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Dados “anônimos” expõem padre que usava Grindr, app para público LGBT+

Dados extraídos do celular do padre revelaram que ele tinha conta em app para público LGBT+, e ia a bares gays durante viagens oficiais a trabalho

Pedro Knoth Por

Apps de relacionamento coletam informações usando a localização do celular. Usar plataformas como Tinder ou Happn não é crime e geralmente não coloca em risco o emprego de alguém — exceto, por exemplo, quando o trabalho está associado ao alto escalão da Igreja Católica. O padre Jeffrey Burril renunciou ao cargo depois de um vazamento de dados “anônimos” revelar que ele tinha conta no Grindr, aplicativo para o público LGBT+.

Grindr em celular Android (Imagem: Ivan Radic / Flickr)

Grindr em celular Android (Imagem: Ivan Radic / Flickr)

Site comprou dados de Grindr por meio de fonte anônima

Não está claro quem interceptou os dados do telefone de Burril. O portal de notícias católico The Pillar confirma que comprou as informações de um vendedor e revisou-as diretamente com uma firma terceirizada independente. O site não nomeia o vendedor ou a empresa contratada.

Especialistas em segurança e privacidade afirmam ao The Washington Post que não se lembram de outras ocasiões em que os dados “anônimos” levaram à identificação de uma pessoa. Mas informações como a geolocalização do usuário são compartilhados por apps como Grindr, Tinder e Happn com agências de marketing, por exemplo.

Esse tipo de dado obviamente é vendido em um pacote “anonimizado”, mas que inclui idade, sexo, gênero e ID de aparelho. Ao cruzar essas informações, especialistas dizem que é possível revelar a identidade do usuário. O dado deixa de ser, portanto, anônimo.

Jennifer King, pesquisadora de privacidade e segurança do Institute of Human-Centered Artificial Intelligence da universidade de Stanford, afirma ao Washington Post que não há leis que proíbam a venda desse tipo de dado nos EUA. A especialista ainda aponta: o caso é um lembrete de que ninguém com o rastreamento por localização ligado no celular está realmente anônimo.

Dados “anônimos” revelam que padre ia a bares gays

Jeffrey Burril não era do baixo clero da Igreja, e sim o Monsenhor — título eclesiático concedido pelo Papa — da diocese de La Crosse, no Wisconsin. Ele era responsável por administrar a agenda da convenção de membros da Igreja Católica; como clérigo, ele é obrigado a jurar um voto de celibato. A doutrina católica proíbe relacionamentos homossexuais.

Sede da USCCB, da qual o padre que usa Grindr se demitiu (Imagem: Fr. Gaurav Shroff/Flickr)

Sede da USCCB, da qual o padre que usa Grindr se demitiu (Imagem: Fr. Gaurav Shroff/Flickr)

O padre, que também era administrador da Conferência Nacional de Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), deixou o cargo depois das revelações do The Pillar. Segundo o site, ele não só tinha uma conta no Grindr, como também frequentava bares para o público LGBT+ em viagens oficiais a trabalho.

Na terça-feira (20), após as denúncias levantadas pelo The Pillar, o diretor da USCCB, José Gomez, comunicou que o padre não fazia mais parte da associação. A carta dizia que o anúncio era motivo de “grande tristeza” e que a USCCB soube das acusações no dia anterior e iria investigar o caso.

Uma porta-voz do Grindr comentou que a história do The Pillar é homofóbica. Ela completou dizendo que é impossível que os dados do aplicativo sejam publicamente acessados:

​​“As supostas atividades listadas na matéria não-atribuída do blog são inviáveis de um ponto de vista técnico e é muito improvável que isso de fato aconteça. Não existe nenhuma evidência que apoie a teoria de coleta e uso impróprio de dados do Grindr.”

Vazamento coincide com denúncias do spyware Pegasus

Antes de o caso ser divulgado, na segunda-feira (19), uma fonte anônima escreveu um artigo publicado pela Agência de Notícias Católicas (CNA) que continha a revelação de membros que usam apps de paquera como o Grindr. A nota não mencionou ninguém específico, mas antecedeu o escândalo de Jeffrey Burril.

Pegasus pode espionar iPhones sem usuário perceber (imagem ilustrativa: Darwin Laganzon/Pixabay)

Pegasus pode espionar iPhones sem usuário perceber (Imagem: Darwin Laganzon/Pixabay)

O vazamento dos dados do Monsenhor coincide com uma série de revelações sobre o uso de um software chamado Pegasus, que espionava usuários de iPhone, por meio de apps como o iMessage; celulares Android também estavam na mira.

O fundador do Telegram e o presidente da França, Emmanuel Macron, estão entre os alvos, que também incluem jornalistas e ativistas de países como México e Arábia Saudita.

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Pedro Uislei Alves Martins (@Adrien)

Aí você vai na missa dele e encontra homofobia