Depois das eleições, me desconectei por 2 dias para descansar, e ao voltar ao trabalho na 4a-feira, levei um susto. As manchetes em todos os portais da web noticiavam que um embate entre paulistas e nordestinos tomou o Twitter de assalto.

“Embate” é um termo civilizado para classificar o baixo nível das mensagens, que eram mútuas. A página Xenofobia Não, dentro do Tumblr, publicou coletâneas dos tuítes agressivos e até criminosos. Uma estudante de Direito (Direito!) vai responder na justiça a respeito da mensagem que “convocava” seus seguidores a “afogar um nordestino”.

A baixaria supostamente começou com os eleitores paulistanos de José Serra apontando os nordestinos, tratando-os como cidadãos inferiores, como os responsáveis pela vitória da candidata Dilma à presidência.

Regionalismo à parte, algo me deixou ainda mais perplexa: a confusão começou nas redes sociais, e envolveu um público bastante jovem, socialmente privilegiado, supostamente informado e culto.

Ainda na campanha do 1º turno, vi também no Twitter vários comentários preconceituosos, e desde o início já me chamavam a atenção os dirigidos à candidata do PV, Marina Silva. Coisas do tipo “não vou votar em alguém com cara de doméstica sapatão”. Outros se referiam ao fato dela não usar maquiagem, ou passar apenas corante de beterraba nos lábios. Vários e vários, superficiais e carregados de preconceito.

Felizmente não de pessoas que sigo (se fosse, teria dado unfollow na hora), mas principalmente enquanto acompanhava debates da TV, pelas hashtags. Acho que sei selecionar bem quem eu sigo, mas é fora da minha timeline que vejo o que realmente pensa a chamada “elite brasileira formadora de opinião, que tem acesso à web e às redes sociais”.

Para começar, a discussão é inócua. Dilma não ganhou exatamente por causa do Nordeste, é só fazer as contas para ver que, se excluírmos Norte e Nordeste, ela teria ganho do mesmo jeito. Mas não importa: o episódio só nos faz lamentar o pensamento de colônia do brasileiro.

Na década de 30, Gilberto Freyre escreveu o clássico Casa Grande e Senzala, explicando a relação muito peculiar entre sinhôs e escravos, algo que não se vê em nenhum outro país do mundo. As décadas passaram e a essência permaneceu, com a sociedade brasileira se dividindo entre patrões e domésticas, elevador social e de serviço, paulistas e nordestinos, orkuteiros e facebookeiros. “Maldita inclusão digital!”, esbraveja e elite adolescente, ao se deparar com fotos de membros das classes C e D na rede social do Google. Que hoje assiste a uma certa debandada: para os jovens que fazem carteiraço digital, o Orkut se transformou no elevador de serviço da internet.

Outro livro interessante é Joaquim Nabuco Essencial, uma espécie de coletânea de artigos e trechos do diário do líder abolicionista, que exultou ao ver os escravos libertos pela princesa Isabel depois de 10 anos de luta. Mas de alguma forma, parecia prever que, séculos adiante, o conflito ora trágico, ora incestuoso entre negros e brancos não acabava ali.

A sociedade brasileira é complexa demais; a obra de Freyre provou isso. Basta comparar com a relação racial em outros países, como os EUA. Se o norte-americano é falso moralista, o brasileiro é um falso liberal. A única diferença é que hoje todos têm um mouse na mão e podem disseminar seu ódio para todo planeta com um simples clique.

Eu pensei que a internet, o maior disseminador de informação e conhecimento de todos os tempos, traria um pouco de ar fresco às discussões políticas, raciais e religiosas. Mas o que eu vi nos últimos dias no Twitter foi um mero papaguear de tudo o que se diz há 200 anos. Triste.

