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Canon usa câmeras na China que só liberam funcionários com sorriso no rosto

Câmera da Canon só libera acesso a escritório se funcionário sorrir; empresas na China monitoram local exato dos empregados e tempo no banheiro

Felipe Ventura Por

Diversas pesquisas mostram que, só de colocar um sorriso no rosto, seu humor melhora e o estresse diminui. A Canon levou essa ideia ao extremo com uma câmera que só libera acesso ao escritório na China se o funcionário estiver sorrindo. Esta é uma de muitas estratégias adotadas para aumentar a produtividade de formas cada vez mais invasivas – incluindo acompanhar o local exato do empregado e o tempo gasto no banheiro.

Câmera libera acesso se você sorrir (Imagem: Divulgação / Canon)

Câmera libera acesso se você sorrir (Imagem: Divulgação / Canon)

Sorria! Ou a câmera da Canon não autoriza acesso

A tecnologia de “reconhecimento de sorriso” foi lançada pela Canon em 2020 e vem sendo usada em seu escritório de Pequim, de acordo com o Financial Times: apenas funcionários sorridentes podem entrar ou reservar salas de conferência.

A câmera inclui 5 módulos opcionais: controle de acesso e presença; medição de temperatura; gerenciamento de salas de reunião; registro de visitante; e registro de biometria facial.

A Canon diz que esse produto é pensado para todo tipo de local, incluindo empresas, órgãos governamentais, hospitais, escolas, bancos e restaurantes.

Entrada do escritório da Canon na China (Imagem: Divulgação)

Entrada do escritório da Canon na China (Imagem: Divulgação)

Em comunicado à Nikkei, a Canon China defendeu a tecnologia:

Geralmente, as pessoas são muito tímidas para sorrir, mas quando se acostumam com isso no escritório, elas simplesmente mantêm o sorriso sem o sistema, criando uma atmosfera positiva e animada.

Estudos no campo da psicologia vêm confirmando que mesmo um sorriso falso consegue melhorar seu humor. Basicamente, isso ativa certos músculos faciais que “enganam” o cérebro fazendo achar que você está feliz.

No entanto, isso pode ser considerado como invasivo, assim como outros exemplos reunidos pelo FT. Isso é um problema especialmente na China, onde não há muitas proteções à privacidade dos funcionários – e onde o controle sobre eles é mais intenso.

Sorria ou você não vai entrar nesta sala de reunião (Imagem: Divulgação / Canon)

Sorria ou você não vai entrar nesta sala de reunião (Imagem: Divulgação / Canon)

Empresas na China usam monitoração invasiva

Por exemplo, a empresa de software Zhongduantong criou um app de celular no qual os funcionários devem fazer check-in em locais predefinidos dentro de um determinado período, além de enviar uma foto dos arredores para provarem onde estão.

Diversas empresas usam esse aplicativo: por causa dele, um gerente de vendas foi multado em US$ 31 – ele saiu do escritório no horário de almoço para fazer uma visita com motivos pessoais. Em outro caso, um funcionário foi punido por navegar no Weibo – equivalente ao Twitter na China – enquanto estava no banheiro por 10 minutos.

Localização de funcionários que usam o app da Zhongduantong (Imagem: Reprodução)

Localização de funcionários que usam o app da Zhongduantong (Imagem: Reprodução)

Por sua vez, a Kuaishou Technology resolveu instalar um relógio com contagem regressiva acima de cada um dos cubículos do banheiro, para que os empregados não demorassem muito. Após uma reação negativa nas redes sociais, os timers foram removidos.

Uma empresa de jogos desenvolveu um sistema de controle de funcionários chamado DiSanZhiYan, ou “Terceiro Olho”. Ele foi instalado em diversos notebooks, sem qualquer aviso aos funcionários, para gravar conversas, acompanhar o histórico de navegação e monitorar suas telas em tempo real, como você pode ver abaixo:

Terceiro Olho permite acompanhar desktop dos funcionários em tempo real (Imagem: Reprodução)

Terceiro Olho permite acompanhar desktop dos funcionários em tempo real (Imagem: Reprodução)

Além disso, ele sinaliza “comportamento suspeito”, como visitas a sites de vídeo ou a plataformas para busca de emprego; e gera relatórios com o tempo gasto em cada site e app.

Andy Wang, que ajudou a criar o Terceiro Olho, acabou se demitindo. Ele disse à Nikkei: “não faz sentido, não podemos trabalhar sem parar no escritório, precisamos fazer algumas pausas”.

Com informações: The Verge.

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² (@centauro)

Eu lembrei desse trecho do David Mitchell (1:51):

“The thing that seems unfair to me is the number of people who are expected to care about the jobs they don’t care about. (…) You can’t put in the contract: Also, you have to seem like you give a sh*t.”
Traduzindo:
“O que me parece injusto é o número de pessoas de quem se espera que se importem com um trabalho que eles não se importam. (…) Você não pode colocar no contrato: Além disso você precisa parece que se importa.”

Será que agora vamos começar a ter contratos de trabalho que exigem que você pareça feliz?