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Xenofobia na web (“a maldita inclusão digital”…)

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9 anos atrás

Depois das eleições, me desconectei por 2 dias para descansar, e ao voltar ao trabalho na 4a-feira, levei um susto. As manchetes em todos os portais da web noticiavam que um embate entre paulistas e nordestinos tomou o Twitter de assalto.

“Embate” é um termo civilizado para classificar o baixo nível das mensagens, que eram mútuas. A página Xenofobia Não, dentro do Tumblr, publicou coletâneas dos tuítes agressivos e até criminosos. Uma estudante de Direito (Direito!) vai responder na justiça a respeito da mensagem que “convocava” seus seguidores a “afogar um nordestino”.

A baixaria supostamente começou com os eleitores paulistanos de José Serra apontando os nordestinos, tratando-os como cidadãos inferiores, como os responsáveis pela vitória da candidata Dilma à presidência.

Regionalismo à parte, algo me deixou ainda mais perplexa: a confusão começou nas redes sociais, e envolveu um público bastante jovem, socialmente privilegiado, supostamente informado e culto.

Ainda na campanha do 1º turno, vi também no Twitter vários comentários preconceituosos, e desde o início já me chamavam a atenção os dirigidos à candidata do PV, Marina Silva. Coisas do tipo “não vou votar em alguém com cara de doméstica sapatão”. Outros se referiam ao fato dela não usar maquiagem, ou passar apenas corante de beterraba nos lábios. Vários e vários, superficiais e carregados de preconceito.

Felizmente não de pessoas que sigo (se fosse, teria dado unfollow na hora), mas principalmente enquanto acompanhava debates da TV, pelas hashtags. Acho que sei selecionar bem quem eu sigo, mas é fora da minha timeline que vejo o que realmente pensa a chamada “elite brasileira formadora de opinião, que tem acesso à web e às redes sociais”.

Para começar, a discussão é inócua. Dilma não ganhou exatamente por causa do Nordeste, é só fazer as contas para ver que, se excluírmos Norte e Nordeste, ela teria ganho do mesmo jeito. Mas não importa: o episódio só nos faz lamentar o pensamento de colônia do brasileiro.

Na década de 30, Gilberto Freyre escreveu o clássico Casa Grande e Senzala, explicando a relação muito peculiar entre sinhôs e escravos, algo que não se vê em nenhum outro país do mundo. As décadas passaram e a essência permaneceu, com a sociedade brasileira se dividindo entre patrões e domésticas, elevador social e de serviço, paulistas e nordestinos, orkuteiros e facebookeiros. “Maldita inclusão digital!”, esbraveja e elite adolescente, ao se deparar com fotos de membros das classes C e D na rede social do Google. Que hoje assiste a uma certa debandada: para os jovens que fazem carteiraço digital, o Orkut se transformou no elevador de serviço da internet.

Outro livro interessante é Joaquim Nabuco Essencial, uma espécie de coletânea de artigos e trechos do diário do líder abolicionista, que exultou ao ver os escravos libertos pela princesa Isabel depois de 10 anos de luta. Mas de alguma forma, parecia prever que, séculos adiante, o conflito ora trágico, ora incestuoso entre negros e brancos não acabava ali.

A sociedade brasileira é complexa demais; a obra de Freyre provou isso. Basta comparar com a relação racial em outros países, como os EUA. Se o norte-americano é falso moralista, o brasileiro é um falso liberal. A única diferença é que hoje todos têm um mouse na mão e podem disseminar seu ódio para todo planeta com um simples clique.

Eu pensei que a internet, o maior disseminador de informação e conhecimento de todos os tempos, traria um pouco de ar fresco às discussões políticas, raciais e religiosas. Mas o que eu vi nos últimos dias no Twitter foi um mero papaguear de tudo o que se diz há 200 anos. Triste.