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Chrome 94 traz recurso polêmico criticado por Mozilla e Apple

Nova versão, Chrome 94 traz Idle Detection API, que avisa quando o usuário está ocioso; recurso causou preocupações de privacidade

Giovanni Santa Rosa Por

Novas versões do navegador do Google geralmente trazem novidades bem sutis: uma ferramenta aqui, uma mudança de configuração ali. O Chrome 94, porém, promete dar um pouco mais o que falar. O navegador vem agora com uma API que serve para detectar quando o usuário está ocioso. O recurso gerou críticas: a Mozilla, por exemplo, entende que isso pode pôr em risco a privacidade do usuário e facilitar a vigilância.

Chrome 94 no Windows 10
Chrome 94 no Windows 10 (Imagem: Reprodução)

O que é a Idle Detection API do Chrome 94

O Chrome 94 disponibilizou a Idle Detection API para desenvolvedores. Caso optem por usá-la, é possível saber quando o usuário está ocioso. Isso é possível ao monitorar a interação com o hardware (teclado e mouse, por exemplo), se a tela está desligada, se o aparelho foi bloqueado ou se um descanso de tela está ativo. A interface precisa do consentimento do usuário para funcionar.

A API pode ser útil para alguns aplicativos que rodam no navegador, como mensageiros, para mostrar se o usuário está ou não online; recursos de demonstração em lojas, que precisam ser reiniciados caso abandonados; ou sites que usem muito do hardware, para saber quando poupar energia, processamento ou memória.

O problema é que as possibilidades de uso não param por aí.

Google Chrome (Imagem: Bruno Gall De Blasi/Tecnoblog)
Google Chrome (Imagem: Bruno Gall De Blasi/Tecnoblog)

API pode facilitar vigilância, diz Mozilla

A Mozilla foi uma das primeiras a se levantar contra o uso da nova API. Em uma discussão no GitHub, Tantek Çelik, líder de padrões de web da fundação, disse ter preocupações relativas a controle e vigilância de usuários.

Considero a Idle Detection API uma oportunidade muito tentadora para sites motivados pelo capitalismo de vigilância invadirem um aspecto da privacidade física do usuário, manter registros de longo prazo dos comportamentos físicos, discernir ritmos diários (por exemplo, hora do almoço) e usar isso para manipulação psicológica proativa (por exemplo, fome, emoção, escolha). Além disso, esses padrões grosseiros podem ser usados por sites para sub-repticiamente maximizar os recursos de computação locais para cálculos de prova de trabalho, desperdiçando eletricidade (custo para o usuário, aumentando a pegada de carbono) sem que ele dê consentimento ou até mesmo perceba isso.

Outra crítica veio da equipe por trás do WebKit, motor de renderização web usado no iOS e no macOS. Em uma lista de e-mails, Ryosuke Niwa, engenheiro de software da Apple, discute com Reilly Grant, que tem o mesmo cargo no Google. Niwa diz que as soluções para mitigar danos da API apresentadas por Grant não são suficientes e que não vê casos em que a ferramenta seja realmente útil para o usuário.

Google Chrome para iPhone (Foto: Bruno Gall De Blasi/Tecnoblog)
Google Chrome no iPhone (Imagem: Bruno Gall De Blasi/Tecnoblog)

Chrome já causou polêmica com substituto dos cookies

Não é a primeira vez que uma novidade do Chrome tem repercussão negativa e críticas de concorrentes. Recentemente, o Google tentou bloquear os cookies de terceiros. Até aí tudo bem: Firefox e Safari já fazem isso em nome da privacidade do usuário.

O problema foi que a empresa de buscas tentou colocar uma tecnologia para substituir os cookies chamada FLoC, que, teoricamente, agruparia dados de usuários semelhantes sem individualizá-los. É uma forma de continuar oferecendo aos anunciantes uma ferramenta para direcionar propagandas. Quando Apple e Mozilla bloqueiam cookies de terceiros, elas limitam essa capacidade.

Críticos consideraram a alternativa tão ruim quanto os cookies, e mesmo navegadores baseados no Chromium (a versão de código aberto do Chrome) como o Edge se recusaram a adotar o novo padrão. O Google, então, adiou a mudança para 2023.

Chrome 94 tem HTTPS-first e novo compartilhamento

Polêmicas de privacidade à parte, o Chrome 94 também traz novos recursos. Um deles é o HTTPS-first, que tenta usar o padrão seguro de conexão em todas as páginas — quando isso não é possível, o navegador exibe uma página de alerta. Outra novidade é a página de configurações, que agora está dividida em tópicos e mais fácil de navegar.

Página de configurações do Chrome 94
Página de configurações do Chrome 94 (Imagem: Reprodução)

Por fim, o Chrome também ganhou um novo recurso de compartilhamento chamado Chrome Sharing Hub. Ele fica em um botãozinho na Omnibox e dá opções para transmitir para outro aparelho, gerar QR code, copiar link ou postar em redes sociais.

Chrome Sharing Hub no Chrome 94
Chrome Sharing Hub no Chrome 94 (Imagem: Reprodução)

Esse recurso ainda é experimental e precisa ser ativado em chrome://flags#sharing-hub-desktop-omnibox para funcionar.

O Chrome 94 também marca o início do novo ciclo de atualizações do navegador. Agora, a cada quatro semanas, uma nova versão será disponibilizada.

Com informações: gHacks, 9to5Google

Comentários da Comunidade

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@doorspaulo

Chrome deixou de ser um navegador viável tem muitos anos.

Carlos Pacheco (@carlospachecool)

Eu acho esse discurso da Mozilla uma grande lorota.

Quando eles anunciaram o Proton, foi dito que as “melhorias” foram feitas com base nos “bilhões de cliques” dos usuários. Este tipo de telemetria também não é uma invasão de privacidade?

E se a Google é tão malévola, que tal abandonar o buscador padrão deles e passar a usar algo coerente com o discurso, como o DuckDuckGo?

A Fundação Mozilla tá perdida…

Hélio Márcio Filho (@heliommsfilho)

A Fundação Mozilla até que ainda tenta. E acredito no esforço deles. Realmente temos sempre que olhar telemetria com cuidado, mas pelo menos o Firefox tem código aberto. Logo, se essa telemetria coletasse dados pessoais acho que já teríamos ouvido reclamações. Mas pessoalmente prefiro desabilitar também.

Infelizmente a Fundação Mozilla não tem muitas fontes de receita, logo, o buscador padrão não poderia ser o DuckDuckGo.