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Amazon nega que motoristas urinam em garrafas para bater metas, mas…

Documentos obtidos pelo The Intercept mostram que Amazon estava ciente sobre fezes e urina deixados em vans e bolsas de entrega

Ana Marques Por

Uma polêmica recente envolvendo as condições de trabalho na Amazon se espalhou após o comentário do executivo Dave Clark em provocação ao senador Bernie Sanders. Clark fez uma publicação no Twitter enaltecendo os benefícios de trabalhar para a gigante do comércio eletrônico, mas um contra-argumento publicado por um membro do Congresso dos EUA fez com que muitas pessoas relatassem exatamente o oposto.

De acordo com os trabalhadores que atuam no setor de entregas, as condições são tão precárias que forçam motoristas a urinar em garrafas para bater metas. A Amazon negou tais acusações, mas aparentemente há provas de que a situação é real.

Van de entrega (Imagem: Divulgação/Amazon)

Van de entrega (Imagem: Divulgação/Amazon)

O democrata Mark Pocan respondeu ao tweet de Clark afirmando que “pagar US$ 15/hora aos trabalhadores não faz de você um local de trabalho progressivo quando você quebra o sindicato e faz os trabalhadores urinarem em garrafas de água”, trazendo à tona relatórios de 2018, que denunciavam tais insalubridades.

A Amazon imediatamente se posicionou, negando as acusações. “Você não acredita realmente nessa coisa de fazer xixi nas garrafas, não é? Se isso fosse verdade, ninguém trabalharia para nós”, disse o perfil da empresa no Twitter.

Apesar disso, há provas não somente de que há motoristas urinando e defecando dentro das vans, como também registros operacionais que mostram que a Amazon estava ciente de tudo.

Registros revelam que motoristas “urinavam e defecavam em público”

De acordo com documentos obtidos pelo The Intercept, a administração logística da empresa identificou tais ações como infrações recorrentes, sem fazer efetivamente nada para amenizar as causas por trás de tudo isso – a não ser impor mais pressão aos motoristas.

Uma planilha com data de janeiro e rótulo de confidencialidade fornecido por um funcionário da Amazon em Pittsburgh, Pensilvânia, detalha as infrações. Dentre diversas ações, há a especificação “urinar em público” e “defecar em público”.

Planilha confidencial lista infrações cometidas por trabalhadores (Imagem: Reprodução/The Intercept)

Planilha confidencial lista infrações cometidas por trabalhadores (Imagem: Reprodução/The Intercept)

Além da planilha de infrações, há também um e-mail enviado por uma gerente da área logística da Amazon em maio de 2020. O texto pedia a outro funcionário responsável pela frota de entrega que orientasse os motoristas a não urinar ou defecar em bolsas da Amazon, sob ameaça de punição. De acordo com o e-mail, transcrito abaixo, era a terceira vez que a infração se repetia em dois meses.

“Esta noite, um associado descobriu fezes humanas em uma bolsa da Amazon que foi devolvida à estação por um motorista. Esta é a terceira vez nos últimos 2 meses em que as malas voltam à estação com fezes dentro. Entendemos que os motoristas associados podem ter emergências enquanto estão na estrada e, especialmente durante a Covid, os motoristas têm dificuldade em encontrar banheiros durante as entregas. Ainda assim, eles não podem, NÃO DEVEM, retornar as bolsas à estação com cocô dentro.

Notamos um aumento recente de todos os tipos de lixo insalubre sendo deixados dentro de sacos: máscaras usadas, luvas, frascos de urina. Ao escanear o código QR na sacola, podemos identificar facilmente o promotor que estava com a sacola por último. Esses comportamentos são inaceitáveis ​​e resultarão em Infrações de Nível 1 no futuro. Comunique esta mensagem aos seus motoristas. Eu sei se pode parecer óbvio ou algo que você não deveria treinar, mas seja explícito ao comunicar a mensagem de que NÃO PODEM fazer cocô ou deixar frascos de urina dentro de bolsas.

