,com cautela e dúvidas retirando do universo digital tudo o que posso e dos meus alunos a sabedoria da prática de manusear toda essa interatividade virtual.A escola tem que se preocupar e reconhecer as gerações interativas.
Ri
bem, nasci em 1996, e acho que a geração y e z vão mudar o mundo, apesar da y ser mais antiga, quando eles eram jovens e descobriram tudo a Z estava nascendo, bem acho que hoje em dia não precisa de aula de informatica na escola, só para menos de 10 anos, pq tem garotos)as) de 7 anos e tem msn e de 9 com orkut! eu fiz meu orkut com 10 anos em 2006 e msn com 9, nossa geração sabe de tudo sobre aquecimento global e sabe o que fazer desde pequeno par reverte-lo. nascemos informados e conectados com o mundo mas não pense mau, pois nosso netos e bisnetos nascerão na geração de viajens para marte, inteligencia artifial e robos as pencas, um mundo devastado se nos a geração z não fizermos nada.
Diego
perda de tempo total de tempo, o mundo sempre foi dinamico toda a geração que olha para traz ve mudanças significativas na vida das pessoas boas ou ruins a sociedade vai se adequar! No pain No game! ;)
fernando
Adorei esse texto bia! expurgou td q eu acho dessa geração perdida- a qual ainda faço parte particularmente acho q a única forma de lidar com esse mundo horroroso onde tds se com[ortam como pac-mans movidos a energy drink eh um retrocesso gradual a décadas passadas, talvez arrumando um substituto pra internet depois dá um pulinho no meu blog lá tem mtas opiniões minhas sobre a vida moderna http://fernandoyanmar.wordpress.com
Jonas L M Borges
Bia, Eu sou curitibano e entendo perfeitamente sua nostalgia (nasci em 1977). Lembro-me que, antigamente, meu pai me levava para tomar sorvete no "Caramba". Como era gostoso! Não o sabor do sorvete em si; mas a sensação de ir a uma SORVETERIA!!! (Sim, sorveteria. Alguém aí pode me citar pelo menos duas?). Hoje em dia, ou vc compra logo um pote pra comer em casa... ou vc compra as tais casquinhas mecanizadas de lanchonetes. O mesmo se dá com refrigerantes (cascos de vidro, obviamente), onde vc saboreava a sensação. Perdeu-se o prazer de ficar sentado num balcão, jogando conversa fora com amigos. Ninguém tinha celular pra ficar mandando torpedos ou tuitando. As pessoas pareciam ter muito mais TEMPO do que hoje. Esses tempos atrás eu tentei resgatar tais valores dos anos 80 no meu cotidiano (Eles dão saudades, sim; mas já se foi a época). Por incrível que pareça, não consegui, pois parece que "faltam tentáculos ao meu corpo" (ex: celular, internet...). Não sei se fico feliz em saber que não sou mais criança... ou se fico triste em saber que a tal Geração Z nem se interessa em compartilhar tais lembranças (Lembranças essas, que elas jamais terão, pois até mesmo uma fotografia hoje em dia deixa de ser passada para o papel). Lastimável. (Twiter: @jonascorreios)
Leno
Excelente! Vou mandar para uns amigos\familiares!
Alberto Vicente
De fato, internet não é problema, é solução, pois o problema está em nós. Pelo menos uma esperança tem que nos restar: que encontremos singelezas nessa geração Z, podem ser tecnológicas, mas que não deixem de ser singelezas...
Jones José
Hum, e eu então, sou de 67, sou dinossauro na informática, do tempo dos disquetões flexíveis de 5 1/4', do tempo de curso de datilografia. Quem faz datilografia hoje? E como é que essa geração Z consegue digitar tão rápido, como eu vejo minha filha de 16 anos quase quebrando o teclado de tanto digitar ao mesmo tempo em Messenger, Orkut, Twitter ... ?
Flavio Gomes
A geração de hoje é outra. É uma geração tecnológica. A prova? A linguagem deles. "Vamos twitar... Vamos postar... Vamos teclar..."
Rafael R Noronha
Nossa muito legal esse seu texto falando sobre a Geração Z. Eu sou da Geração Y e penso que os nossos filhos saltarão da barriga com um mouse e um teclado na frente deles. Parabéns pelo post!
filipe
NIiiiiiiiiiiiiiiice !! Sou de 88, então to no meio do é "velho", o que foi atual e o que é moderno. Vejo todo este sistema e nao consigo me render a ele. É uma correria, as pessoas nao tem tempo pra nada direito, um compromisso entra no tempo do outro, acabam que tudo fica ruim. Em ambos os sentidos para todos os lados da equação. Por isso vou cair para praia, me aprofundar mais ainda no probloguismo, fazer meu proprio horario, compra peixe barato, pescar nos finais de semana, e fugir pra bem longe do ritmo de vida que só tende a continuar deste jeito. Viva os anos 80 !! [quando agente jogava street fighter e jogava bola na chuva hauuaahauhuahuh ]
Duda Marques
Como você, faço parte da geração X e, apesar da proximidade alfabética, a Z parece um pouco distante da minha realidade. Nos tempos idos de 2007 escrevi um texto que expressava essa angústia do tempo rápido demais, sem tempo para simplesmente, parar. Se lhe interessar, segue o link. Parabéns pela crônica - sensacional a frase do seu amigo... foi o título de meu tweet apontando pra cá. Beijo e até. http://dudamarques.blogspot.com/2007/03/veloz.html
Nick Ellis
Mais um texto sensacional, Bia. E eu também sempre assisto as minhas séries favoritas no dia seguinte em que são exibidas nos Estados Unidos.
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