Comentários

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Marcelo
Seu comentário só reforça minha argumentação...
Erick
Não fiquei sabendo desse perrengue na época. Caramba! Reclamam que estão sob censura e vão logo censurar a mulher também. Delito de opinião? Que diabos é isso?
LaurenS.
Pra mim qlq um que tenha orgulho de ter 20 e tantos filhos e mal pode alimentar a si próprio é uma desgraça para a humanidade, sendo nordestino ou não. Mas convenhamos é só olhar os tópicos da comunidade "piores perfis do orkut" na rede social para entender pq a tal "xenofobia".
Rodrigo Esteves
Então Bia, ouve uma época que as pessoas podiam se esconder atrás de um perfil, achando que podiam tudo, e criavam uma aura de primeiros na caixa de areia, hoje, não é mais assim, não importa onde você esteja, boa parte das pessoas adicionadas a suas redes conhecem você pessoalmente, tem redes especializadas em marcar os locais onde você vai, está ou esteve, não tem como não ser encontrado, e quem sofre bullyng tem poder de se defender juridicamente, e quem causa, paga pelo erro sempre da pior forma possível, já que são pioneiros. www.inversao.desventuras.com.br
bawlaw
nao que nao existam, mas para um pais onde a educação muitas vezes é deixada para segundo plano, estes tipos de problemas só veem a se intensificar
Jane
O mesmo assunto do post do Mundo Tecno, http://www.mundotecno.info/destaque/o-dia-em-que-o-preconceito-tomou-conta-do-twitter em 01/11/2010. Triste realidade no Brasil!!
Vinicius Massuchetto
"supostamente informado e culto." Acho que não, né!?
@lucashingis
O Paulistano que comete esse tipo de preconceito não pode reclamar se o mesmo sofrer preconceito de um Americano. É exatamente a mesma coisa.
Guilherme Mac
Vc está jogando um problema social, educacional e cultural (típico dos brasileiros das cidades) nos nordestinos? Pq se tá, vc está completamente perdida nos argumentos. Essa "bagunça social" é comum em todo Brasil, e é resultado de 500 anos de descaso com o lado social e educacional, com as políticas públicas de desenvolvimento social (que reflete no econômico).
Breno Luiz
Deveriam ser presos para servirem de exemplo, pois estão denegrindo imagens de pessoas por motivos sem nexo e razão, são simplesmente um bando de babacas sem noção...
Cláudio
Desculpe a minha "ignorância". Eu sou gaúcho e há anos moro no nordeste e realmente ca gue i para o que a menina paulista disse.
Thiago Sabaia
Esses idiotas não tem o que fazer,ai fica zuando as outras pessoas.Até parece que elas iriam gostra que fizesse com elas. Desculpe o jeito de falar leitores.
Guilherme Mac
O "alarde" é simplesmente sublinhar o feito. Imagina, em uma sociedade preconceituosa, como aquilo foi excepcional, excepcional a ponto de ser o primeiro. Pra ter uma ideia, a poucas décadas a mulher passou a ser completamente capaz. Antes, por incrível que pareça, o pai e depois o marido era o responsável legal, pois a mulher não tinha, legalmente, capacidade civil. No mundo da informática é mais que sabido. Hoje uma empresa sempre dá preferência por homens. No e-mail de facul, uma empresa, nacionalmente reconhecida, até chegou a lançar vagas de estágio somente para homens. E o salário? Para o mesmo cargo é inferior. Por isso, então, qdo algo do tipo acontece, até sendo o primeiro, todos destacam.
@pedone87
A Bia usou o termo elite para aquele grupo social que detém a maior parte da riqueza do país, maior conhecimento, etc. Ela não diz que isso caiu do céu para este grupo, nem entra em detalhes de como os integrantes deste grupo conquistaram lugar neste. Ela também não diz que é bom ser "pobrezinho". Fato é que as nossas classes com maior poder aquisitivo, que se consideram cultas e mais informadas, são preconceituosas e, nas eleições deste ano, usou a internet para lutar contra o grupo dos ignorantes (que não são tão ignorantes assim mais e votam no que é melhor para eles). No fim das contas, eu acho que é um grupo defendendo o seu status contra outro lutando por uma chance de mudar de status. A sociedade brasileira é elitista. Aqui há precoceito racial, sexual, etc. mas o principal é o social.
@flaviac
Na minha humilde opinião, se é que ainda estão aceitando comentários aqui, é que se está dando demasiada importância a algo que não chegou a um nível de gravidade preocupante. Me explico, esão colhendo tweets isolados e colocando sob uma lupa, para que a realidade se veja aumentada, para que essas pessoinhas (vulgo attention wh0res) que postam coisas que deveriam guardar apenas pra elas mesmas, ganhem projeção, ou 15 minutos de fama, porque vejam, como dizem por aí, falem bem ou falem mal, falem de mim. Eu desafio você a me provar que mesmo em pensamento, nunca xingou aquele nordestino que fez predominar aquele grupo de forró no som do carro, ou nas festas de madrugada na sua vizinhança, etc, mesmo sabendo que seus pais, parentes são também nordestinos. (os meus são) Eu não tenho preconceito (ja disse q tenho pais nordestinos), mas também não sou hipócrita, não me venham com falsos moralismos não.
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