A saúde e segurança de todos os motoristas e associados da Amazon sempre serão nossa prioridade. Nenhum de nós deveria lidar com esse tipo de situação. Por favor, responda e confirme que você recebeu este e-mail.”

O e-mail da gerente de logística da Amazon (Imagem: Reprodução/The Intercept)

O e-mail da gerente de logística da Amazon (Imagem: Reprodução/The Intercept)

O site Motherboard também afirma ter recebido provas sobre as denúncias… Fotos das próprias garrafas de xixi. Segundo o veículo, a identidade e função do entregador foram confirmadas.

Supostas garrafas com urina usada por motorista da Amazon (Imagem: Reprodução/Motherboard)

Supostas garrafas com urina usadas por motorista da Amazon (Imagem: Reprodução/Motherboard)

Pressão para bater metas é a causa do problema, dizem motoristas

A Amazon realmente tem políticas que proíbem este tipo de situação, e estipulam um tipo de punição para tais ocorrências, mas as regras são “hipócritas”, segundo trabalhadores.

“Eles nos dão 30 minutos de descanso remunerado, mas você não terminará seu trabalho se o fizer, não importa o quão rápido você seja”, disse um entregador da Amazon baseado em Massachusetts ao The Intercept.

“Eu posso te dizer que se eu dirigisse para encontrar um banheiro, eu estaria trazendo pacotes de volta todas as noites e isso eventualmente significaria que eu teria infrações, o que levaria à rescisão”, explicou outro trabalhador ao Motherboard.

As coisas teriam piorado ainda mais com a alta demanda de entregas durante a pandemia de COVID-19. “Ao longo do meu tempo lá, nosso pacote e contagem de paradas aumentaram substancialmente”, informou Halie Marie Brown, de 26 anos, que atuou como motorista associada.

Motoristas serão vigiados por câmeras alimentadas por IA

Para tornar a situação ainda mais complexa, a Amazon passou a exigir o monitoramento de motoristas em tempo integral dentro das vans, com câmeras alimentadas por inteligência artificial.

Muitos motoristas protestaram contra a nova regra, afirmando que ela é “uma outra forma de controlá-los” e classificando-a como “invasão de privacidade”, mas a Amazon defende a ideia argumentando que trata-se de um investimento em segurança.

“Estamos investindo em segurança em nossas operações e recentemente começamos a lançar a tecnologia de segurança baseada em câmera líder do setor em nossa frota de entrega. Esta tecnologia fornecerá aos motoristas alertas em tempo real para ajudá-los a se manter seguros quando estiverem na estrada”, disse um porta-voz da empresa ao The Verge.

A Amazon ainda não fez um novo pronunciamento sobre os documentos que revelam o conhecimento da empresa sobre os dejetos deixados por motoristas em vans.

Com informações: The Intercept e Motherboard

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Júlio César (@Potrinho)

“Eu posso te dizer que se eu dirigisse para encontrar um banheiro, eu estaria trazendo pacotes de volta todas as noites e isso eventualmente significaria que eu teria infrações, o que levaria à rescisão”

Apesar disso, é comum ver pessoas falando “você pode escolher não trabalhar lá”, como se fosse uma decisão tão fácil assim, ainda mais em tempos de pandemia.

² (@centauro)

É porque tem gente que acredita que todas as pessoas estão no emprego atual única e exclusivamente porque querem. Não existe falta de opção de emprego, não existem necessidades imediatas que precisam ser sanadas, não existe discriminação no processo de seleção de empregos. Você só tem a si mesmo para responsabilizar por estar trabalhando aonde está.

Se não consegue um emprego melhor, é porque você não estuda/estudou mais, é porque você não busca/buscou novas skills, é porque você não procura/procurou direito. Não importa se você não faz essas coisas porque você não tem nem tempo nem dinheiro, a culpa ainda assim é sua.